Saúde - Covid-19·05 de abril de 2021

Colapso de sistema de saúde alcançando municípios era alertado em 2020

Notas técnicas da Fiocruz, por exemplo, já deixavam claro que medidas adotadas apenas parcialmente, poderiam causar a pressão sob o sistema de saúde vista hoje

Por Alan Rios
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O primeiro trimestre de 2021 marca a pior fase da pandemia no Brasil, com crescimentos recordes de média de casos e óbitos em decorrência da Covid-19. O cenário do colapso da saúde é a realidade atual de grande parte dos municípios do país. Porém, desde o fim de 2020 havia alertas técnicos sobre a sincronização da epidemia em diversas regiões, afetando mais do que apenas as grandes metrópoles, com maior circulação de pessoas. 

Pesquisas e avaliações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por exemplo, já deixavam claro que medidas adotadas apenas parcialmente, prefeituras abrindo comércios e ausência de medidas coordenadas poderiam causar a pressão sob o sistema de saúde vista hoje. Em nota técnica de 7 de dezembro de 2020, a Fiocruz apontava “o fim do ciclo de interiorização, a sincronização da epidemia e as dificuldades de atendimento nos hospitais”. 

O texto pontuava que o Brasil vivia a “sincronização das curvas epidêmicas”, ou seja, o espalhamento do vírus em todo o território nacional, devido à maior mobilidade da população e à circulação do vírus. Naquele mês, apenas dois estados estavam com níveis de ocupação de leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) considerados críticos, acima de 80%. No último boletim extraordinário da fundação, divulgado em 30 de março deste ano, somente dois estados não estão com níveis críticos. 

“A partir de dezembro, começamos a fazer esses alertas de modo mais crítico e intenso. Fomos acompanhando, sempre reforçando a importância dessas medidas. Mas, a partir de março, quando assistimos pela primeira vez a maior parte dos estados e capitais com taxas de ocupação acima de 80%, muitos deles acima de 90%, identificamos uma crise no sistema de saúde, para depois chamar de colapso”, explica Carlos Machado, pesquisador em Saúde Pública e coordenador do Observatório Covid-19 Fiocruz. 

A nota técnica de dezembro explicava que a disseminação da Covid-19 no Brasil, seguiu um processo de interiorização, com a doença se deslocando principalmente das grandes cidades, por onde o novo coronavírus entrou no país, e avançando para cidades menores, no interior. 

“A chegada do vírus, somada à adoção ou não das medidas de combate pelos governos e pela população, determinou os epicentros pandêmicos. Nos próximos meses, a busca por assistência especializada pode aumentar simultaneamente, nas regiões metropolitanas e no interior, provocando novo colapso do sistema de saúde”, alertava a nota de 2020.

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Carlos Machado pontua que várias ações, e ainda ausência delas, levaram ao cenário já esperado. “De lá para cá, o que assistimos foram medidas parcialmente adotadas ou medidas adotadas gerando confusão. Em Manaus, no meio da crise, quando são adotadas medidas rigorosas, houve manifestação contra o fechamento das atividades. Não é preciso dizer o que aconteceu depois. A prefeitura cedeu, em parte, a isso. Mas não há economia sem enfrentar a pandemia”, levanta.

Outra dificuldade enfrentada para conter a disseminação do vírus, segundo ele, foi a publicação de diferentes decretos em um curto período de tempo, como aconteceu na capital do país. “O DF publicou em seis dias cinco decretos. Isso cria uma confusão tremenda. Qual decreto seguir? Vai mudando de uma hora para outra. Isso é muito sério”, questiona. 

Por fim, o pesquisador cita a falta de ações centralizadas, que acabaram fazendo com que diferentes municípios e estados, mesmo aqueles vizinhos, tenham estratégias distintas para a contenção do vírus. “Se São Paulo faz fronteira com Rio de Janeiro, Minas e Paraná, e esses outros estados, nos seus limites com os municípios, não adotam medidas rigorosas, isso sobrecarrega São Paulo, e vice-versa. A ausência de medidas coordenadas, claras, integradas, contínuas e baseadas no conhecimento que já existe é um dos nossos principais limites para o enfrentamento à pandemia”, afirma.

Na visão do presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Willames Freire, faltou conscientização da população para evitar o cenário de aumento do número de casos e óbitos, com altas taxas de ocupação de UTIs e longas filas de espera. Ele também aponta a falta de imunizantes em larga escala como fundamental para a crise.

“Estamos lidando com um inimigo que nós estamos aprendendo a conviver a cada dia. Primeiro, tivemos a alta transmissibilidade dessa segunda onda do vírus. Nós nos preparamos, mas não estávamos preparados o suficiente para enfrentar. Depois, o ritmo lento de vacinação da população. Acredito que se tivéssemos alcançado, conforme pleiteamos desde junho do ano passado, o ritmo de vacinação que propomos, neste momento não estaríamos em colapso, como estamos”, opina.

O último boletim da Fiocruz recomenda medidas urgentes de contenção para evitar o agravamento do colapso do sistema de saúde. A nota também pede ampliação do número de leitos, acompanhada da contratação e capacitação de equipes, além da ampliação das ações de saúde da Atenção Primária em Saúde (APS) com abordagem territorial e comunitária.

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SOBRE

Alan Rios

Alan Rios é jornalista e escritor formado pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Atuou na assessoria de comunicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e na redação no Correio Braziliense, onde foi repórter na Revista do Correio, na editoria de cidades e de política local, do veículo. É autor do livro "Os porquês da Educação Domiciliar no Brasil" e coautor da obra "Educomunicação - Sua Imagem Está na Tela".

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