Foto: Ciete Silvério/PMSP
Foto: Ciete Silvério/PMSP

147 das 195 cidades brasileiras bilionárias registraram aumento da população

Para economista da FGV, trabalho remoto pós-pandemia mudou o fluxo populacional e pressiona orçamentos e políticas locais

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Um levantamento realizado pela reportagem do portal Brasil 61, cruzando dados do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi) e do Instituto Brasileiro de Geografia Estatísticas (IBGE), mostra que, dos 195 municípios do país com orçamentos bilionários, 147 tiveram aumento de habitantes.

Os dados comparam o total obtido na prévia do Censo 2022 e na Expectativa da População, publicada na semana passada. No total, a população somada dessas quase 200 cidades saiu de cerca de 99,5 milhões para 101,9 milhões de habitantes, um crescimento agregado de aproximadamente 2,4%. 

Da amostra, São Paulo é o estado com mais representantes, com 57 cidades, seguido por Rio de Janeiro (21), Minas Gerais (18), Santa Catarina (12) e Paraná (11). Juntos, esses cinco estados concentram quase 62% de todos os municípios bilionários do país.

Apesar do crescimento populacional do grupo, a análise apresenta um Brasil com dinâmicas populacionais bem distintas: 49 municípios perderam população no período, enquanto outros 24 cresceram acima de 10%. Cidades do Norte e do interior tiveram crescimento em ritmo acelerado, ao passo que capitais tradicionais, a começar por São Paulo, a maior cidade do país, registram queda no número de moradores.

+ Habitantes

Boa Vista (RR) lidera o ranking de crescimento entre as cidades bilionárias, com alta de 22,7% na população — de 408 mil para cerca de 501 mil habitantes. Logo atrás vem Canaã dos Carajás (PA), polo minerador que cresceu 22,4%, saltando de 75,4 mil para mais de 92 mil moradores.

Completam o top 10, municípios como São João de Meriti (RJ), Senador Canedo (GO), Belford Roxo (RJ), Porto Seguro (BA), Sinop (MT), Chapecó (SC), Parauapebas (PA) e Juazeiro do Norte (CE) — todos com crescimento acima de 14%.

Para a economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), parte dessas mudanças populacionais está diretamente ligada a eventos relevantes recentes e modificações nas relações de trabalho. "Cidades do interior e do litoral acabaram recebendo mais habitantes justamente por causa da pandemia e da possibilidade do trabalho remoto", explica a professora.

Em níveis absolutos, nenhuma cidade recebeu mais pessoas do que Manaus (AM). A capital amazonense ganhou 272 mil habitantes, mais que o dobro do Rio de Janeiro (RJ), com 105 mil, seguido por Goiânia (GO), terceira na estatística com 97 mil habitantes.

- Habitantes

Apesar de concentrar o maior orçamento entre todos os municípios do país — mais de R$ 109 bilhões —, São Paulo aparece entre as cidades que perderam população, com queda de 2,4%. A capital paulista registrou a maior queda absoluta, com menos 288 mil moradores, mas ainda assim segue como a mais populosa do país, com 11,9 milhões de habitantes na projeção de 2026.

O fenômeno não é isolado: entre as 26 capitais presentes na base — Brasília (DF) não é considerada no levantamento —, seis registraram retração populacional: além de São Paulo, Curitiba (-2,1%), Salvador (-2,0%), Porto Alegre (-1,1%), Fortaleza (-0,5%) e Palmas (-0,4%). Já Boa Vista, Manaus (+13,3%) e Porto Velho (+12,7%) puxam o outro extremo, com forte expansão populacional.

As dez maiores retrações observadas estão concentradas majoritariamente em cidades litorâneas ou metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Cubatão (SP) teve a maior queda proporcional do país, de 10,9%, seguida por Itaguaí (RJ), com -6,6%, Embu das Artes (SP), com -6,2%, Guarujá (SP) e Maricá (RJ). Também aparecem na lista das maiores quedas proporcionais cidades como Maringá (PR), Caxias do Sul (RS) e Santa Maria (RS).

Impactos

São os números do IBGE que servem de parâmetro para o Tribunal de Contas da União (TCU) calcular as quotas do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM), além de serem usados como referência para indicadores sociais, econômicos e demográficos.  

Beni chama a atenção para o possível descompasso que a mudança no perfil populacional pode gerar a partir da nova demanda por serviços públicos. "Se a entrada populacional foi, em grande parte, de crianças, toda a estrutura de saúde e educação precisa ser direcionada para essa área — mais pediatras, mais escolas de educação básica e fundamental. Mas, se a cidade recebe mais população da terceira idade, é o contrário: é preciso mais geriatras, mais tratamentos de fisioterapia, mais aparelhos e infraestrutura adequada", diz.

Segundo ela, quando essa readequação não é feita corretamente, o orçamento pode ser mal direcionado e, por isso, esse acompanhamento deve ser uma preocupação constante das prefeituras, já que boa parte da receita municipal depende diretamente do tamanho da população local.

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) orienta os municípios que divergem da estimativa divulgada pelo IBGE a contestar os dados até a próxima semana. O pedido administrativo deve apresentar fundamentação técnica e dados oficiais consolidados que demonstrem inconsistência na projeção populacional.

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LOC.: Um levantamento realizado pela reportagem do portal Brasil 61, cruzando dados do Tesouro Nacional e do IBGE, mostra que, dos 195 municípios do país com orçamentos bilionários, 147 tiveram aumento de habitantes.

No total, a população somada dessas quase 200 cidades saiu de cerca de 99,5 milhões para cerca de 102 milhões de habitantes, um crescimento agregado de aproximadamente 2,4%. 

Da amostra, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná concentram quase 62% da população.

Mas apesar do crescimento populacional do grupo, a análise apresenta um Brasil com dinâmicas populacionais bem distintas: cidades do Norte e do interior tiveram crescimento em ritmo acelerado, ao passo que capitais tradicionais, a começar pela própria São Paulo, a maior cidade do país, registram queda no número de moradores.

Em níveis absolutos, nenhuma cidade recebeu mais pessoas do que Manaus, que ganhou 272 mil habitantes, mais que o dobro do Rio de Janeiro, com 105 mil. Boa Vista (RR) lidera o ranking de crescimento proporcional, com alta de 22,7% na população, seguida por Canaã dos Carajás (PA), que cresceu 22,4%.

Para a economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas, parte dessas mudanças populacionais está diretamente ligada a eventos relevantes recentes e modificações nas relações de trabalho.

TEC./SONORA: Carla Beni, professora de economia da FGV
“Nós temos uma grande mudança importante pós pandemia, que foi a possibilidade do trabalho remoto. Então, isso daí propiciou um movimento entre as cidades muito significativo. Então, algumas cidades ganharam muitos habitantes e outras perderam. Cidades do interior, cidades do litoral acabaram recebendo mais.”


LOC.: Por outro lado, mesmo dispondo do maior orçamento do país, de mais de 109 milhões de reais, São Paulo registrou a maior queda absoluta, com menos 288 mil moradores, queda de 2,4%, mas ainda assim segue como a mais populosa do país.

No interior paulista, Cubatão teve a maior queda proporcional do país, de 10,9%.

Beni chama a atenção para o possível descompasso que a mudança no perfil populacional pode gerar a partir da nova demanda por serviços públicos.

TEC./SONORA: Carla Beni, professora de economia da FGV
“Se a entrada populacional foi, uma parte grande, por exemplo, de crianças, então toda a estrutura de saúde e educação pode ser direcionada para essa área. Então, você vai precisar de mais pediatra, mais escolas de educação básica ou fundamental. Mas, se você tiver mais população da terceira idade, é o contrário: você vai precisar de mais geriatra, mais tratamentos de fisioterapia, por exemplo, de aparelhos e infraestrutura.”


LOC.: Os números do IBGE servem de parâmetro para o Tribunal de Contas da União calcular as quotas do Fundo de Participação dos Estados e dos Municípios, além de serem usados como referência para indicadores sociais, econômicos e demográficos.  

Reportagem, Álvaro Couto.