Internacional

05/08/2022 04:30h

Troca de bens entre o Brasil e os Estados Unidos alcançou a soma recorde no primeiro semestre deste ano, um aumento superior a 43% em relação aos primeiros seis meses do ano passado. Tendência é de aumento ainda maior do intercâmbio internacional com a adesão à OCDE

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O Brasil registrou valor recorde no comércio internacional com os Estados Unidos no primeiro semestre de 2022. Levantamento da câmara de comércio Amcham aponta que a troca de bens entre nosso país e os norte-americanos somou US$ 42,7 bilhões no período, um aumento de 43,2% em relação aos primeiros seis meses do ano passado. Segundo especialistas, a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tende a melhorar ainda mais essa relação, além do comércio com outras potências mundiais.

Fabrizio Panzini, superintendente de Relações Governamentais da Amcham, explica que o recorde identificado pelo Monitor do Comércio Brasil-EUA tem entre as razões principais o cenário internacional, que fez com que aumentassem as trocas de bens do setor de energia, como petróleo, gás natural e óleos de petróleo, e uma alta demanda nos Estados Unidos por produtos variados.

“Além disso, o cenário internacional gerou uma certa escassez de alguns produtos que o Brasil precisa, como é o caso de fertilizantes, que teve um aumento de mais de 200% de compra dos Estados Unidos. No caso das exportações do Brasil para os Estados Unidos, também o tema do petróleo está muito importante e o grande aumento foi em óleos brutos de petróleo que o Brasil enviou aos Estados Unidos”, pontua Fabrizio. “Também teve uma certa variedade de outros produtos que tiveram maior presença na pauta, como café, carne bovina, até mesmo aeronaves e produtos de madeira.”

O superintendente da Amcham acredita que o comércio internacional com os Estados Unidos, bem como com outras potências mundiais tende a crescer ainda mais com a entrada do Brasil na OCDE, um grupo de países que representa mais de 60% do PIB e mais de 60% do comércio internacional. “A OCDE reúne ali as melhores práticas de políticas públicas em diversas áreas, de educação, tributação, meio ambiente, comércio internacional, investimentos. Então, entre essas boas práticas que o Brasil pode absorver estando mais inserido na OCDE estão justamente a melhoria do seu ambiente de negócio e a melhoria de regras para receber mais investimentos estrangeiros e para participar mais dos fluxos de importação e dos fluxos de exportação no comércio internacional”, destaca.

Os Estados Unidos são fortes apoiadores do ingresso do Brasil na organização. Em visita ao país, em abril deste ano, o subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente dos EUA, José W. Fernandez, destacou que é importante que o Brasil alinhe suas atuações com os valores e padrões da OCDE, já que isso vai atrair mais investidores, gerar mais vagas diretas e indiretas em diversos setores e aprimorar as relações comerciais internacionais com diversas nações, entre elas a norte-americana.

Renan Gomes De Pieri, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), explica que, historicamente, o Brasil sempre teve um relacionamento comercial muito forte com os Estados Unidos, sendo por muitas décadas o principal parceiro comercial do Brasil, até ser substituído pela China. Ele acredita que a entrada do Brasil na OCDE pode potencializar esse comércio, não só com o país norte-americano, como também com outras nações desenvolvidas.

“Entrar na OCDE exige uma melhora do ambiente institucional do Brasil. E essa melhora, por si só, já vai levar o país a um outro patamar de abertura, de participação no comércio exterior. Esse aumento de comércio é muito importante para o Brasil, uma vez que a entrada de dólares através das exportações no país possibilita uma maior valorização da moeda doméstica e uma maior importação de bens de outros países pode significar custos mais baixos para as empresas, mais tecnologia, principalmente quando a gente fala de importação de bens de capital”, explica Renan.

Ainda segundo o economista, só essa entrada de dólares acima do esperado no Brasil trará diversos benefícios ao país, aumentando o crescimento econômico neste momento de pós-pandemia. E, segundo ele, será uma pequena mostra do quanto podemos ter de retorno com a adesão à OCDE.

Indústria se destaca na exportação

As exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 31,9% nos primeiros seis meses de 2022, registrando US$ 17,7 bilhões. O maior valor anterior para o mesmo período ocorreu em 2019: R$ 14,7 bilhões.

As indústrias de transformação e extrativista foram as que mais se destacaram entre as exportações. Os produtos mais exportados aos Estados Unidos no período foram os semiacabados de ferro e aço, com alta de 7,3% em relação ao ano anterior, além do petróleo bruto, que registrou aumento de 121%.

Reflexos do conflito na Ucrânia

A guerra entre Rússia e Ucrânia gerou impacto direto na exportação de produtos do setor de energia e combustível, principalmente petróleo e derivados, fertilizantes, insumos químicos, entre outros.  Como consequência, a procura desses produtos vindos de outros países tem aumentado consideravelmente, principalmente no Brasil.

De acordo com os dados do Monitor de Comércio da Amcham, 43,7% do total de importações nacionais dos Estados Unidos foi de compras de produtos de energia, em especial combustíveis e derivados de petróleo, gás natural, petróleo bruto e carvão. A procura por esses produtos foi tão intensa que a importação exclusiva dos Estados Unidos pelo Brasil cresceu 52,4% em comparação ao semestre anterior. 
 

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26/07/2022 04:15h

Emenda de Kigali propõe a redução de 80% no consumo de hidrofluorcarbonos para reduzir os impactos climáticos. Medida já foi aprovada pelo Congresso Nacional e aguarda promulgação

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Consumidores brasileiros podem economizar R$ 152 bilhões, até 2035, ao substituir os gases hidrofluorcarbonos (HFCs) em equipamentos de refrigeração. A estimativa consta no Estudo de Impacto Regulatório da International Energy Initiative. Segundo o estudo, a medida também pode gerar uma economia de R$ 81 bilhões em investimentos para aumento da capacidade instalada da indústria. 

Em termos de energia, a troca dos HFCs pode levar a uma economia de 326 TWh em eletricidade (equivalente a 65,6% do consumo de todo o país em um ano), redução de 11,3 GW de demanda no setor elétrico (6% de toda a capacidade instalada no Brasil em 2022), além de evitar a emissão de 60 milhões de toneladas de CO² na atmosfera.

O professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Artaxo, explica que atualmente já existem substâncias alternativas aos HFCs, com menor impacto no clima. “Mas evidentemente ainda precisamos de acordos internacionais, que vão criar políticas internacionais de redução de emissões dos HFCs.”

A ratificação da Emenda de Kigali no Brasil aguarda promulgação, após aprovação nas duas casas do Congresso Nacional. O acordo internacional determina a redução de 80% do consumo de HFCs até 2045, com o objetivo de minimizar os impactos climáticos.

Como os HFCs aquecem o planeta

O HFC é um gás utilizado principalmente em ar-condicionado (residenciais, comerciais e de automóveis) e equipamentos de refrigeração (geladeiras, sistema de refrigeramento industrial e sistemas centralizados de refrigeração usados em edifícios comerciais, como supermercados e shoppings).

Por não possuírem cloro em sua estrutura molecular, os HFCs não atacam a camada de ozônio e, por isso, substituíram os hidroclorofluorcarbonos (HCFCs) nos equipamentos de refrigeração. No entanto, os HFCs absorvem radiação infravermelha, o que aumenta a temperatura do planeta, como explica o professor Paulo Artaxo: “eles têm um poder de aquecimento global mais de mil vezes acima do CO². Então, eles são fortes agentes de mudanças climáticas globais”.

O problema se agrava pelo aumento da concentração de HFCs na atmosfera nas últimas duas décadas, após terem substituído os gases com cloro. Por isso, Artaxo recomenda o desenvolvimento de novas tecnologias de gases mais eficientes para substituir os HFCs em sistemas de refrigeração.

“Os HFCs foram desenvolvidos há 15, 20 anos atrás, quando não havia ainda o uso tão extenso de condicionamento de ar como nós temos hoje. E, se no futuro houver o aumento da temperatura do nosso planeta - projetado de 3 a 4 graus -, nós vamos precisar de ar-condicionado com eficiência muito maior do que os equipamentos que usam HFCs.”

Segundo a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), o setor de refrigeração e ar condicionado fechou 2021 com R$ 36,35 bilhões de faturamento, um crescimento de 10,5% em relação a 2020. A projeção para 2022 é atingir R$ 37,98 bilhões.

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Fundo de apoio à substituição dos HFCs

Ao ratificar a Emenda de Kigali, o Brasil terá acesso aos recursos de um fundo de até US$ 100 milhões para apoiar a conversão tecnológica dos equipamentos da indústria, impulsionando a modernização e a competitividade da indústria nacional.

“Esse fundo deve ser usado parte em pesquisas científicas, parte em desenvolvimento tecnológico nas indústrias. Então, tanto as indústrias precisam desenvolver compressores mais eficientes com novos gases, com consumo menor de energia, quanto a pesquisa científica precisa aprimorar o desenvolvimento de gases alternativos aos HFCs”, afirma o professor Paulo Artaxo.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que os recursos do fundo também contribuirão para a qualificação profissional de cerca de 80 mil microempreendedores individuais para trabalharem na modernização de sistemas de climatização.

Segundo a professora do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB),  Fernanda Vasconcelo, caso o Brasil não ratifique a Emenda de Kigali, além de perder o acesso ao fundo, ele vai deixar de trabalhar com equipamentos mais modernos e com menor impacto ambiental.

“Se o Brasil continuar usando os HFCs, ele não está corroborando para diminuir o aquecimento global e pode ser que, a longo prazo, tenha represálias do comércio internacional.”

Além disso, segundo Fernanda Vasconcelo, a indústria brasileira vai perder condições de competitividade, uma vez que os gases não ecológicos terão oferta reduzida. 

“O Brasil vai ter que, de uma forma ou de outra, trocar esses gases. Mas se ele vai ter que fazer isso no futuro, sem ter aderido à Emenda de Kigali, ele não vai ter treinado mão de obra, não vai ter entrado nas discussões iniciais de como fazer essa modernização em conjunto com todo mundo.”

Segundo o professor Paulo Artaxo, o Brasil tem condições de atingir a meta de redução de 80% do consumo e produção de HFCs até 2045. “Mas para isso é preciso que o estado brasileiro invista em ciência e em desenvolvimento de novas tecnologias para tornar mais eficientes os sistemas de ar condicionado que nós temos hoje.”

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01/07/2022 03:30h

Em tramitação no Senado Federal, o acordo internacional tem o objetivo de reduzir os impactos climáticos

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O Brasil terá que reduzir em 80% o consumo de hidrofluorcarbonos (HFC) até 2045, se a Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal for ratificada pelo Congresso Nacional. O acordo internacional tem o objetivo de reduzir os impactos climáticos por meio do controle e eliminação gradual da produção e do consumo de gases de efeito estufa. 

Atualmente, o Projeto de Decreto Legislativo de Acordos, Tratados ou Atos Internacionais (PDC) 1110/2018 aguarda apreciação pelo Senado Federal, após ser aprovado pela Câmara dos Deputados.

O HFC é um gás utilizado principalmente em aparelhos de ar-condicionado (residenciais, comerciais e de automóveis) e equipamentos de refrigeração (geladeiras, sistema de refrigeramento industrial e sistemas centralizados de refrigeração usados em edifícios comerciais, como supermercados e shoppings).

Segundo a professora do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB),  Fernanda Vasconcelos, o HFC não danifica a camada de ozônio, mas possui elevado impacto no aquecimento global.

“Os HFCs não têm cloro na sua estrutura. Então, eles não atacam a camada de ozônio; eles não reagem com o ozônio. Os HFCs são os gases que substituíram os HCFCs (hidroclorofluorcarbonos). E os HCFCs, por sua vez, substituíram os CFCs (clorofluorcarbonetos). Estes eram os grandes problemas para a camada de ozônio. Resolvemos o problema de atacar o ozônio. Só que criamos um novo problema, porque os HFCs absorvem radiação no infravermelho e, portanto, aumentam a temperatura do planeta.”

O Brasil foi um dos países mais ativos na defesa da aprovação da Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, durante a 28ª Reunião das Partes que aconteceu em Ruanda, em 2016. A ratificação do acordo no território nacional conta com o apoio do governo e do setor privado, que já investe no uso de gases alternativos nos sistemas de refrigeração.

Além disso, ao ratificar a emenda, o Brasil terá acesso aos recursos de um fundo de até US$ 100 milhões para apoiar a conversão tecnológica dos equipamentos da indústria, impulsionando a modernização e a competitividade da indústria nacional, além do acesso dos consumidores a equipamentos de maior eficiência energética.

O deputado federal Rodrigo Agostinho (PSB-SP) afirma que a aprovação da emenda representa uma grande revitalização da indústria nacional.

“É uma emenda que, para a indústria nacional, representa modernização, geração de empregos. E, para o meio ambiente, é uma solução para parte do problema das mudanças climáticas, porque gases, que causam efeito estufa, deixam de ser utilizados na produção de eletrodomésticos. Então, é uma emenda muito importante, todo mundo sai ganhando.”

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Vantagens econômicas

De acordo com estudo do Instituto Clima e Sociedade (ICS), a troca dos HFCs em equipamentos de refrigeração pode gerar uma economia de R$ 57 bilhões ao Brasil até 2035. Desses, R$ 30 bilhões deixarão de ser gastos na geração de energia elétrica e outros R$ 27 bilhões serão economizados pelos consumidores na conta de luz.

A professora Fernanda Vasconcelos explica os prejuízos caso o Brasil não ratifique a Emenda de Kigali.

“Os prejuízos são deixar de ter acesso ao fundo e deixar de trabalhar com equipamentos mais modernos, com gases de menor impacto ambiental. Se o Brasil continuar usando os HFCs, ele não está corroborando para diminuir o aquecimento global e pode ser que, a longo prazo, tenha represálias do comércio internacional.” 

A especialista explica que a indústria brasileira pode perder condições de competitividade, pois os gases não ecológicos terão oferta reduzida, a indústria precisará realizar a troca de equipamentos e a reforma de sistemas. “Então, o Brasil vai ter que, de uma forma ou de outra, trocar esses gases. Mas se ele vai ter que fazer isso no futuro, sem ter aderido à Emenda de Kigali, ele não vai ter treinado mão de obra, não vai ter entrado nas discussões iniciais de como fazer essa modernização em conjunto com todo mundo”, explica.

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Internacional
22/06/2022 20:35h

Paulo Guedes participou da abertura do evento “Semana Brasil-OCDE”, que está sendo realizado em Brasília até esta sexta-feira (24). Ele afirmou que a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico é uma prioridade do governo

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Durante a abertura do evento “Semana Brasil-OCDE”, que está sendo realizado em Brasília até esta sexta-feira (24), o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma prioridade do governo. O ministro citou o apoio do secretário-geral da Organização, Mathias Cormann, para esse passo. “As nações avançadas, as economias mais fortes do mundo, as democracias liberais estão nesse grupo e o Brasil quer se juntar a esse grupo”. 

O evento que o Brasil sedia até a próxima sexta-feira (24) conta com uma série de reuniões entre países latino-americanos e a OCDE, grupo das economias mais industrializadas do planeta. A Semana Brasil-OCDE, realizada no Itamaraty, em Brasília, tem como destaque eventos sobre políticas econômicas, educação e produtividade no Brasil e na América Latina.

José Oswaldo Cândido Junior, professor de Relações Institucionais do Ibmec, explica que a entrada do Brasil na OCDE é essencial para o crescimento da economia nacional, principalmente porque vai atrair capital estrangeiro.

“A OCDE reúne os países mais desenvolvidos e têm iniciativas louváveis em políticas públicas que podem ser adotadas no Brasil. Então, é um ponto que, de fato, pro setor produtivo vai ser fundamental, porque isso vai melhorar a atração de investimentos, inclusive a internacionalização das empresas do Brasil no exterior, nos países que fazem parte da OCDE”, acredita o especialista.

O secretário-geral Mathias Cormann citou as adaptações importantes na legislação brasileira para que o país possa completar o processo de ingresso na Organização. De 229 instrumentos legais que se espera dos candidatos, o Brasil já está em conformidade em 112.  O deputado federal Domingos Sávio (PL-MG) diz que o país já se prepara há anos para entrar no seleto grupo e ressaltou o papel do Congresso Nacional no que diz respeito às mudanças da legislação.

“Sem dúvida estamos mais perto. O Brasil passa por um processo de aprimoramento da sua legislação, temos consciência que ainda precisamos fazer reformas estruturantes, mas o Brasil avançou de maneira substancial desde o advento do Plano Real, verdade seja dita. Não começou agora”, relata o parlamentar.

O deputado explica que é de fundamental importância que o Brasil consiga ingressar na OCDE e que não pode se descuidar do que já foi conquistado, como o teto de gastos para garantir o equilíbrio fiscal.

“O Brasil tem procurado ter bases sustentáveis para ser uma economia confiável e tem também mostrado todo um compromisso de abertura do mercado, de ser um país de economia aberta, livre, competitiva. E isso é fundamental para encontrar numa organização dessa natureza e que talvez seja a mais importante no mundo para dar sustentação à competitividade comercial entre as nações”, destaca Sávio.

Nesta quinta-feira (23) e no último dia do evento, ocorre a 4ª Cúpula Ministerial sobre Produtividade, organizada conjuntamente pelo governo brasileiro e pela OCDE, com apoio do Fórum Global de Produtividade da OCDE. A Semana Brasil-OCDE se encerrará, na sexta à tarde, com uma reunião do Grupo Diretor do Programa Regional. O grupo diretor reúne-se duas vezes por ano, uma em Paris, onde fica a sede da OCDE, e uma na América Latina ou no Caribe.
 

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Economia
02/06/2022 12:20h

Proposta pretende melhorar ambiente empresarial e ajudar o país a cumprir exigências para entrada na OCDE

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Após o convite de entrada ser aceito pela OCDE em janeiro, o Brasil está cada vez mais perto de ingressar na organização. Um passo importante para chegar lá é o estabelecimento de um escritório da OCDE em território nacional. Mas a questão ainda aguarda apreciação pela Câmara dos Deputados do projeto de decreto legislativo 253/2021. O PDL ratifica o texto do Acordo entre o Brasil e a organização, para a criação do escritório.

Entre as vantagens do escritório no país estão a implementação de atividades conjuntas entre Brasil e OCDE e a criação de ponto de encontro efetivo entre as autoridades brasileiras responsáveis pela cooperação com o secretariado da organização, além do apoio às missões e eventos a serem realizados no Brasil.

Renan Gomes, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explica que a importância desse escritório é deixar o Brasil cada vez mais próximo do grupo de membros, que hoje conta com importantes países, como Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Estados Unidos. Segundo o especialista, o Brasil deve procurar entrar para a organização o quanto antes, uma vez que os benefícios econômicos são significativos.

“Então, esse escritório vai poder organizar eventos, as missões, aproximando as autoridades brasileiras da organização. E os benefícios, de fato, vão ser colhidos com a entrada do Brasil, o ingresso do Brasil na organização. Porque funcionaria como um selo de qualidade para o país, do ponto de vista dos investidores, atrair mais investimentos estrangeiros, internacionais, tanto no setor real da economia, investimentos em projetos de infraestrutura, e novos negócios no país, como também num mercado de ativos”, destaca Renan.

O economista ainda ressalta que o comércio exterior, um dos fortes do Brasil, ficará ainda mais em evidência quando o país for um dos membros. “Isso porque para ser membro da OCDE os países acordam sobre um conjunto de regras econômicas e legislativas que trazem mais transparência na governança, que favorece o desenvolvimento dos negócios, que apoia a democracia, enfim, valores esses que dão mais tranquilidade para o mercado de capitais internacional, com relação ao Brasil e a condição da economia por aqui. Então, esse escritório é mais um passo nesse sentido da integração.”

O deputado federal Alexis Fonteyne (Novo-SP) aponta que o meio empresarial só tem a ganhar com a entrada do Brasil na OCDE e que o escritório tende a mostrar mais facilmente ao país como cumprir as exigências da organização.

“Aos olhos obviamente de quem é empresário e quer ver a coisa acontecer e fazer o Brasil ser incluído na OCDE, acho que o escritório é um passo importante. Importante é que esse escritório também não seja só meramente burocrático, que ele seja efetivo e entregue resultados e tudo mais, que possa avançar apontando ao Brasil aquilo que ele precisa cumprir como metas para entrar na OCDE”, destaca o parlamentar.

Exigências e benefícios

Desde 1996 o Brasil flerta com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), instituição voltada à evolução econômica, ao comércio mundial e à busca do bem-estar social por meio da cooperação entre seus países-membros. O primeiro passo importante para que o Brasil se torne um deles foi dado em janeiro, quando a OCDE aceitou o convite para dar início aos trâmites. O segundo passo é a aprovação do PDL 253/2021, que ratifica o texto do Acordo entre o Brasil e a organização, em 2017, para o estabelecimento de um escritório da OCDE em território nacional.

Para fazer parte do seleto grupo, o Brasil precisa aderir a uma série de boas práticas, entre elas a simplificação do sistema de cobrança de impostos com uma reforma tributária, além de um maior combate à corrupção. Tanto que o ingresso do Brasil na OCDE seria, segundo especialistas, a melhor maneira de consolidar importantes reformas econômicas que são prometidas, mas nunca realizadas.

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Do ponto de vista econômico, a entrada do Brasil na OCDE melhora a posição do país no mercado internacional de negócios. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o simples ato de fazer parte do grupo já deve desencadear um aumento de, pelo menos, 0,4% no Produto Interno Bruto (PIB) anual.

A OCDE promove encontros regulares, inclusive com parlamentares, para promover o diálogo permanente entre as mais variadas nações e possibilitar a troca de experiências, discussões a respeito da modernização da legislação em nível global e compartilhamento de boas práticas a serem adotadas pelos países de dentro e de fora da organização. A instalação de escritórios semelhantes, mesmo em países não-membros, é uma forma de demonstrar a relevância do relacionamento da organização com esses países e como prática de aprofundar a agenda com eles.

Além disso, projetos de cooperação entre Brasil e OCDE poderão ser desenvolvidos com mais celeridade e qualidade, acelerando a pauta de aproximação com o organismo e o eventual aceite do pedido brasileiro de acessão. Levando em consideração as últimas adesões, um novo país demora cerca de quatro anos para ser formalizado como membro após o convite de entrada. O Brasil, no entanto, quer reduzir esse prazo ao máximo, trabalhando para que isso aconteça até 2025.
 

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07/03/2022 01:47h

Em entrevista ao portal Brasil61.com, o professor da Unicamp Marco Antonio Rocha afirma que o aumento dos combustíveis também pode levar à elevação dos preços na cadeia produtiva

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A guerra entre a Rússia e a Ucrânia já dura mais de uma semana e a tensão no cenário político e econômico mundial só aumenta. O que esperar de consequências a médio e longo prazo para o Brasil, caso a guerra dure semanas ou meses?

O professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas, Marco Antonio Rocha, afirma que os últimos dias apontam para uma demora na resolução do conflito.

“Com o prosseguimento dos dias, o que todo mundo está vendo é que será um conflito demorado. Até mesmo por conta de não interessar à Rússia uma Ucrânia devastada. Então parece que vai ser uma guerra muito mais de cerco, uma guerra que vai tentando minar a Ucrânia da sua capacidade de resistência.”

“A gente também tem que levar em consideração um contingente relativamente grande de tropas mercenárias que estão entrando no espaço ucraniano, o que pode também tornar esse conflito ainda mais prolongado em termos de uma resistência que vai se estruturando, inclusive com apoio internacional'', acrescenta.

No entanto, o professor Marco Antonio descarta a possibilidade de uma terceira Guerra Mundial.

“Eu acho difícil, primeiramente, porque os Estados Unidos parece já ter recuado de um processo muito rápido de inserção da Ucrânia na OTAN ou de uma resposta em blocos da OTAN. Isso seria um movimento que não interessaria à potência nenhuma, nem às potências ocidentais, muito menos à Rússia, que parece ter um certo controle da situação. Então parece que vai ser um conflito local.”

Consequências econômicas

Ele destaca que, se a guerra na Ucrânia se estender por semanas ou meses, poderá haver impactos na cadeia produtiva no Brasil, aumentando a inflação.

“O mais imediato a gente já está vendo, que é a disparada do preço do petróleo e provavelmente do trigo e do gás, que provavelmente vai afetar o Brasil em uma série de elos das cadeias produtivas. Vai afetar os custos da indústria de alimentos, vai afetar o frete industrial, o frete de mercadorias e vai afetar as famílias de forma geral através da inflação do combustível.”

Segundo Marco Antonio, o cenário só não está pior, no momento, porque o Real está valorizado.

“Nós só não estamos tendo um impacto muito grande da inflação, principalmente vindo do que está acontecendo com o preço internacional do combustível, porque ele é composto do preço internacional, mas a taxa de câmbio é [feita] da conversão de dólar para real. Então a conversão via taxa de câmbio está ajudando a gente. Se ela deixar de ajudar a gente, os combustíveis vão se tornar novamente os grandes vilões da inflação.”

“O problema é que se a guerra se intensifica, se torna mais duradoura e mais complicada, o mercado pode começar a reagir com uma certa aversão ao risco e procurar segurança. Como o mercado procura segurança? Geralmente ele abandona as moedas periféricas e se dirige para o dólar. E nessa intensificação do conflito, podemos ver a fuga de capital das economias periféricas como um todo e a reversão desse cenário de valorização do real para um cenário de desvalorização do real”, explica.

Se esse cenário se confirmar, a inflação volta a ser um problema, de acordo com o professor.

“Porque aí se soma todo o impacto da taxa de câmbio com o impacto do preço das commodities agrícolas com impacto de preço dos combustíveis. E a inflação brasileira já está projetada para esse ano para algo em torno da casa de 6%. Isso pode chegar a uma inflação muito próxima do que a gente viu em 2021. E com isso a gente teria pelo menos três anos seguidos de inflação bem alta no Brasil.” 

Agricultura e alimentos

O professor destaca que a médio e longo prazo, outro problema é a possível escassez do fornecimento internacional de fertilizantes, considerando que a atual safra já está abastecida. 

“Como [o conflito] restringe a oferta de fertilizante, isso acaba tendo um impacto em aumento do preço, que vai ter o impacto no aumento dos custos para as famílias no consumo de alimento.”

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Cadeia produtiva

O professor Marco Antonio explica que o aumento dos combustíveis pode levar a uma elevação dos preços na cadeia produtiva.

“O frete é um custo muito importante no preço dos alimentos. Então, acaba criando um processo em cascata que vai repercutindo nesse aumento do preço de combustíveis, para o preço de alimentos, para o preço dos demais bens industriais. E acaba se criando um processo inflacionário que pode ser uma das repercussões possíveis da guerra em 2022.” 

“O grande receio é que a gente viva em 2022 novamente um quadro muito parecido com 2021: uma inflação na casa de 10%, mas quando a gente olha a inflação por exemplo para combustível e alimento, a gente tem 40% e 20%, muito maior do que o índice cheio”, avalia.

Confira a entrevista na íntegra com o professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas, Marco Antonio Rocha.

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04/03/2022 13:24h

Segundo a norma, os imigrantes estão isentos de taxas ou multas para requisitar a documentação necessária, e podem solicitar duas modalidades de visto

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O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Itamaraty publicaram Portaria com regras para a entrada da população atingida pelo conflito armado na Ucrânia. A acolhida humanitária serve para cidadãos ucranianos e aqueles que não têm nacionalidade. 

Segundo a norma, os imigrantes estão isentos de taxas ou multas para requisitar a documentação necessária, e podem solicitar duas modalidades de visto. Um deles é o visto humanitário, que tem validade de 180 dias, e permite ao estrangeiro trabalhar no Brasil. 

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Outra maneira é solicitar a autorização de residência, válida por dois anos, podendo ser convertida em residência por tempo indeterminado, após a análise dos órgãos competentes. Em outras situações, o Brasil tomou as medidas, como explicou o presidente Jair Bolsonaro.

“Foi assinada uma Portaria interministerial, do Ministério da Justiça e Relações Exteriores, que trata do visto humanitário para recebermos refugiados da Ucrânia. É uma Portaria semelhante àquela assinada no final do ano passado tocante aos afegãos”, destaca. 

Ainda de acordo com a norma, o visto humanitário poderá ser concedido por embaixadas em Kiev e em países vizinhos à Ucrânia. 
 

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02/03/2022 19:31h

A guerra entre Rússia e Ucrânia acelerou a urgência de o Brasil ser autossuficiente na produção de insumos para fertilizantes

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A guerra entre Rússia e Ucrânia acelerou a urgência de o Brasil ser autossuficiente na produção de insumos para fertilizantes. Hoje, o Brasil é dependente da importação de potássio, por exemplo, e os maiores parceiros são os países do Leste Europeu. No dia 12 de março, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, viaja para o Canadá para negociar novos arranjos comerciais para os insumos. 

Contudo, a meta do Governo Federal é atingir a autossuficiência na produção. Segundo a ministra, o plano já estava em produção. As discussões envolveram oito ministérios, iniciativa privada, associações como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Mas o detalhamento do plano só será anunciado no final de março. “Esse plano vai ser anunciado agora no mês de março, não sei se dia 20, dia 29”, disse a ministra. 

O plano envolve questões legais e tributárias, além de recursos para investimentos na área. A preocupação do Governo Federal já é anterior à guerra. “Nós tivemos, no ano passado, uma preocupação quando a Bielo Rússia sofreu sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia, que não tem nada a ver com a situação de hoje. Ela não parou de exportar para o Brasil, mas essas sanções elas atrapalham os embarques, porque os portos são controlados pela OTAN.”, ponderou Tereza Cristina.  

Em novembro, o governo brasileiro esteve na Rússia e conseguiu ampliar a cota de importação. Desde então, vem negociando com o Canadá, que é o maior exportador mundial de potássio. O Brasil tem uma reunião para tratar do assunto no dia 12 de março. 

Safra garantida

Apesar do cenário incerto, a ministra disse que a safrinha, cuja principal plantação é o milho, já está com todos os insumos garantidos. “O que precisava de fertilizante já chegou, já está na com o produtor rural, ele já está plantando, ela está muito adiantada. Então neste momento nós não temos problema com a safrinha que acontece”, assegurou Tereza Cristina. 

Contudo, a pasta reconheceu que a safra de verão, que começa no final de setembro, é uma preocupação. “Mas também nós temos a confirmação do setor privado de que nós temos um estoque de passagens de fertilizante, um volume que é suficiente para chegar até outubro”, completou. 

Para driblar a situação, o plano A do Governo Federal é buscar outros parceiros, como está fazendo com o Canadá e o Chile, que também têm potássio. Já com a ureia e outros insumos nitrogenados, o Brasil está buscando parcerias com países do Oriente Médio, como o Catar, a Arábia Saudita e Israel. 

O Ministério da Agricultura também tem estreitado diálogo com o setor portuário para priorizar a entrada de fertilizantes e insumos. 

Preços dos alimentos

O preço dos alimentos também deve ser impactado e sofrer alta. Isso porque a Ucrânia é uma grande produtora de trigo. “Tudo depende: se a guerra acaba hoje ou amanhã é um impacto. Se ela continuar por muito tempo é outra. O mundo é globalizado”, reconheceu a ministra. 

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02/03/2022 15:07h

Economista afirma que aumento do petróleo e das commodities podem afetar inflação brasileira

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Após a invasão da Rússia ao território da Ucrânia na última quinta-feira (24), países ocidentais, especialmente EUA e União Europeia, impuseram uma série de sanções econômicas sobre Moscou, numa tentativa de barrar os avanços das tropas russas. No entanto, em um mundo globalizado, como essas punições econômicas podem impactar a economia brasileira?

Nesta quarta-feira (2), o preço do barril do petróleo chegou a US$ 111. As commodities também apresentaram alta na Bolsa de Chicago, já que Rússia e Ucrânia, juntas, são responsáveis pelas exportações de 29% do trigo e 19% do milho em todo o mundo. Os contratos com entrega em maio do trigo tiveram aumento de 5,35% e estão cotados a US$ 9,84 por bushel. O milho teve alta de 5,06% com cotação de US$ 7,25

O professor de Economia do Ibmec Brasília, William Baghdassarian, afirma que o aumento dos preços das commodities pode aumentar a inflação no Brasil. 

“Devemos ter uma inflação [maior] por conta de algumas commodities, principalmente, trigo e milho. Só para lembrar que o frango é uma transformação do milho, porque a indústria de frango é fortemente dependente do milho. Então, na medida que temos uma menor oferta de milho no mercado internacional, temos uma elevação do preço do frango aqui dentro. Devemos ter também um menor crescimento econômico por conta da maior inflação.”

Ele também afirma que o aumento do petróleo pode provocar aumento dos combustíveis. 

“Estávamos reclamando quando a gasolina estava por volta de R$ 7, com o barril de petróleo a US$ 90. O barril de petróleo já passou de US$ 100. Então provavelmente vamos ter um impacto sobre o preço dos combustíveis nas próximas semanas.”

“O preço do gás natural também vai influenciar, o que vai trazer um efeito principalmente sobre o mercado de energia elétrica. Muitas usinas são movidas a gás natural e naturalmente o preço desse gás sobe, então o preço da energia elétrica deve subir um pouquinho também para compensar isso”, acrescenta.

O doutor em economia Benito Salomão também afirma que o aumento dos preços das commodities e o desligamento dos bancos russos do Swift podem afetar os preços no Brasil.

“A Rússia é um grande produtor de trigo e isso vai repercutir no preço do trigo, porque a Rússia está impedida de exportar, porque está fora do Swift. Nós estamos vendo o preço do milho e das commodities em geral [aumentar]. No caso do Brasil especificamente, a urgência mais de curto prazo é a incapacidade da economia brasileira importar fertilizantes da Rússia. Porque como a Rússia foi banida do Swift, ela não pode exportar fertilizantes, porque ela não tem como receber por esses fertilizantes.”

Swift

Entre as sanções impostas à Rússia, a União Europeia anunciou que os bancos russos foram desligados do Serviço de Telecomunicações Financeiras Interbancárias (Swift). O sistema de comunicações permite o pagamento e a transferência de recursos entre empresas de diferentes países.

O Swift interliga cerca de 11 mil bancos e instituições financeiras em mais de 200 países, entre eles o Brasil.

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Objetivo das sanções 

Para o economista Benito Salomão, as sanções possuem dois objetivos: “asfixiar a capacidade financeira russa para financiar o seu exército e  minar a capacidade da Rússia de financiar outras guerras”.

O professor de economia William Baghdassarian explica que as sanções econômicas servem para fazer um contraponto à invasão russa na Ucrânia.

“Na medida que os países impõem essas sanções econômicas à Rússia - e até onde eu me lembro, essas foram as mais duras, eu nunca vi sanções tão duras quanto as que estão sendo impostas - você acaba desarticulando, acaba tirando o ímpeto do governo russo de continuar com essa guerra. Só para a gente lembrar que qualquer guerra custa muito dinheiro.”

O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Antônio Jorge Ramalho, afirma que a Rússia já vem se preparando desde 2014 para este momento.

“Ela hoje tem reservas muito mais vultosas e bem distribuídas. Tem uma parte das reservas em Renminbi, a moeda chinesa. Tem uma parte das reservas em ouro. Reduziu bastante, o que lá em 2014 era perto de 40%, das suas reservas em dólares; hoje isso está em torno de 14%.” 

Mas, segundo o economista William Baghdassarian, as sanções impostas desde o último final de semana foram tão sérias que podem ter impacto no mercado interno russo. 

“Eles tiveram uma desvalorização do rublo em mais de 30% e a bolsa caiu dessa ordem também. Então quando você começa a sentir dentro do país os impactos disso, o apoio popular à guerra acaba caindo e o presidente acaba sendo obrigado a voltar [atrás].”

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25/02/2022 10:40h

Aumento do preço do petróleo e dependência de fertilizantes vindos da Rússia preocupam os produtores agrícolas brasileiros

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Com os recentes ataques bélicos da Rússia ao território da Ucrânia a tensão internacional aumenta, não apenas no cenário político, mas também econômico. Na quinta-feira (24), o preço do barril de petróleo chegou a US$ 103.78. É a primeira vez que o valor passa dos US$ 100 desde 2014.

A tensão também já provocou aumento do preço das principais commodities negociadas na Bolsa de Chicago. O trigo teve a maior valorização de preços. Os contratos com entrega em março de 2022 estavam cotados a US$ 8,76 por bushel, um aumento de 31,75 centavos de dólar em relação ao fechamento anterior. Já os contratos com entrega em maio deste ano eram negociados a US$ 8,84 por bushel, uma alta de 32,75 centavos de dólar.

O pesquisador da área de custos agrícolas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo, Mauro Osaki, explica que a Rússia é um grande exportador mundial de trigo, ficando atrás apenas do bloco da União Europeia. 

“Uma sanção sobre a  Rússia diminuiria essa oferta de trigo. Consequentemente nós teríamos, já registramos hoje, uma disparada no preço do trigo. E a Ucrânia também é a quarta maior exportadora do alimento no mercado mundial. E [por isso] podemos ter esse aumento no preço do trigo."

Segundo o pesquisador, o Brasil não é mais autossuficiente na produção de trigo, em função do alto custo de produção no mercado interno, além de não sermos tão competitivos quanto a Argentina.

Em relação ao milho, os preços também se elevaram. Os contratos para março fecharam a US$ 6,83, uma alta de 1,33% em relação ao fechamento anterior. Já para maio, o preço ficou em US$ 6,81 por bushel, com alta de 1,3%. 

Mauro explica que a Rússia não faz parte dos grandes exportadores de milho, no entanto, a Ucrânia é a quarta maior exportadora do grão no mundo, atrás de Argentina, Brasil e Estados Unidos. 

“É um mercado com um estoque baixo no mercado mundial. E quando você trabalha no conflito desses dois países, pode-se ter sanção e uma invasão que inviabiliza a produção. [Por isso] o mercado começa caminhar para um lado mais nervoso nesse primeiro momento, até entendermos até onde vai durar [esse conflito]”, afirma o pesquisador.

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Fertilizantes

No ano passado, o Brasil importou da Rússia 9,3 milhões de toneladas de fertilizantes para a produção agrícola. Os russos são os principais fornecedores do insumo para os brasileiros. 

Segundo o pesquisador do Cepea Mauro Osaki, há muitos anos, o Brasil importa da Rússia tanto matéria prima de base nitrogenada, quanto cloreto de potássio. 

“No caso de cloreto de potássio é um pouco mais sensível para o nosso caso, porque nós importamos grande quantidade desse produto. E basicamente quatro países dominam esse mercado: Canadá, Belarus, Rússia e China, que juntos somam quase 80% da produção mundial. E tanto a Belarus quanto a Rússia agora começam a apresentar problemas no fornecimento desse produto para o mercado mundial.”

No caso das matérias primas de base nitrogenada, como ureia, nitrato de amônio e sulfato de amônio, a Rússia também é forte responsável pela exportação desses produtos para o Brasil.

“A recente ida da ministra [Tereza Cristina] para o Irã e outros países da região do Oriente Médio é uma forma de diversificar a fonte fornecedora desse nitrogenado, caso aumente muito a questão dos fertilizantes no caso da Rússia”, afirma o pesquisador.

A produtora agrícola Karina Dameto, do município de Barbosa Ferraz, no Paraná, se preocupa com o aumento do preço dos fertilizantes.

“Já está tendo um aumento. Somente esse ano, em relação aos fertilizantes, comparando com o ano passado, nós tivemos um aumento de uma média de 400%. No ano passado nós pagávamos em um saco de fertilizante R$ 120; esse ano já foi para R$ 300.” 

Segundo o pesquisador Mauro Osaki, o aumento expressivo do fertilizante se deu principalmente pela elevação do preço do gás natural na Europa. 

“Gás natural é matéria prima para produção de nitrato de amônio. Então como o gás natural subiu, consequentemente transmitiu isso no preço final do adubo; que é o que aconteceu no primeiro semestre de 2021.”

Combustíveis

Com a disparada do petróleo, a preocupação é com os preços dos combustíveis ou até mesmo com a possível falta deles. O diretor executivo de Comercialização e Logística da Petrobrás, Cláudio Mastella, afirmou que a companhia está monitorando a crise entre a Rússia e a Ucrânia e que, até o momento, não vê impacto na segurança de atendimento aos clientes no Brasil, que são abastecidos por refinarias nacionais e pela importação de outras áreas do mundo. 

Já em relação aos preços, ele observa um impacto de elevação muito forte na volatilidade dos preços no mercado. 

O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Antônio Jorge Ramalho, avalia que os conflitos entre Rússia e Ucrânia podem criar uma pressão inflacionária no Brasil e em outros países.

“O petróleo já disparou. Não há dúvida de que haverá uma elevação nos preços dos alimentos e dos combustíveis. O preço dos alimentos, o preço da proteína vegetal, da proteína animal - que depende fortemente das rações preparadas -, tudo isso vai impactar na nossa economia, vai criar uma pressão inflacionária, vai provavelmente obrigar os bancos centrais a elevarem ainda mais rapidamente suas taxas de juros. E aquela inflação, que vinha resiliente, ainda muito influenciada pelos gargalos criados pela retomadas das economias no pós-covid, agora sofre um outro choque externo bastante importante.”

Entenda a crise entre Rússia e Ucrânia

O professor da UnB Antônio Ramalho afirma que a guerra entre Rússia e Ucrânia deve ser percebida como parte de um processo de organização geopolítica no âmbito internacional. 

“O presidente Putin tem uma visão muito clara da necessidade daquilo que ele chama de restabelecer a posição influente da Rússia no cenário internacional. É uma reação ao que a Rússia percebe como ameaça a sua segurança. Essa ameaça vem tanto do ponto de vista político, com as transformações, as revoluções coloridas, tentativas de exportar democracia para seu entorno, como por outro lado a instalação de bases de mísseis dos Estados Unidos na Polônia a partir da Romênia. A Rússia percebe isso como uma expansão indevida dos Estados Unidos sob a égide da OTAN naquilo que antes era a sua esfera de influência.” 

O professor explica que a Rússia enxerga a Ucrânia como uma espécie de estado tampão, que deveria funcionar fortemente influenciado pela dinâmica política russa e não aceitaria uma mudança de governo mais profunda na Ucrânia, muito menos sua adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). 

Confira a entrevista completa com o professor de Relações Internacionais da UnB, Antônio Jorge Ramalho.

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Brasil 61