Psicologia

Saúde
05/11/2022 04:00h

O luto é um processo natural, mas caso não tratado, pode evoluir para um estágio patológico

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O luto prolongado passou a ser considerado como um transtorno mental em 2022, na nova versão do manual de diagnósticos de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria (APA) e também na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com o Ministério da Saúde, o luto é um processo natural, caracterizado pelo sofrimento e pela saudade, normalmente desencadeado pela perda de algo ou alguém. Qualquer situação atrelada a um vínculo afetivo e que por algum motivo leve à perda, pode desencadear o luto. Esse processo pode se tornar um transtorno quando se estende por longos períodos, causando dor constante. Assim, a pessoa se torna incapaz de restabelecer a vida de maneira funcional.

Segundo a psicóloga Renata Frazilli, o luto é uma resposta emocional associada a uma perda dolorosa. Esta perda não é relacionada apenas à morte de alguém, pode estar ligada também ao término de um relacionamento ou à mudança de cidade de uma pessoa importante.

“A gente precisa entender que o luto é um processo natural que enfrentamos em um momento de dor, ele é marcado por uma dor aguda, intensa que tende a se transformar com o passar do tempo. Quando que o luto pode ser considerado prolongado? Conforme o manual diagnóstico estatístico de transtorno mental, vai depender do tempo de duração. No adulto os sintomas persistem por um período de doze meses ou mais, já nas crianças esses sintomas vão persistir por seis meses ou mais”, completa. 

Sintomas

Os sintomas desse transtorno são semelhantes aos da depressão e da ansiedade. A diferença é o fator motivador para o sofrimento. No luto prolongado, a perda sempre será o gatilho.

Os sinais de luto são diversos e variados: dor emocional intensa; saudade persistente; preocupação constante com a pessoa que faleceu e com as circunstâncias da morte; a dificuldade em se envolver com amigos e sentir que a vida não faz mais sentido.

“Para que o luto normal não acabe virando um transtorno mental, é importante que o enlutado vivencie o luto para que se possa chegar à aceitação dessa perda. Muitas vezes, antes de se chegar à aceitação, a pessoa passa por alguns estágios como a negação, a raiva, a tristeza. Até chegar à aceitação. É sempre bom que o enlutado mantenha contato com os amigos, com os vizinhos, com os familiares, com as pessoas próximas, na verdade, e que ele retorne às atividades que realizava antes dessa perda”, orienta a psicóloga.

Renata Frazilli observa que mesmo após esse período de aceitação do luto, ainda há dor, e recomenda procurar ajuda com profissionais da área de psicologia, que irão auxiliar a entender o que o enlutado sente para tratar de maneira adequada.

O Ministério da Saúde informa que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento para pessoas em sofrimento psíquico por meio dos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A Atenção Primária à Saúde é a porta de entrada para o cuidado, e tem papel fundamental na abordagem dos Transtornos Mentais, principalmente os leves e moderados; não só pela capilaridade, como também por conhecer a população, o território e os determinantes sociais que interferem nas mudanças comportamentais, com melhores condições para apoiar o cuidado.

Em nota, o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) informou que atende pessoas com transtorno mental severo e persistente. O luto prolongado também faz parte do quadro de atendimento, pois esse processo é mais complexo e tende a não melhorar sem intervenção. O Caps conta com equipe multiprofissional, ou seja, psiquiatria, psicologia, enfermagem, terapia ocupacional, serviço social e grupos terapêuticos.
 

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Saúde
12/07/2022 04:30h

Prevalência da obesidade quase dobrou no Brasil nos últimos 15 anos. Presidente da ONG Obesidade Brasil, a psicóloga Andrea Levy explica como o cuidado com a saúde mental dos pacientes pode ajudar no tratamento

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As autoridades de saúde recomendam que as pessoas com obesidade tenham atendimento multiprofissional. Além do acompanhamento já conhecido de endocrinologistas, nutrólogos e educadores físicos, por exemplo, os psicólogos têm tido papel importante no tratamento da doença, que praticamente dobrou entre os brasileiros nos últimos 15 anos. 

O número de pessoas obesas passou de 11,8%, em 2006, para 22,4%, em 2021, de acordo com a mais recente pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. 

A obesidade é uma doença crônica que se caracteriza pelo acúmulo anormal ou excessivo de gordura no corpo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Suas causas não têm relação apenas com perfis genéticos de maior risco, mas também com sedentarismo, consumo excessivo de calorias e alimentos ultraprocessados, insônia e uso de medicamentos obesogênicos, por exemplo. 

Andrea Levy, psicóloga e presidente da ONG Obesidade Brasil, explica que o acompanhamento psicológico de pessoas obesas fortalece o tratamento de base, que envolve reeducação alimentar, prática de atividades físicas e uso de medicamentos. 

“É frequente que pessoas que sofrem de obesidade apresentem também quadros de ansiedade e depressão, que devem ser tratados para que essa pessoa melhore sua qualidade de vida e se sinta mais forte e apta para fazer também o seu tratamento para obesidade”, aponta. 

“Devemos sempre ficar atentos à saúde mental da pessoa com obesidade, porque a própria obesidade e os estigmas e preconceitos diários que essa pessoa sofre podem funcionar como gatilhos para o desenvolvimento ou agravamento de quadros de transtornos do humor, e de transtornos alimentares, especialmente o de compulsão alimentar. Então, ter obesidade não é fácil do ponto de vista psicológico”, reforça. 

Mara Coelho conta que buscou atendimento psicológico, entre outros motivos, porque estava incomodada com o próprio peso. A insatisfação com o corpo, as dores, a vergonha de sair na rua e a indisposição contribuíram para um quadro de ansiedade e, também, depressão. 

A profissional de RH afirma que o suporte da psicóloga a ajudou a ter consciência de que precisava se cuidar, tendo em vista não somente a superação da obesidade e a melhora da saúde mental, mas a qualidade de vida no futuro. 

“O tratamento psicológico contribuiu para que eu pudesse pensar melhor, porque quando você está num processo de depressão ou ansiedade, você mistura tudo, parece uma névoa branca, você não consegue pensar. Fica focando naquilo que é ruim, que você não dá conta. Então, ela me trouxe uma clareza e possibilitou olhar para outras coisas além disso, que foi o que me deu forças para fazer um tratamento”, lembra. 

Conscientização

Segundo o Ministério da Saúde, a prevalência da obesidade aumentou de maneira epidêmica em todas as idades nas últimas quatro décadas e, “atualmente, representa um grande problema de saúde pública no mundo”. O órgão destaca que a doença está relacionada ao maior risco para outras enfermidades como as do coração, diabetes, hipertensão arterial sistêmica, doença do fígado e diversos tipos de câncer, dentre outras. 

Andrea destaca que o trabalho do psicólogo vai além de ajudar a pessoa obesa a cuidar da saúde mental. Passa, também, por conscientizar a sociedade. “Nós da ONG Instituto Obesidade Brasil temos lutado muito para que a população entenda que obesidade é uma doença complexa e que sua prevenção e tratamento exigem uma série de medidas”, explica. 

“Devemos investir em um estilo de vida mais saudável. Além disso, devemos lutar contra o preconceito contra as pessoas com obesidade, porque isso faz com que elas se sintam intimidadas a buscarem ajuda profissional, pois elas se sentem fracassadas e a obesidade não tem nada a ver com falta de força de vontade, mas é uma condição clínica que exige cuidados e, acima de tudo, todas as pessoas com obesidade merecem respeito e acolhimento para seguirem os seus tratamentos.” 

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Saúde
25/06/2022 04:30h

Caracterizada por manchas brancas ou esbranquiçadas na pele, o vitiligo não causa problemas físicos, mas especialistas destacam que o preconceito e a discriminação podem levar a efeitos psicológicos nos pacientes

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É celebrado neste sábado, dia 25 de junho, o Dia Mundial do Vitiligo, data criada para conscientizar as pessoas sobre a doença. Apesar de afetar uma pequena parcela da população mundial - cerca de apenas 1% em todo o mundo -, e não ser contagiosa, o dia se destaca pela preocupação em combater o preconceito e a discriminação contra os pacientes que têm a doença. 

A principal característica do vitiligo são as manchas que surgem na pele, originadas pela perda do pigmento. Isso acontece por causa da destruição de células que compõem a substância que dá cor à pele, chamada melanina. A principal preocupação com esses pacientes são os efeitos e transtornos psicológicos que o preconceito pode causar.

O dermatologista Caio Cesar Silva de Castro, assessor do departamento de Biologia molecular genética e imunologia da Sociedade Brasileira de Dermatologia, acrescenta que não há sintomas mais graves, mas a qualidade de vida do paciente pode ter uma queda muito grande, especialmente com a diminuição da autoestima.

Ele aponta também que o mais importante no processo de conscientização e combate ao preconceito contra o vitiligo é ressaltar que a doença não é transmissível. “O principal é ficar batendo na tecla de que é não é uma doença contagiosa. E isso eu acho que é o mais importante, porque isso afeta bastante as pessoas. Porque eles ficam sendo olhados com desdém, as pessoas ficam com medo de pegar a doença. Então, acho que bater na tecla que não é contagiosa é o principal”, assinala.

Causas e tratamento

De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, ainda não se sabe o que pode causar a doença nos pacientes, mas ela não pode ser transmitida de uma pessoa para a outra. O surgimento das manchas, entretanto, pode ser desencadeado ou até mesmo agravado por fatores como alterações autoimunes (quando o sistema imunológico ataca o próprio corpo), exposição solar ou condições de estresse e trauma emocional. 

Castro explica que o vitiligo pode se manifestar de duas formas em geral, que são o segmentar, que atinge apenas um lado ou uma parte do corpo e o não-segmentar, que é mais generalizado, se espalhando por toda a extensão da pele. “O vitiligo segmentar geralmente acontece em crianças ou adolescentes, ou seja, pessoas mais jovens. E ele começa de repente, ele tem um um aparecimento explosivo do dia pra noite, mas ele não tem uma tendência a aumentar. Já tem o vitiligo não-segmentar, é aquele vitiligo que pode dar no corpo inteiro, e esse é um vitiligo mais instável”, apontou. 

Por ser uma doença que não apresenta sintomas prévios, não existem formas de prevenção, por isso recomenda-se ficar atento ao aparecimento de manchas na pele. A recomendação é reforçada para aqueles que têm histórico na família, uma vez que cerca de 30% das pessoas afetadas têm parentes com a condição. O tratamento do vitiligo é feito de maneira individual, uma vez que algumas pessoas podem ter mais sensibilidade na área afetada.

O Dia Mundial do Vitiligo foi criado em 2011, um ano após a morte do cantor Michael Jackson, que sofreu uma parada cardíaca após ter uma overdose causada por remédios. O Rei do Pop, como é conhecido até hoje, tinha vitiligo e faleceu no dia 25 de junho de 2010. 
 

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22/06/2022 04:30h

Capacitação médica em psico-oncologia chega em Salvador (BA) e Maringá (PR), a partir de julho

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A psico-oncologia é o tratamento dos aspectos emocionais de pacientes com câncer e pode ser uma forte aliada na luta contra a doença. O profissional capacitado nesta área conhece as fases da evolução do câncer e, por isso, podem ajudar o paciente a enfrentar a doença, não só no aspecto psicológico, mas também nos âmbitos familiar, social e médico-hospitalar.

Segundo a psico-oncologista Ana Rosa Ramos, o acompanhamento psico-oncológico pode ser primordial na escolha do paciente em seguir com o tratamento contra o câncer.

“O paciente que tem o diagnóstico de câncer pode decidir que não quer fazer um tratamento. Por exemplo, um câncer de intestino. A pessoa tem que tirar um pedaço do intestino e os médicos vão reconstituí-lo do lado de fora da barriga. O paciente pode dizer: eu não quero isso. Então, o psicólogo vai ajudá-lo a compreender essas fases difíceis, vai mostrar o pró e o contra do porquê podemos tirar esse câncer e como ter uma vida normal.”

A psicóloga Gescielly Tadei destaca a importância dos familiares do paciente com câncer também terem um acompanhamento psicológico.

“Esse paciente [com câncer] é filho de alguém, é marido de alguém, é pai de alguém, é mãe de alguém. Então, se não lidarmos com quem está ao redor dessa pessoa, não conseguimos fazer uma boa rede de apoio. E o que é essa rede de apoio? É auxiliar essa pessoa a entender o que é essa nova normalidade que a vida dela enfrenta. Então, a família pode ser tanto uma grande aliada para o tratamento quanto pode atrapalhar.”

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Capacitação em psico-oncologia

Para capacitar profissionais de saúde brasileiros no que há de mais avançado na área, a doutora Ana Rosa Ramos veio da Itália ao Brasil para ministrar um curso de capacitação médica em psico-oncologia.

A novidade, que já passou pelo Rio de Janeiro em junho, chega em Salvador (BA), nos dias 2 e 3 de julho, no Instituto de Gestalt-Terapia da Bahia (IGTBA), e em Maringá (PR), nos dias 4, 5, 6 e 7 de julho, no La Vie Espaço Psicológico.

“Vamos dar entrevista, consulta, supervisão, palestra e formação”, destaca a doutora Ana Rosa.

Podem participar os profissionais que lidam direta ou indiretamente com pacientes com câncer e seus familiares, como médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, além de estudantes do último ano de graduação das referidas áreas.

“Os alunos vão aprender a olhar e a sentir um pouco mais de humanidade frente àquela pessoa que recebe um diagnóstico de uma doença grave, como o câncer em sua terminalidade. E ele vai aprender também algumas formas de manejo de como lidar com esse paciente, com essa família e com esse público”, esclarece a psicóloga Gescielly Tadei.

A inscrição em Salvador pode ser feita pelo site do IGTBA. Em Maringá, a inscrição pode ser feita pelo telefone da La Vie (44) 99990-0919 ou (44) 3227-8793. 

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11/09/2021 04:00h

Pesquisa da Coalizão COVID-19 Brasil, que integra estratégia da OMS para o enfrentamento à Long COVID, mostra que o número de mortalidade geral pós-alta, em 6 meses, chega a 7%

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Dados do Ministério da Saúde revelam que, até o momento, cerca de 20 milhões de pessoas infectadas com o coronavírus já se recuperam da Covid-19. O problema é que boa parte desses pacientes ainda sofre com as sequelas da doença, mesmo no pós-alta, como explica o médico intensivista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, Regis Rosa.

“Os pacientes frequentemente apresentam fraqueza muscular, cansaço e, eventualmente, até dor crônica. Os pacientes que tiveram ventilação mecânica podem apresentar lesões na traqueia, redução da sua capacidade física, alteração de memória e também redução da velocidade de raciocínio”, destaca.

O especialista é o representante brasileiro no grupo de trabalho formado pela OMS para o enfrentamento da Long COVID e reabilitação dos pacientes. Um dos estudos elaborados pelo grupo é o Coalisão VII. Dados parciais da pesquisa apontam que o número de mortalidade geral pós-alta, em 6 meses, chega a 7%.

Quando se trata de pacientes que precisaram de ventilação mecânica, esse número é de 24%. A reospitalização geral, no mesmo período, é de 17%, enquanto a de pacientes que necessitaram de ventilação mecânica chega a 40%.

Regis Rosa afirma, ainda, que, tanto pacientes graves quanto de casos leves ou moderados estão sujeitos às sequelas duradouras. Esses problemas, segundo ele, causam prejuízos à saúde física, mental e até social das vítimas, como é o caso de quem não consegue retornar ao trabalho ou aos estudos.

“Eles precisam ser avaliados por um médico, por uma equipe interdisciplinar, para que se faça um diagnóstico e, a partir disso, se estabeleça um plano de reabilitação. Porque grande parte dessas sequelas, tanto em pacientes graves quanto não graves, são reversíveis. Quanto mais rápido o paciente tiver acesso a medidas de reabilitação, mais rápido ele vai recuperar a qualidade de vida”, considera.

O estudo é um dos nove desenvolvidos pela aliança formada por Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet).

Entre as principais sequelas da Covid-19, algumas estão relacionadas à parte psicológica das vítimas. É comum que pacientes que passaram por todos os transtornos provocados pela doença sofram, por exemplo, com ansiedade ou depressão. Os dados parciais da coalizão mostram que casos de ansiedade, seis meses após alta médica, atingem 22% dos pacientes. Já o estresse pós-traumático acomete 11%.

Covid-19 afeta sistema renal das vítimas

Câncer: entenda o diagnóstico

Camila de Oliveira, 31 anos, foi diagnosticada com Covid-19 em outubro de 2020. Ela mora na França e, por lá, nessa mesma época, a pandemia estava no auge da segunda onda e o governo local decretava lockdown. O distanciamento social levou a estudante a ter problemas psicológicos.

“A gente fica angustiada, porque surge um cansaço. Eu não saí da cama e fiquei com medo de não conseguir mais respirar, de ninguém poder me socorrer. Com isso, a gente fica apreensivo, se perguntando se vai ficar em estado grave, se vai parar de respirar durante a noite e não ter ninguém para ajudar”, relata.

Segundo o médico Fabrício da Silva, especialista em cardiologia, clínica médica e emergências clínicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pelo Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, os problemas psicológicos relacionados à pandemia não são exclusividade de pessoas que foram infectadas pelo coronavírus.

“Isso não é exclusivo ao paciente que foi acometido pela Covid-19, mas aos familiares que acompanharam de perto internações ou que eventualmente perderam um ente querido. Já temos um tema do transtorno do estresse pós-traumático. O paciente que tem uma internação prolongada em UTI tem depois dificuldade com o sono, transtorno de ansiedade, e que necessitam de um apoio profissional de psicólogo ou de psiquiatras”, pontua.

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09/07/2021 10:15h

Vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Anna Carolina Lo Bianco, avalia que casos de ansiedade e estresse em pacientes recuperados também podem estar associados à frustração, já que nem sempre a recuperação é rápida

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Os problemas relacionados à Covid-19 vão além das superlotações de unidades de saúde e da redução do ritmo econômico. Segundo a vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Anna Carolina Lo Bianco, os pacientes infectados com coronavírus, mesmo após a recuperação, podem sofrer com transtornos de ansiedade e até depressão.  

A especialista avalia que esse tipo de transtorno também pode estar associado a uma frustração, já que nem sempre a recuperação é rápida e efetiva, o que causa decepções nesses indivíduos.

“Dependendo da idade, o estado de imobilidade que se fica durante muito tempo, tomando medicamentos muito pesados e às vezes comprometedores do resto das funções, as pessoas ficam com uma debilidade grande pós-covid-19 e isso traz ansiedade. Isso porque eles veem que a recuperação não está se dando num ritmo que esperavam. E, essa recuperação é difícil. Também vejo que as pessoas ficam muito ansiosas e deprimidas”, pontua.

“Falta de acompanhamento médico adequado durante o início dos sintomas pode contribuir para quadros graves da Covid-19”, afirma especialista

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Para Anna Carolina, a atenção às pessoas que sofrem com os efeitos da pandemia, infectado ou não, precisa ser ampla, de forma humanizada. Dessa maneira, quem passa pelos problemas se sente mais acolhido e fica menos propenso a desenvolver casos de ansiedade ou depressão. “Isso vai trazer um certo conforto. Quando o paciente se sente amparado, de certa forma, ele tem mais condição de vencer os desafios e cuidar de si”, defende.

Em entrevista exclusiva ao portal Brasil61.com, o médico especialista em cardiologia, clínica médica e emergências clínicas pela Unesp e pelo Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, Dr. Fabricio da Silva, afirmou que essas adversidades também afetam os familiares das vítimas do vírus, assim como pessoas que, de alguma forma, não conseguem encarar o atual quadro com mais estabilidade.

“As pessoas ficam muito mais restritas dos seus convívios sociais, dos seus hábitos e hobbies e isso também gera impacto. Assim ficam mais estressadas. Também existe um conceito do transtorno do estresse pós-traumático, bastante comum em condições graves, por exemplo, acidentes, mortes ou pandemias, como a gente está vivendo, na qual o indivíduo tem transtorno psiquiátrico sério, por consequência de uma internação ou de perda de algum familiar”, considera.

Dr. Fabricio da Silva afirmou, ainda, que percebe um trabalho mais humanizado sendo desenvolvido pelos psicólogos do que pelos psiquiatras. “Os psicólogos são muito ativos dentro das UTIs, dentro das internações, mas a psiquiatria em si ainda age pouco e acho que a sociedade brasileira de psiquiatria tem que assumir essa responsabilidade e também puxar para si esse papel de se debruçar sobre esse assunto”, avalia.

Isolamento social x distanciamento social

Com o intuito de evitar a propagação do coronavírus e, consequentemente, o aumento de pessoas infectadas, uma das principais recomendações das autoridades de saúde é manter o distanciamento social. O membro da Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal, Marcelo Pedra, conta que essa orientação é importante, mas precisa ser interpretada de maneira a não propiciar a aparição de outros problemas como depressão, estresse ou ansiedade.

“A gente não pode falar de isolamento social, mas de distanciamento. Isso não é só um jogo de palavras. Enquanto boa parte da população brasileira não estiver vacinada, é importante que a gente tenha esse distanciamento, mas não que estejamos isolados. O isolamento para o ser humano abre uma porta traumática muito significativa. Então, é fundamental que a gente mantenha os laços, mais distantes, cumprimentando com os cotovelos, cumprimentando à distância. É fundamental que a gente mantenha a relação de pertencimento”, salienta.

Nesse sentido, o conselheiro do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, Luiz Felipe Viana, destaca que algo a ser levado em consideração é o momento atual da pandemia, no qual sentir tristeza e ansiedade é normal. Além disso, ele garante que é preciso pensar que nem toda tristeza ou ansiedade nesse contexto se torna patológica. No entanto, ele afirma que quando esses quadros se tornarem extremos e acentuados, a procura por ajuda profissional é indispensável.

“Entre os sintomas que poderíamos dizer em relação a ansiedade estão palpitação, aquela sensação de coração acelerado, suor com frequência, tremor, sensação de falta de ar, desmaio, náusea entre outros. Já na depressão, há uma tristeza intensa, que não é momentânea, perca do interesse pelas atividades que a pessoa costumava fazer na sua rotina. Também mudança no hábito de alimentação”, explica.

Atendimento à família

Dados do Ministério da Saúde reunidos no Painel Covid-19 do Brasil 61 mostram que o país ultrapassou a marca de 525 mil óbitos por Covid-19 e soma mais de 18.700 milhões casos confirmados da doença. Diante desse quadro, o vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia do Maranhão, Eliandro Araújo, afirma que o sofrimento dos familiares dessas vítimas é algo natural.

Nesse sentido, Araújo ressalta que o atendimento de psicólogos aos parentes e amigos das pessoas que morreram em decorrência da Covid-19, assim como de quem se encontra em um quadro mais grave, é fundamental. “No caso de pacientes que vêm a óbito, os familiares sofrem o impacto disso e podem ser assistidos pelo psicólogo”, diz.

“A psicologia tem um trabalho muito forte com o luto. Cada evento impacta emocionalmente de uma maneira diferente nas pessoas. É importante ter o olhar do profissional para que ele possa avaliar se aquela tristeza é momentânea ou está caminhando para se tornar um quadro de depressão, por exemplo, para que o psicólogo possa trabalhar exatamente na recuperação dessas emoções”, complementa.

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Brasil 61