Desenvolvimento sustentável

19/08/2022 04:00h

Em evento promovido pela CNI, especialistas debateram a necessidade da criação de um mercado global de carbono regulado, com regras claras para estimular a segurança jurídica, a inovação e a competitividade

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Especialistas apontam que a criação de um mercado global de carbono vai ajudar as nações do mundo a reduzirem suas emissões. Durante debate promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a proposta em destaque foi o mercado regulado de carbono, que conta com regras claras para estimular a segurança jurídica, a inovação e a competitividade das empresas, sem aumentar a carga tributária.

A vice-chefe da Unidade de Coordenação de Políticas de Mercados Internacionais de Carbono, da Comissão Europeia, Polona Gregorin, definiu as etapas essenciais que garantam um mercado regulado de carbono bem-sucedido.

“O primeiro passo é, realmente, definir qual é a lacuna. Se não houver a definição do que se buscar, de fato, fica difícil estabelecer um sistema. O segundo passo é ter algum tipo de registro, como uma contabilidade, por exemplo, de tudo o que foi permitido e emitido no sistema”, afirmou.

“Também é importante garantir um monitoramento robusto, que seja transparente, consistente e preciso, para que todas as emissões sejam calculadas”, acrescentou a especialista. 

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O evento organizado pela CNI reuniu, nos dias 16 e 17, especialistas, empresários, federações e associações do setor industrial para debater a agenda climática e os avanços do Brasil em relação a uma economia de baixo carbono.

Durante a abertura do evento, o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, defendeu que o mundo precisa enfrentar, de maneira urgente, os desafios de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e conter o aquecimento global. Na ocasião, ele destacou que o Brasil está engajado no esforço pela descarbonização da economia e desempenha papel relevante nas negociações internacionais sobre clima. 

“Atualmente, as fontes renováveis têm uma participação de quase 50% na matriz energética brasileira, que é uma das mais limpas do mundo. O Brasil também foi pioneiro na produção e no uso de biocombustíveis.  Além disso, temos a mais rica biodiversidade e a maior floresta tropical do planeta. Com essas características admiráveis, reunimos condições para atrair recursos do financiamento climático, que seriam importantes para consolidar nossa trajetória rumo a uma economia verde”, considerou. 

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Barral, falou sobre a importância da cadeia energética no processo de descarbonização. Ele ressaltou que é essencial não apenas ponderar os potenciais benefícios ambientais, econômicos e sociais dessa medida, mas também debater acerca de estratégias que incidam sobre a segurança do suprimento e os custos em curto, médio e longo prazos.

“Quando olhamos o que nos trouxe até essa condição privilegiada na transição energética, não necessariamente vai nos levar ao destino final, porque temos novos fatores e novos elementos necessários para isso. Temos necessidade de aumentar a oferta de energia, mas também o desafio da neutralidade de carbono, o que requer alcançar um maior nível de sofisticação no processo de descarbonização. Cerca de 40% das tecnologias necessárias para alcançar essa neutralidade ainda não estão maduras”, avaliou. 

Hidrogênio Sustentável

Em meio à programação, foi lançado o estudo Hidrogênio Sustentável: perspectivas e potencial para a indústria brasileira. O documento conta com um mapeamento e a avaliação de políticas, iniciativas e programas de hidrogênio sustentável em desenvolvimento, nos âmbitos nacional e internacional. 

O levantamento revela que o Brasil tem potencial para se inserir de forma competitiva nesse mercado, graças à disponibilidade de recursos renováveis essenciais para produção, assim como por conta das possibilidades de uso interno e exportação.

Dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), mostram que, desde 2000, foram registrados 990 projetos de hidrogênio no mundo, sendo 67 países com ao menos uma iniciativa na área. Somente quatro são originários do Brasil.

Além disso, projeção do Hydrogen Council, aponta que apenas projetos de larga escala anunciados a partir de 2021 somam investimentos de cerca de US$ 500 bilhões até 2030.

O estudo avaliou, principalmente, as oportunidades e desafios da utilização de hidrogênio sustentável como vetor energético em direção a uma economia de baixo carbono.

O evento 

O evento é uma preparação do setor para a 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP27), que será realizada em novembro, no Egito. O encontro da CNI ocorre no Palácio Tangará, em São Paulo.

O intuito do encontro é discutir a contribuição do país para atingir as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa estabelecidas no Acordo de Paris, assim como as oportunidades de negócios para a descarbonização da indústria nacional. 

O evento contou com painéis e sessões especiais sobre experiências e cenários em quatro eixos. São eles: transição energética, economia circular, mercado de carbono e conservação florestal. 
 

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26/07/2022 16:30h

Recursos serão destinados a empreendimentos de abastecimento de água, esgotamento sanitário, saneamento integrado e manejo de águas pluviais, além da elaboração de estudos e projetos

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Vinte cidades brasileiras vão receber, juntas, R$ 7,3 milhões para a continuidade de obras de saneamento básico. São empreendimentos referentes a abastecimento de água, esgotamento sanitário, saneamento integrado e manejo de águas pluviais, além da elaboração de estudos e projetos.

A cidade de Goiânia, em Goiás, contará com R$ 1 milhão para a ampliação do Sistema de Esgotamento Sanitário (SES) do município. Já Águas Lindas de Goiás receberá R$ 533 mil para obras de saneamento integrado no Jardim América II, III, IV, V e VI, além do Parque das Águas Bonitas.

Luziânia, no mesmo estado, terá acesso a R$ 188 mil para intervenções de saneamento integrado e urbanização nos Parques Alvorada I, II e III e Parque JK. Já para o Novo Gama, foram repassados R$ 45 mil para obras de saneamento integrado da região Lunabel, que compreende os bairros de América do Sul, Alphaville Paiva e Lunabel 3C.

No Ceará, a capital Fortaleza receberá R$ 1 milhão para obras no sistema adutor e de reservação do Taquarão. Já para Cascavel, serão repassados R$ 271 mil para implantação da nova Estação de Tratamento de Água (ETA), readequação da captação no Açude Mal Cozinhado e adução de água bruta e tratada.

Para Viçosa do Ceará, serão repassados R$ 209 mil para a ampliação do SES na sede municipal. Já Sobral contará com R$ 151 mil para a ampliação do SES nos bairros Padre Ibiapina, Domingos Olimpio e Pedro Mendes Carneiro (Cohab III).

Para Botucatu, no estado de São Paulo, serão destinados R$ 976 mil para drenagem urbana sustentável nos córregos Lavapés, Água Fria, Cascata, Antártica e Tenente.

Em Pernambuco, o município de Olinda receberá R$ 670 mil para a ampliação do sistema de esgotamento sanitário da Bacia do Janga. Já Rondonópolis, no Mato Grosso, vai contar com R$ 550 mil para a ampliação do Sistema de Abastecimento de Água (SAA) na sede municipal.

Na Bahia, a capital Salvador receberá recursos para melhorias no SAA da cidade, na área de atendimento do reservatório R7 e R23. O valor é de R$ 424,5 mil.

Piripiri, no Piauí, contará com R$ 307 mil para a implantação do SES na sede municipal.

O município de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, fará obras de ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Paraná. O repasse será de R$ 258 mil.

Para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, serão repassados R$ 250 mil para a ampliação do sistema de macrodrenagem da Bacia do Arroio da Areia, com a implantação de reservatórios de detenção.

No Amapá, a capital Macapá terá R$ 248 mil para obras de saneamento integrado e urbanização da Orla do Aturiá e erradicação de palafitas.

Para Brasília, no Distrito Federal, serão repassados R$ 120 mil para a implantação de centro de reservação no SAA do Descoberto.

Barbacena, em Minas Gerais, terá R$ 55 mil para obras de ampliação do SES na sede municipal.

Já o município de Itapema, em Santa Catarina, contará com R$ 41 mil para a implantação de sistema de drenagem urbana em diversos bairros.

Por fim, Cabedelo, na Paraíba, receberá recursos para a elaboração de projetos para a universalização do SES da área metropolitana, beneficiando, além do município, as cidades de João Pessoa, Bayeux e Conde.

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Por meio dessa ferramenta, é possível identificar as virtudes e as fragilidades dos municípios no cumprimento dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU

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O Brasil se tornou o primeiro país do mundo a avaliar os avanços e os retrocessos da Agenda 2030 da ONU, com o lançamento do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades - Brasil (IDSC-BR). 

Trata-se de uma ferramenta que reúne indicadores e dados dos 5.570 municípios brasileiros. Por meio dela, é possível identificar as virtudes e as fragilidades do ente no cumprimento dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

Clique aqui para acessar os dados 

Segundo o diretor do Instituto Cidades Sustentáveis, Jorge Abrahão, o índice possibilita uma visão geral e integrada das cidades brasileiras em cada um dos objetivos. A ferramenta também conta com mapa interativo, análise individual de cada município e um ranking entre cidades, estados e regiões em relação ao nível de desenvolvimento sustentável. 

“É importante que o país tenha indicadores atualizados. Nós conseguimos criar o índice que desenvolveu um olhar para as cidades, criou um ranking e nós conseguimos ver as cidades em cinco diferentes níveis, que vão de muito baixo desenvolvimento sustentável até muito alto desenvolvimento sustentável. Se conseguirmos avançar com essa agenda nas cidades, também vamos estar avançando o país”, destaca. 

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Até o momento, a cidade que teve a melhor performance dentro dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU foi São Caetano do Sul, localizado na região metropolitana de São Paulo, que atingiu 65,62 pontos na soma de todos os critérios. O município tem cerca de 162.763 habitantes e conta com um PIB per capita de R$ 85.062,97.

Já a última posição do ranking é ocupada pelo município paraense de Santana do Araguaia, com 30,10 pontos. Situado no extremo sul do estado, a cidade tem 75.995 habitantes e um PIB per capita de R$ 14.228,20.

A apresentação do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades - Brasil (IDSC-BR) foi feita no último dia 8 de julho, em São Paulo (SP), durante a abertura da primeira edição do Fórum de Desenvolvimento Sustentável das Cidades. 

Na ocasião, o secretário de Pesquisa e Formação Científica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Marcelo Morales, defendeu que as Universidades e Institutos de Pesquisa podem contribuir para o alcance de bons índices sustentáveis. 

“O desafio que coloco para os prefeitos, com apoio do MCTI, é que coloquemos as Universidades e Institutos de Pesquisa à disposição dos municípios, para que todos esses índices sejam superados. Aqueles que não estão bem, que superem esses desafios com a melhor ciência disponível no país”, considera. 

Em busca do desenvolvimento sustentável

O objetivo da ferramenta é estimular o cumprimento da Agenda 2030. O índice também é apontado como uma oportunidade para as cidades se envolverem mais com a agenda global de desenvolvimento sustentável. Outro intuito é conscientizar a população sobre a temática. 

A ferramenta foi criada por meio de um trabalho conjunto entre o Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) e a SDSN (UN Sustainable Development Solution Network). 
A iniciativa foi estabelecida dentro da própria ONU para mobilizar conhecimentos técnicos e científicos no apoio de soluções em escalas locais, nacionais e globais.

O trabalho conta, ainda, com o apoio do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e financiamento do Projeto CITinova.
 

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Programa Nacional de Crescimento Verde busca aliar o crescimento econômico ao desenvolvimento sustentável

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O Brasil possui R$ 411 bilhões disponíveis para financiamento de projetos verdes intermediados por bancos públicos federais. O valor foi estimado no período entre outubro de 2021 e dezembro de 2022, e é oferecido por Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Novo Banco do Desenvolvimento (Banco do BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Os dados foram apresentados pelo secretário-executivo adjunto do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Daniel Catelli, durante o II Fórum de Governança Ambiental, promovido pelo Comitê de Desenvolvimento Sustentável da Rede Governança Brasil (RGB).

“O montante de recursos que nós temos no Brasil, hoje, destinado a esse tipo de atividade é muito grande. Nós precisamos de bons projetos, de uma boa governança, para que esse recurso consiga chegar na ponta, para que o empreendedor consiga acessar esses recursos. E que consigamos de fato transformar a economia do nosso país e fazer com que essa realidade, que o Brasil vive hoje, o consolide em uma superpotência ecológica no mundo”, destacou.

Programa Nacional de Crescimento Verde

Durante o fórum, o secretário Daniel Catelli falou sobre o Programa Nacional de Crescimento Verde. Criado em 2021 pelo governo federal e gerido pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima e Crescimento Verde, o programa tem os seguintes objetivos:

  • Aliar o crescimento econômico ao desenvolvimento sustentável;
  • Aprimorar a gestão de recursos naturais;
  • Criar empregos verdes;
  • Promover a conservação de florestas e a proteção da biodiversidade;
  • Reduzir as emissões de gases de efeito estufa;
  • Estimular a captação de recursos, públicos e privados, provenientes de fontes nacionais e internacionais;
  • Incentivar a elaboração de estudos e pesquisas que contribuam com os objetivos do programa.

“Não entendemos o meio ambiente dissociado do elemento humano. O elemento humano está presente no meio ambiente e interage diretamente com ele. E precisamos criar incentivos positivos”, disse Catelli.

Segundo o secretário, até setembro, o Programa Nacional de Crescimento Verde deve estabelecer uma uniformização do conceito de projetos verdes que valha para todas as instituições financeiras. “Se não tivermos uniformização, nós não conseguimos falar a mesma língua. Nós teremos algumas instituições dizendo que um determinado projeto é verde e, em uma outra instituição, o mesmo projeto pode não ser considerado verde”.

Agenda ASG pauta organizações e incentiva reflexões sociais e ambientais

Investidores levam em conta adoção de critérios ESG por empresas na hora de decidir onde investir

Iniciativas

Uma das iniciativas apoiada pelo programa é a Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Programa Nacional de Logística Reversa. As medidas buscam acelerar o encerramento de lixões e aumentar a reciclagem, para transformar o lixo em investimentos verdes.

“A Política Nacional de Resíduos Sólidos é extremamente inovadora e exitosa, no sentido de que agora nós estamos trazendo crédito de reciclagem. Estamos trazendo mais um elemento econômico importante para incentivar a reciclagem no Brasil. E esses elementos econômicos acabam estimulando a população, não apenas como algo mandatório. Queremos trazer incentivos”, afirma Catelli.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil é recordista mundial em reciclagem de latas de alumínio, com mais de 31 bilhões de latas recicladas em 2020. Do total de 402 mil toneladas produzidas naquele ano, 391 mil toneladas foram recicladas.

Outras iniciativas do programa são o Mercado de Crédito de Carbono (decreto 11.075/2022) e a Estratégia Federal de Incentivo ao Uso Sustentável do Biometano (decreto 11.003/2022). Segundo a pasta, o Brasil tem potencial para gerar de US$ 16 bilhões a US$ 72 bilhões em receitas líquidas de crédito de carbono até 2030.

Além disso, em 2021, o Ministério de Minas e Energia, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, realizou o primeiro leilão de energia gerada a partir da drenagem de gás dos resíduos sólidos (biogás e biometano), que contou com investimentos de mais de R$ 500 milhões.

Daniel Catelli também citou a Cédula de Produtor Rural Verde e a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais. Ambas buscam incentivar a preservação de florestas e vegetação nativa, por meio de compensação financeira.

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24/06/2022 03:30h

Plano Ambiental, Social e de Governança, chamado de ASG, parte da compreensão da empresa como agente da sociedade e elabora metas de desenvolvimento

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A Agenda Ambiental, Social e de Governança, chamada de ASG, surge do desafio de integrar esses três fatores no mercado de capitais. Uma sigla que vem sendo cada vez mais importante para empresas, mas ainda pouco conhecida pela população impactada por ela. O termo é uma tradução do inglês ESG, que significa environmental, social and governance. 

A ASG surgiu por meio do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, que produziu um relatório com Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), para encorajar a integração de critérios ambientais, sociais e de governança.

Segundo publicação do BNDES, a adoção desses critérios para a avaliação de empresas e investimentos “parece estar definitivamente incorporada na pauta das gestoras e bancos brasileiros”. Nessas instituições financeiras que integram a ASG, “as decisões de investimentos e concessão de crédito passam a levar em consideração o impacto destes em todas as partes interessadas – como funcionários, consumidores, fornecedores e comunidade – e não somente o lucro potencial para a instituição financeira e seus acionistas”.

Alexandre Maduro de Abreu, professor do Departamento de Administração e diretor do Centro de Pesquisa em Gestão, Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (UnB), detalha cada um dos critérios da ASG e lembra que toda empresa se relaciona com o ambiente que está em volta dela. O especialista pontua que esse ambiente é composto pela própria sociedade, pelo Estado e por outros agentes, inclusive o meio ambiente, e essa agenda é uma forma de regular essas relações.

Começando pela primeira letra da sigla, relativa ao ambiental, Alexandre diz que ela requer um pensamento das organizações sobre quais as formas de garantir a integridade do meio ambiente, caso exista o consumo de recursos. “Então, eu estou dizendo o seguinte: quando eu emito gases geradores de efeito estufa, poluição de água, do ar, desmatamento, que eu possa ter processos internos para evitar isso”, conceitua.

No âmbito social, ele ressalta a forma como a empresa dialoga com os desafios da sociedade. “A dimensão social já olha para as comunidades que se relacionam com essa organização. Então, é pensar e assumir a responsabilidade com essas comunidades, transferir parte dos seus recursos para garantir o desenvolvimento delas. É uma dimensão social dessa agenda. Agora, mais recentemente, além de pensar as comunidades locais, também está se pensando na questão da diversidade. Incluir também questões de raça, gênero, etnia, cultural. Que essas diversidades sejam aceitas e incluídas.” 

E, por fim, a dimensão governança é caracterizada na visão do especialista como a aplicabilidade das boas práticas, de uma transparência e da ética na relação com todos esses agentes e envolvendo todos esses processos. “É preciso deixar claro para a sociedade, para os órgãos de controle, que as relações da organização são assim, são pautadas por essas normas”, finaliza.

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BASA investe em desenvolvimento econômico e ambiental na Amazônia

Na prática

Uma das instituições que é referência em políticas da agenda ASG é o Banco da Amazônia (Basa), um agente financeiro que tem como missão promover o desenvolvimento sustentável da região por meio da concessão de crédito comercial e de fomento no local. O Banco ultrapassou, em 2021, a marca de R$ 505 milhões em investimentos de agricultura familiar, alcançando 13.140 operações. A instituição tem como foco o desenvolvimento econômico, estrutural e de meio ambiente, e atua nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão, conta com escritório de negócios em São Paulo e assessoria em Brasília-DF. 

De acordo com a gerência de Planejamento e presidência do Banco, é essa agenda que orienta a implementação das políticas públicas e a geração de resultados. O destaque vem principalmente das ações dentro do âmbito ambiental. “Para nós, a sustentabilidade é a razão de ser do Banco. É o nosso posicionamento. Somos o braço do governo federal para a implementação das políticas públicas na região e a sustentabilidade é o que nos move. O crédito é o principal produto utilizado para desenvolver de forma sustentável os empreendimentos da Amazônia”, explica Márcia Mithie, gerente de planejamento do Basa.

Um exemplo prático vem da linha de crédito da Pecuária Verde, como pontua Valdecir Tose, presidente do Banco da Amazônia. Com ela, em síntese, o Basa oferece financiamentos aos clientes que preconizam boas técnicas ambientais. “É um modelo diferente de pecuária, que tradicionalmente é vinculada ao desmatamento, à geração de impactos de gases do efeito estufa. No entanto, trabalhamos da forma correta na transição, fazendo o reflorestamento das áreas degradadas, fazendo a recomposição, fazendo a melhoria da pastagem”, define.

Dentro do campo social, a empresa apresenta números como a porcentagem de 38% do quadro de funcionários ser formado por mulheres e de 38% delas estarem em cargos de gestão. “O banco tem buscado estimular mais essa participação feminina. Ainda lançamos um edital de pesquisa, apoiando o desenvolvimento da região e empresas como Embrapa e universidades, e temos o apoio cultural. São mais R$ 2,5 milhões de apoio à pesquisa e R$ 3 milhões de patrocínios todo ano”, enumera Valdecir Tose.

Como a AGS foi pensada a partir dos ODS, um esforço global de 17 objetivos para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima, o Basa elencou sete deles que estavam relacionados à sua área de atuação para guiar os procedimentos do banco, estabelecendo dez metas. 

ODS inseridos na atuação do Basa:

  • 1 – Erradicação da Pobreza: o Banco direciona recursos com vistas a implementação de políticas públicas que diminuam as desigualdades econômicas.
  • 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável: os financiamentos concedidos induzem boas práticas com olhar especial a clientes de pequeno porte.
  • 5 – Igualdade de Gênero: as mulheres do Basa contam com regras de encarreiramento em condições iguais, sem diferenciação ou preconceito, com iniciativas para apoio e empoderamento feminino.
  • 7 – Energia Limpa e Sustentável: há recursos para financiamentos de energia renovável para as pessoas físicas, empresas e nos projetos de infraestrutura, com incentivos internos para otimização dos recursos naturais.
  • 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico: incentivo à inovação e modernização nos empreendimentos financiados, com foco no aumento da geração de empregos e apoio às micro, pequenas e médias empresas.
  • 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura: apoio às pesquisas científicas e projetos com objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas.
  • 15 – Vida Terrestre: estímulo à preservação da biodiversidade e dos ecossistemas, com aporte para manejo florestal sustentável, preservação dos recursos naturais e apoio à bioeconomia.
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Meio Ambiente
10/06/2022 17:05h

Participantes de seminário da CNI em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, também debateram papel dos pequenos negócios na promoção da sustentabilidade

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Uma pesquisa revelou que 77% das empresas já haviam escutado sobre ESG (sigla, em inglês, para Ambiental, Social e Governança) antes da consulta; que 49% das indústrias têm o conceito integrado à sua estratégia; e 32% estão se planejando para incorporá-lo. O estudo foi divulgado durante seminário promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), nesta quarta-feira (8).

A pesquisa foi feita com cem indústrias brasileiras para verificar como está a incorporação dos critérios ESG por essas empresas. Ao serem questionadas sobre quem mais influencia a integração ESG pela empresa, as indústrias elegeram o mercado consumidor, com 71,6%. “É o público que está norteando a inclusão da proposta de ESG na estratégia de negócio”, afirmou Mônica Messenberg, diretora de Relações Institucionais da CNI. O conselho de administração e os acionistas vieram em seguida. Entre os principais desafios percebidos por essas indústrias para a adoção dos critérios ESG está a carência de recursos humanos. 

Para especialistas, a incorporação de critérios ESG  pelas empresas pesa cada vez mais na injeção de investimentos do mercado financeiro no setor produtivo. O assunto foi debatido no seminário, além de como os pequenos e médios negócios podem contribuir para que as cadeias produtivas sejam mais sustentáveis. 

A iniciativa da CNI celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado no último domingo (5). Na abertura do evento, o vice-presidente executivo da CNI, Glauco José Côrte, destacou que o conceito ESG ganhou espaço na mídia e no mundo empresarial nos últimos três anos. Segundo ele, a pandemia mostrou que a retomada do crescimento deve estar aliada a princípios sustentáveis. 

“Os desafios relacionados à sustentabilidade têm exigido cada vez mais responsabilidade e transparência na forma como as empresas interagem com o meio ambiente, se relacionam com seus stakeholders e nas estratégias de gestão adotadas. Isso tem impactado diretamente as avaliações de riscos e decisões de investimentos do mercado financeiro, demandando um reposicionamento das lideranças empresariais”, afirmou. 

Clovis Zapata, representante adjunto da Organização das Nações Unidas (ONU) para o desenvolvimento industrial no Brasil, destacou que a indústria, conforme o nono objetivo de desenvolvimento sustentável (ODS), é um pilar para o desenvolvimento econômico. 

“A indústria é uma das alavancas para o desenvolvimento da sociedade como um todo. A indústria brasileira tem um potencial enorme para ser protagonista no uso eficiente de recursos naturais, visando a inserção na economia de baixo carbono e aumentando a participação nas cadeias globais de valor, com mais produtividade, mais eficiência na utilização dos recursos escassos e gerando emprego e renda”, disse. 

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ESG e a indústria brasileira

Carlos Takahashi, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) destacou que, por causa das mudanças climáticas, os investidores estão mais conscientes e criteriosos na hora de aportar recursos. “Já em 2020 havia dados que mostravam que, do lado dos investidores, havia uma procura muito maior por investimentos sustentáveis, ou seja, os investidores continuavam buscando retorno, mas queriam que isso viesse de boas práticas ambientais, sociais e, obviamente, de uma boa governança”, disse. 

Beatriz Stuart Secaf, gerente de Sustentabilidade da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), disse que o debate em torno da responsabilidade dos agentes financeiros no fomento a iniciativas que levam em conta os critérios ESG amadureceu, entre outras coisas, por “evidências científicas” e “um maior senso de urgência”. 

“Para viabilizar essa transição, as próprias instituições financeiras já reconhecem o seu papel e responsabilidade em financiar essas atividades que tenham impacto positivo na sociedade”, avalia. 

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), Fernando Pimentel, destacou a importância das empresas de grande porte nesse processo. “A aceleração desse movimento passa muito pelo encadeamento produtivo, onde as empresas de maior porte, com maior capacidade de investimento, com equipes mais montadas e estruturadas, e as práticas que elas adotam podem por efeito cascata ir chegando nas menores”, pontua. 

Renato Perlingeiro Salles Junior, analista da Unidade de Competitividade do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Nacional), reforçou que as micro e pequenas empresas podem encarar a agenda sustentável como uma oportunidade. “É uma oportunidade para o pequeno empresário melhorar a eficiência do seu negócio, identificar as oportunidades de se posicionar para acessar mercados mais exigentes, desenvolver novas tecnologias e se diferenciar para o consumidor do futuro”, orienta. 

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26/05/2022 11:05h

É o que defende a relatora projeto de lei 2148/2015, Carla Zambelli (PL-SP). Entre outros pontos, a proposta estabelece redução de tributos para produtos adequados à economia verde de baixo carbono

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Não desmatar se tornará uma garantia de mais recursos econômicos. É o que afirma a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), ao defender o Mercado Regulado de Carbono. A parlamentar é relatora do projeto de lei 2148/2015, que, entre outros pontos, estabelece redução de tributos para produtos adequados à economia verde de baixo carbono. Segundo a parlamentar, a medida contribuirá, inclusive, para o Brasil atingir a meta de redução de gases de efeito estufa. 

“Temos mais de 23 milhões de pessoas na faixa de pobreza na região amazônica, e muitos deles veem no desmatamento uma forma de sobrevivência e de busca de recurso. Precisamos encontrar uma outra forma de essas pessoas buscarem recurso. Se conseguirmos reduzir o desmatamento, já entramos na missão de reduzir em 50% as emissões para 2030, que é nossa meta, e neutralidade de gases de efeito estufa para 2050”, destaca. 

Ainda segundo a Carla Zambelli, o Mercado Regulado de Carbono precisa tornar-se uma realidade, já que apresenta vantagens significativas sobre o chamado mercado voluntário, que não conta com estrutura de regulação e não é capaz de mobilizar os recursos necessários para financiar a modernização das atividades produtivas. 

“Se a área, por exemplo, for de uma concessão florestal, a parte virgem, que precisa continuar dessa forma, pode entrar no mercado voluntário de carbono, no qual a tonelada de crédito de carbono gira em torno de 25 euros no mercado internacional. No mercado regulado, ela custa 100 euros, ou seja, quatro vezes mais caro”, afirma. 

No mercado regulado, a lei estabelece os limites de emissão. Enquanto o modelo voluntário, já adotado por algumas companhias do país, busca atender a demanda por créditos de carbono de empresas e indivíduos que escolhem neutralizar suas emissões de gases de efeito estufa.  

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Direito da Energia e do Meio Ambiente (ABDEM), Alexandre Sion, a demora na aprovação de medidas voltadas à regulação do mercado de carbono faz com que o Brasil se torne coadjuvante em uma discussão que deveria ter protagonismo. “Além de fomentar a economia de baixo carbono, o desenvolvimento do mercado regulado nacional daria condições para que o país se posicionasse melhor no mercado internacional”, pontua.  

O projeto de lei conta com outras propostas apensadas. Entre elas, está o PL 528/2021, que cria o Sistema Brasileiro de Registro e Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa.  

Origem do mercado de carbono 

Os mercados de carbono passaram a ganhar mais ênfase em todo o mundo desde a assinatura, por países da ONU, do Protocolo de Kyoto, em 1997. O acordo entre as nações estabeleceu a meta de que países desenvolvidos deveriam diminuir em 5,2% suas emissões de gases que provocam o chamado efeito estufa. A redução deveria ocorrer até 2012.

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Já em 2015, com a assinatura do Acordo de Paris, as metas foram renovadas e passaram a contar com incentivos à iniciativa privada. Até então a regulamentação desses pontos estava em discussão, que se tornaram resoluções apontadas na COP26, em Glasgow, na Escócia.  
 

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19/05/2022 14:24h

Os animais ficam soltos na natureza, se beneficiam de sombras naturais, água fresca e recebem a ração preparada a partir de capim cortado, espalhado em diferentes regiões da propriedade

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Mais de 40% do gado no Brasil está na região da Amazônia Legal, segundo o Censo Agropecuário de 2017 (último levantamento feito pelo IBGE). Para garantir a sustentabilidade da atividade, a produção de gado na região tem buscado alternativas que reúnem preservação ambiental e produtividade para a pecuária na região amazônica. 

A criação de gado sustentável é um sonho que tem sido cada vez mais real para a Pecuária Saab, localizada em Amajari (RR). O proprietário, o paranaense Bechara Saab, de 67 anos, foi para a região de Roraima em 1979, período em que o governo estimulava a migração de produtores com seus rebanhos para a região amazônica, sob o slogan “Integrar para não entregar”. 

Desde o princípio, Bechara trabalha com gado e, desde 2019, está desenvolvendo o manejo sustentável do rebanho. Em sua propriedade, no extremo norte de Roraima, ele iniciou o trabalho de implantação da pecuária verde. 

O gado fica concentrado em pequenas áreas que variam de 50 a 100 hectares, chamadas de piquete. Nesse espaço, os animais ficam soltos na natureza, se beneficiam de sombras naturais, água fresca e recebem a ração preparada a partir de capim cortado, espalhado em diferentes regiões do piquete. À medida que o animal pisoteia, se alimenta e excreta, o solo vai se enriquecendo de matéria orgânica. 

“O solo vai ficando cada vez mais poroso, a pastagem cada vez mais verde, vai absorvendo melhor a umidade e vai sentindo cada vez menos o efeito da seca. Há ausência total de fogo. O gado come alimento fresco, fica mansinho. É uma coisa inacreditável”, explica animado o pecuarista. 

Após 60 dias, o rebanho é conduzido a outro piquete e aquela pastagem anterior naturalmente se regenera. “É um sistema muito bom e tem a vantagem que as pastagens vão ficando cada vez mais exuberantes sem adição química - depois das pastagens formadas. E, então, vai ter uma uma captação de CO² no solo e não emissão de CO² na atmosfera. É muito sustentável”, acrescenta Saab. 

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Incentivo à sustentabilidade

A iniciativa da Pecuária Saab, pioneira na região, recebeu apoio do Banco da Amazônia (Basa). Além dele, outros 11 produtores da região norte receberam incentivo financeiro e técnico para desenvolver projetos que reúnem criação de gado e sustentabilidade. Eles fazem parte de um projeto piloto do Basa que recebeu o nome de Pecuária Verde.  

A partir da experiência desses 12 proprietários, o Basa está desenhando um novo produto para apoiar projetos de pecuária sustentável na região amazônica. “A seleção deles se deu porque, de certa forma, já tinham diferenciais na parte ambiental. Com acompanhamento, queremos adequar, potencializar e aperfeiçoar o que já fazem”, diz o superintendente regional do Basa do Amazonas e Roraima, Esmar Prado. 

Atualmente na fase de modelagem, o projeto Pecuária Verde deve atender ao menos mil  propriedades, abrangendo 5 mil trabalhadores, estima o superintendente. A ideia do Pecuária Verde é que os beneficiários sejam capacitados para utilizar as melhores tecnologias e práticas, sem desmatamento, com a manutenção das áreas a serem preservadas e o conforto animal.  
 
“Não é produzir por produzir. É produzir com uma base socialmente e ambientalmente responsável, observando todas essas questões que envolvem a nossa segurança futura do meio ambiente”, explica Prado. O produto deve ser lançado para o mercado em meados de agosto. 

A nova linha de crédito está sendo feita a muitas mãos. A área técnica da instituição financeira conta com a experiência dos produtores e com a parceria da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e do projeto Finanças Brasileiras Sustentáveis (FiBraS). A nova modalidade se alinha aos  Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

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Meio Ambiente
13/05/2022 03:00h

A Green Way for Automotive, que fica em Gravataí (RS), tem metas ambiciosas: até 2030 quer descontaminar e reciclar 100 mil toneladas de resíduos automotivos e reaproveitar até 95% das partes e peças dos veículos

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A startup gaúcha Green Way for Automotive (GWA), localizada em Gravataí (RS), tem uma meta ambiciosa para os próximos oito anos: descontaminar e reciclar 100 mil toneladas de resíduos automotivos e reaproveitar até 95% das partes e peças dos veículos. Ao aliar inovação e cuidado com o meio ambiente, a empresa exemplifica como o conceito de economia circular pode ser aplicado para resolver problemas do cotidiano das grandes cidades, como os milhões de carros sucateados Brasil afora. 

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Responsável por coordenar um projeto que buscava novos caminhos para a reciclagem do aço junto a uma grande siderúrgica, Wladi Souza se deparou com a situação dos carros abandonados nos pátios dos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans) de todo o país. Ele conta que eram centenas de milhares de veículos parados por diversos motivos. O objetivo inicial era entrar em contato com os Detrans para ajudar a diminuir esse passivo. 

“A gente começou a fazer esse trabalho nos Detrans do Brasil inteiro. A gente tinha o problema de carros muito antigos, muito oxidados. A gente conseguiu diminuir um pouco, mas nunca conseguimos baixar o estoque de veículos no Brasil. No fim das contas, o Brasil produz muito carro e recicla muito pouco, eu acredito que nem 10%”, afirma. 

Mesmo assim, ele conta, o passivo de veículos sucateados não diminuía, uma vez que a capacidade de produção da indústria nacional é elevada. Wladi e seu amigo André perceberam também que, antes de acharem uma solução para as peças que compunham os veículos, tinham que resolver um outro problema: o impacto ambiental que os gases e fluidos desses carros abandonados causam ao meio ambiente. Foi aí que nasceu a GWA. 

“A gente foca principalmente em desenvolver soluções para descontaminação ambiental do carro. Os carros precisam passar por um processo de remoção de todos os gases e fluidos para que depois a gente comece a pensar no carro como matéria, como plástico, aço, vidro. A gente desenvolveu uma máquina, que é nossa patente, que é um processo automatizado de remover fluido por computador”, explica.

O segundo passo após a descontaminação são os processos de desmontagem dos veículos, separando as peças e tentando reinseri-las no ciclo produtivo. “A gente começou a comprar alguns carros, descontaminar e fazer desmontagem, visualizando entregar que o plástico, de alguma maneira, volte para a cadeia, que o aço volte pra siderúrgica e, assim, sucessivamente, com todos os materiais, implementando o conceito de economia circular no carro”, detalha. 

Com o sucesso da iniciativa, a Toyota resolveu apoiar a startup gaúcha e, agora, ajuda a GWA a se conectar com parceiros comerciais que tenham condições de receber o plástico, o aço, a borracha, e todos os demais materiais vindos da desmontagem dos veículos para colocá-los na cadeia de produção novamente. 

A ideia da GWA, segundo Wladi, é que o índice de reciclagem chegue a 95% por carro. “São tantos itens numa qualidade produtiva tão alta em termos de produto que não dá pra gente não pensar diferente em como daqui a pouco reaproveitar, reduzir ou tentar criar produtos, pensar diferente o resíduo do carro. É isso que a gente está tentando fazer”, indica. 

Suporte legal
Patrícia Guarnieri, doutora em engenharia de produção pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pós-doutorado em economia circular na Università di Bologna, Itália, afirma que o Brasil tem muito a fazer quando o assunto é transição para uma economia circular. Segundo a especialista, é preciso que o país tenha uma legislação específica que incentive o setor produtivo e os consumidores a adotarem o modelo gradualmente. 

Ela diz que, embora o país careça de uma legislação voltada para a economia circular, há duas leis que podem ser consideradas um primeiro passo, como a 12.305/2010, que criou a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), e a 14.260/2021, que estabelece incentivos à indústria da reciclagem, cria o Fundo de Apoio para Ações Voltadas à Reciclagem (Favorecicle) e Fundos de Investimentos para Projetos de Reciclagem (ProRecicle).

Ex-catador, o deputado federal Carlos Gomes (Republicanos-RS) diz que uma das formas pela qual o Congresso Nacional pode contribuir com a economia circular é aprovar projetos que incentivem esse modelo de produção e consumo. Segundo o parlamentar, derrubar o veto parcial da Presidência da República ao PL 6545/2019 que estabelece incentivos à reciclagem, vai nessa direção. 

“É um gesto que o Congresso pode dar no sentido de fortalecimento da nossa economia circular e dando vida útil a essas matérias primas que são descartadas oriundas do nosso próprio consumo. Ao invés dessa matéria ir para o lixo ou aterro, gerar doença, problema ambiental, passivo ambiental, esses materiais recicláveis têm que voltar para o processo produtivo industrial gerando emprego, renda, aumentando ainda mais a nossa arrecadação e ‘desimpactando’ o nosso meio ambiente”, avalia. 

Por enquanto, as iniciativas partem mais das empresas e dos consumidores individualmente. Em 2019, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizou uma pesquisa que constatou que 76,5% das empresas do setor adotavam alguma prática de economia circular. Entre as principais práticas citadas pelos empresários, estavam a otimização de processos (56,5%), o uso de insumos circulares (37,1%) e a recuperação de recursos (24,1%).

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Economia
01/05/2022 18:30h

Para Patrícia Guarnieri, doutora em engenharia de produção e especialista em economia circular, o formato atual de consumo e produção é insustentável. Ela diz que o país ainda carece de uma legislação em torno do tema

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O decreto do Governo Federal que cria o Certificado de Crédito de Reciclagem, o Recicla +, sinaliza que o Brasil está no caminho certo quando se fala em incentivar a chamada economia circular. No entanto, o país tem que acelerar a transição para esse novo modelo de produção e consumo se não quiser ficar para trás em relação aos países mais desenvolvidos. 

A avaliação é de Patrícia Guarnieri, doutora em engenharia de produção pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pós-doutorado em economia circular na Università di Bologna, Itália. Ela é entrevistada para responder: afinal, o que é economia circular e por que é importante o Brasil incentivá-la?

Confira a entrevista: 

Brasil61: O que é economia circular? 

Drª Patrícia Guarnieri: “A economia circular é um novo modelo de produção e consumo focado mais em sustentabilidade, que vem em contraposição à economia linear, que era baseado na extração de recursos naturais, manufatura,  transformação desses recursos em produtos e depois o uso pelo consumidor e descarte em aterros sanitários, enfim. Então, é uma visão ali do berço ao túmulo, onde o berço é o meio ambiente e o túmulo também é o meio ambiente.  Só que a gente tem vários problemas com esse modelo, que é insustentável. Primeiro, porque a gente não tem espaço para descartar tantos resíduos, que estão aumentando, e isso faz com que os locais para descarte de resíduos se tornem exauridos, além, é claro, de você jogar no lixo um recurso que poderia ser reaproveitado, revalorizado em outros produtos.”

Brasil61: A alternativa, então, é mudar a lógica por trás do processo de produção?

Drª Patrícia Guarnieri: “A economia circular tem esses conceitos de extração, manufatura, transformação [do recurso em produto], consumo e, depois, aquele resíduo que seria descartado pelo consumidor, colocado em um aterro sanitário ou incinerado, retorna como um novo produto. Então, ele serve como matéria-prima reciclada e, muitas vezes, não-reciclada, utilizada em novos produtos, em novos ciclos produtivos ou até no mesmo ciclo produtivo.”

Brasil61: Ou seja, Drª Patrícia, para funcionar, a economia circular precisa ser planejada desde o design do produto, tanto para desmontar, quanto para reciclar o item? 

Drª Patrícia Guarnieri: “Você substitui matérias-primas que podem ser danosas ao meio ambiente, que depois não têm um índice muito legal de reciclagem, por aquelas matérias-primas que têm um índice maior de reciclagem, que podem se transformar em novos produtos. Também pensa num aumento do ciclo de vida do produto, para que ele não tenha uma obsolescência tão acentuada.”

Brasil61: Qual a relação entre a economia circular e a reciclagem?

Drª Patrícia Guarnieri: “Então, quando a gente pensa em economia circular muitas pessoas já se remetem ao conceito de reciclagem, mas a reciclagem em si ela é um das possibilidades, lógico, mas não é a possibilidade mais valorizada, digamos assim, porque quando você recicla, você tem que passar por um processo industrial de novo. Então, é lógico que é uma possibilidade, mas assim, você tem várias outras. Então, o primeiro, na prioridade ali, na hierarquia, da sustentabilidade, é sempre a redução, depois a reutilização e aí você tem a questão da reciclagem, recondicionamento, manufatura, compostagem e até mesmo a incineração para geração de energia. 

Brasil61: E qual o papel da inovação para a economia circular?

Drª Patrícia Guarnieri: “A inovação pode ser disruptiva e mais radical, no sentido de você elaborar um produto totalmente novo. Você tem, por exemplo, resíduos que tem o valor bem inferior e que muitas vezes voltam com produtos com bastante valor. Quando você, por exemplo, pega câmaras de pneus de bicicleta e faz bolsas, cintos, artigos para indústria de acessórios, e que têm um valor super bacana. Acaba se criando novos nichos de mercado, novos produtos, novas indústrias para lidar com esse processo. E tem inovações que talvez não sejam tão radicais, que são mais incrementais: quando você inova no design do produto para que ele seja mais sustentável; para que ele tenha um ciclo de vida maior; para que ele troque algum material e que esse material seja reciclado no final do processo; ou pra que, simplesmente, se reduza o uso de recursos durante a fabricação daquele produto”. 

Brasil61: Como está o Brasil na transição para esse tipo de economia, em relação a outros países?

Drª Patrícia Guarnieri: “O Brasil ainda tem muito a caminhar pra dizer que está trabalhando para essa transição para a economia circular. Inclusive, no mês de fevereiro agora, foi lançada uma coalizão dos países da América Latina para viabilizar a transição para a economia circular. Infelizmente, não tem representantes pro Brasil. Então, assim, isso faz com que a gente fique um pouco pra trás de todo o movimento que está acontecendo globalmente.”

Brasil61:  E o que pode ser feito para incentivar essa proposta?

Drª Patrícia Guarnieri: “A ideia principal, digamos assim, da economia circular, é mudar o design do produto. É uma ideia um pouco mais disruptiva. Pra gente conseguir realmente caminhar rumo a essa transição, o Brasil precisa de alguma legislação que incentive as empresas, inclusive os consumidores, enfim, todos os envolvidos. Só citar duas legislações que não necessariamente estão ligadas diretamente à economia circular mas podem influenciar, primeiro, a Lei 12305/2010, que é a lei da política nacional de resíduos sólidos. Então essa lei, apesar dela não ser sobre economia circular, ela é uma lei que contribui para essa transição, porque ela tem princípios da sustentabilidade envolvidos nessa hierarquia que eu te falei da questão de redução, reutilização, recondicionamento, manufatura, enfim, reciclagem. Então, a política nacional ela tá estabelecendo algum ambiente favorável, digamos assim, tanto para indústria, como também para outros segmentos de empresas e organizações pra caminhar rumo à economia circular. Outra legislação que foi sancionada em dezembro de 2021, mais recente, estabeleceu o incentivo da indústria da reciclagem também, criou o fundo de apoio pra ações voltadas para a reciclagem, que é o Favorecicle e também fundos de investimento para projetos de reciclagem, que é o Prorecicle. Isso também ajuda, incentiva as empresas e os governos para que ocorra uma motivação extra reciclagem. ” 

Brasil61: E a indústria? Qual o papel dela para que a produção e o consumo sejam mais sustentáveis?

Drª Patrícia Guarnieri: “A indústria tem um papel essencial no sentido de promover o retorno do resíduo para que ele possa ser reinserido no processo produtivo dela própria como, também, em outros processos produtivos. É na indústria que surgem as principais iniciativas de inovação. Então a indústria vai ter que olhar pra dentro e analisar o seu produto e verificar formas de inovar para que possa fazê-lo de uma forma mais adequada, para que gere menos resíduos lá na ponta, menos recursos energéticos.”

Brasil61: Acredita que as empresas que já adotam a economia circular como parte de seu modelo de negócios vão sair na frente na preferência dos consumidores mais exigentes a médio e longo prazo? 

Drª Patrícia Guarnieri:  Sem dúvida, Felipe. Inclusive a gente já vê várias iniciativas isoladas acontecendo no Brasil. Quando eu falo que o Brasil tem muito a caminhar, eu digo mais no nível institucional. Tem várias indústrias já fazendo o dever de casa e sendo proativas no sentido de não esperar uma política pública ou uma legislação para realmente implementar economia circular. Eu acredito que essas que forem mais proativas e não forem simplesmente reativas no sentido de esperar que isso seja exigido delas, sem dúvidas vão ganhar em imagem corporativa, porque a gente tem que pensar que nós temos hoje um nicho de mercado de consumidores sustentáveis. Eu eu tenho feito muitas pesquisas e a gente vê que existe esse perfil de consumidor que se importa realmente com empresas que têm essa postura mais sustentável e também adotam a economia circular. Se a empresa já adota isso de uma forma proativa antes das exigências, que venham tanto de fornecedores como também do governo e organizações de controle, sem dúvida ela vai ficar mais preparada, vai sair na frente, ganha competitividade, ganha em imagem corporativa, tanto em termos ambientais, como também de diferenciação. Então, sem dúvida as empresas ganham muito em competitividade ao adotar a economia circular previamente sendo pioneiras. 

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