Samuel Barrêto/Erik Lopes/TNC Brasil
Samuel Barrêto/Erik Lopes/TNC Brasil

Segurança hídrica: Brasil precisa melhorar saneamento, recuperar bacias e fazer uso de fontes alternativas

Em entrevista ao Brasil61.com, o gerente de águas da TNC Brasil, Samuel Barrêto, explica que o país precisa realizar uma série de ações para evitar novas crises hídricas


Após a crise hídrica que assolou o país nos últimos anos, o Brasil tenta reunir esforços para garantir água para as pessoas, o meio ambiente e as diversas atividades econômicas. Segundo especialistas, o aumento populacional, a ocupação desordenada de área urbana e o crescimento econômico são fatores que ameaçam a segurança hídrica, já que a demanda por água cresce a cada ano. Além disso, os impactos das mudanças climáticas no ciclo da água e a ausência de planejamento e gerenciamento coordenados, investimento em infraestrutura hídrica e saneamento também causam insegurança hídrica.

Em entrevista exclusiva ao Brasil61.com, o gerente de águas da TNC Brasil, Samuel Barrêto, explica que o Brasil precisa estar atento a uma série de agendas para garantir a segurança hídrica, como a recuperação das bacias hidrográficas, melhor infraestrutura de saneamento, despoluição de rios e o uso de fontes alternativas, como o reúso de água.

Brasil61: Barrêto, o crescimento populacional e, por consequência, a maior demanda por água é um dos fatores que ameaçam a segurança hídrica? Quais seriam os outros problemas?

Samuel Barrêto: No século XX, a população mundial cresceu cerca de três vezes, enquanto o consumo de água, seis vezes. E a tendência é de aumento desse consumo até 2050. Em torno de 50% deve ser a média de consumo mundial. Países como o Brasil devem ter aumento em torno de 80%. O ponto é que em muitas localidades essa água não vai estar disponível, porque além de se usar além da capacidade de reposição, nós estamos também degradando esses ambientes. Desmatando, poluindo, e aí começa a haver as questões de conflito por escassez. E ao mesmo tempo, a interface desses efeitos de mudança de uso do solo, de poluição da água com os efeitos climáticos, desses extremos climáticos, que pode ser o excesso ou a falta.

Brasil61: Muitos especialistas falam em recuperação das bacias hidrográficas. O quanto essa ação é importante para contornar futuras crises hídricas?

Samuel Barrêto: As soluções baseadas em natureza, como a restauração florestal e medidas de adaptação às mudanças climáticas baseadas em ecossistemas respondem por uma parte significativa do problema, quase 40%. As bacias hidrográficas que estão degradadas precisam ser recuperadas e a recuperação como essa de restauração florestal em áreas prioritárias, como as áreas de nascentes, as áreas de mananciais, as matas ciliares, as áreas de recarga, que é aquela área que vai fazer com que a água infiltre para a água subterrânea, reabastecendo o lençol para que essa água possa voltar para o rio, principalmente no período da seca. São medidas que vão contribuir para ampliar essa resiliência climática.

Brasil61: Parte desse problema pode ser resolvido com uma melhor governança das águas por parte dos estados e municípios? Que outras instituições podem ajudar nesse quesito?

Samuel Barrêto: A governança das águas é um aspecto muito relevante. Em todas as situações onde nós observamos um bom gerenciamento da água, tem uma liderança. E por trás dessa liderança tem um mecanismo de governança das bacias hidrográficas com os diversos atores envolvidos, porque ninguém sozinho vai dar conta desses desafios. Com a participação de governo, da sociedade civil e da iniciativa privada em torno de um objetivo comum é que se chega à segurança hídrica.

Brasil61: Uma das soluções apontadas para se buscar a segurança hídrica é o uso de fontes alternativas. Essas fontes também podem ajudar o Brasil nessa missão?

Samuel Barrêto: Todas as boas práticas são necessárias na luta pela segurança hídrica do país e o reúso, por exemplo, é uma delas. Em muitos lugares ela já vem sendo utilizada e não podemos abrir mão de nenhuma boa prática. Porque você pode ter um uso para fins menos nobres que não o abastecimento para alguma atividade, como por exemplo algumas atividades industriais e, dessa maneira, você acaba tirando a pressão, por exemplo, para o abastecimento doméstico. Você acaba recuperando essa água, reciclando esse elemento para outras finalidades, para a própria agricultura.

Brasil61: Por fim, mas não menos importante, o quanto um melhor saneamento básico pode ajudar a segurança hídrica do Brasil?

Samuel Barrêto: Essa é uma área que precisa de uma mudança muito estruturante no Brasil, afinal de contas 35 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e mais da metade da população não tem acesso a coleta e tratamento de esgoto. Quando a gente coloca isso em escala, apenas em abastecimento de água, estamos falando algo equivalente a um país como a Argentina. É preciso avançar com a implementação desse marco legal, porque vai ser uma transformação muito importante do ponto de vista da recuperação dos rios, porque quando a gente fala de poluição de água, um relatório da ANA mostra que nós temos algo em torno de 116 mil quilômetros de rios com algum comprometimento. Isso é quase um terço do caminho entre a Terra e a Lua. É o que temos de rios com algum tipo de poluição no Brasil. Investir no saneamento e no acesso à água é fundamental.
 

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LOC.: Após a crise hídrica que assolou o país nos últimos anos, o Brasil tenta reunir esforços para garantir água para as pessoas, o meio ambiente e as diversas atividades econômicas. Segundo especialistas, o aumento populacional, a ocupação desordenada de área urbana e o crescimento econômico são fatores que ameaçam a segurança hídrica, já que a demanda por água cresce a cada ano.

Para falar do assunto, vamos conversar com o gerente de águas da TNC Brasil, Samuel Barrêto. Barrêto, o crescimento populacional e, por consequência, a maior demanda por água é um dos fatores que ameaçam a segurança hídrica? Quais seriam os outros problemas?
 

TEC/SONORA: Samuel Barrêto, gerente de águas da TNC Brasil

Se nós olharmos no século XX, a população mundial cresceu cerca de três vezes, enquanto o consumo de água, seis vezes. E a tendência é de aumento desse consumo até 2050. Em torno de 50% deve ser a média de consumo mundial. Países como o Brasil devem ter aumento em torno de 80%. O ponto é que em muitas localidades essa água não vai estar disponível, porque além de se usar além da capacidade de reposição, nós estamos também degradando esses ambientes. Desmatando, poluindo, e aí começa a haver as questões de conflito por escassez. E ao mesmo tempo, a interface desses efeitos de mudança de uso do solo, de poluição da água com os efeitos climáticos, desses extremos climáticos, que pode ser o excesso ou a falta.
 

LOC.: Muitos especialistas falam em recuperação das bacias hidrográficas. O quanto essa ação é importante para contornar futuras crises hídricas?

TEC/SONORA: Samuel Barrêto, gerente de águas da TNC Brasil

As soluções baseadas em natureza, como a restauração florestal e medidas de adaptação às mudanças climáticas baseadas em ecossistemas respondem por uma parte significativa do problema, quase 40%. As bacias hidrográficas que estão degradadas precisam ser recuperadas e a recuperação como essa de restauração florestal em áreas prioritárias, como as áreas de nascentes, as áreas de mananciais, as matas ciliares, as áreas de recarga, que é aquela área que vai fazer com que a água infiltre para a água subterrânea, reabastecendo o lençol para que essa água possa voltar para o rio, principalmente no período da seca. São medidas que vão contribuir para ampliar essa resiliência climática.
 

LOC.: Parte desse problema pode ser resolvido com uma melhor governança das águas por parte dos estados e municípios? Que outras instituições podem ajudar nesse quesito?

TEC/SONORA: Samuel Barrêto, gerente de águas da TNC Brasil

A governança das águas é um aspecto muito relevante. Em todas as situações onde nós observamos um bom gerenciamento da água, tem uma liderança. E por trás dessa liderança tem um mecanismo de governança das bacias hidrográficas com os diversos atores envolvidos, porque ninguém sozinho vai dar conta do tamanho desses desafios. Com a participação de governo, da sociedade civil e da iniciativa privada em torno de um objetivo comum, que é a segurança hídrica.
 

LOC: Uma das soluções apontadas para se buscar a segurança hídrica é o uso de fontes alternativas. Essas fontes também podem ajudar o Brasil nessa missão?

TEC/SONORA: Samuel Barrêto, gerente de águas da TNC Brasil

Eu considero que nenhuma boa prática deve ser abandonada, inclusive a do reúso. Em muitos lugares ela já vem sendo utilizada e não podemos abrir mão de nenhuma boa prática. Porque você pode ter um uso para fins menos nobres que não o abastecimento para alguma atividade, como por exemplo algumas atividades industriais e, dessa maneira, você acaba tirando a pressão, por exemplo, para o abastecimento doméstico. Você acaba recuperando essa água, reciclando esse elemento para outras finalidades, para a própria agricultura. Não se pode abrir mão de nenhuma possibilidade que siga esse caminho da segurança hídrica e do uso sustentável da água.
 

LOC: Por fim, mas não menos importante, o quanto um melhor saneamento básico pode ajudar a segurança hídrica do Brasil?

TEC/SONORA: Samuel Barrêto, gerente de águas da TNC Brasil

Essa é uma área que precisa de uma mudança muito estruturante no Brasil, afinal de contas 35 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e mais da metade da população não tem acesso a coleta e tratamento de esgoto. Quando a gente coloca isso em escala, apenas em abastecimento de água, estamos falando algo equivalente a um país como a Argentina. É preciso avançar com a implementação desse marco legal, porque vai ser uma transformação muito importante do ponto de vista da recuperação dos rios, porque quando a gente fala de poluição de água, um relatório da ANA mostra que nós temos algo em torno de 116 mil quilômetros de rios com algum comprometimento. Isso é quase um terço do caminho entre a Terra e a Lua. É o que temos de rios com algum tipo de poluição no Brasil. Investir no saneamento e no acesso à água é fundamental.
 

LOC: Conversamos com o gerente de águas da TNC Brasil, organização não governamental que promove a preservação da água no país. Muito obrigado pelos esclarecimentos, Samuel Barrêto, e até uma nova oportunidade.

Reportagem, Luciano Marques