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TEC./SONORA: Wesley da Cunha, pecuarista
“Tá demais. Não tá sendo fácil como combater.”
LOC.: Esse é o desabafo do Wesley da Cunha. Ele é produtor de carne bovina e de laticínios de cabra no município de Uberaba, no oeste mineiro, e tem sofrido grandes prejuízos com a proliferação de javalis, que começou por lá há mais de 10 anos. Wesley planta milho em parte do terreno para consumo dos rebanhos, mas não tem compensado, pois a espécie invasora destrói até 30% da plantação.
TEC./SONORA: Wesley da Cunha, pecuarista
“Todo dia você tem que estar olhando. Todo dia você tem que estar pelejando, você não pode estar descuidando, porque o prejuízo é muito muito grande. Mesmo você colocando cachorro, mesmo você liberando para caça, mesmo a gente, que é CAC e faz o controle ambiental também. Mas não é fácil, está aumentando cada dia que passa.”
LOC.: A 540 quilômetros ao sul, em Brazópolis, ainda em Minas Gerais e perto da divisa com o Rio de Janeiro, o Dimas Sliveira enfrenta um problema muito parecido. Javalis apareceram há cerca de 10 anos e têm atacado a produção de milho utilizada para alimentar o gado da propriedade.
Além do rombo financeiro, os produtores também estão preocupados com todo o ecossistema. Em busca de minhocas, os javalis reviram as nascentes de rios e córregos, que muitas vezes acabam mortas por essa ação, muito devido ao peso desses animais de grande porte. E ainda há um terceiro problema: a propagação de doenças.
TEC./SONORA: Dimas Silveira, pecuarista
“Ele poderia facilmente reintroduzir no Brasil a febre aftosa. Isso de imediato o país perde o status de livre de febre aftosa e trava a exportação de carne, o consumo diminui. Em consequência disso, é um prejuízo tremendo para toda a cadeia, desde o produtor até o exportador.”
LOC.: Quem já teve que enfrentar o problema garante que não há limite para o apetite desses animais. Javalis são animais onívoros, ou seja, se alimentam de tudo, desde vegetais à carcaças de outras espécies. Para piorar, por não serem naturais do território brasileiro, não possuem predador natural.
A produtividade na lavoura de mandioca do Alex Scarante, localizada na cidade paranaense de Umuarama, despencou desde que esses animais apareceram por lá. Os javalis atacam as mandioqueiras em busca da raiz e também acabam com a área de preservação permanente e com reserva de água da propriedade quando destroem as nascentes.
TEC./SONORA: Alex Scarante, produtor de mandioca
“Ele faz esse pisoteio e acaba com esse mato. Essa reserva que a gente precisa muito, essa mina de água que a gente precisa.”
LOC.: Wesley, Dimas e Alex são caçadores de javalis registrados. O trio estimula o abate como a forma mais eficaz de combater a espécie invasora, antes que ela traga ainda mais problemas para a produção de alimentos no Brasil.
Eles recebem o apoio da Frente Parlamentar de Agropecuária, no Congresso Nacional. O deputado Alceu Moreira, do MDB rio grandense, defende que estados e municípios tenham autonomia para fazer o controle de animais invasores, atualmente de responsabilidade do Ibama.
TEC./SONORA: Alceu Moreira, deputado federal (MDB-RS)
“Nós obrigatoriamente temos que atribuir aos estados e alguns municípios habilitados o direito de fazer o controle deste animal, né? Não apenas o abate com o controle, mas também o aproveitamento com regulação sanitária.”
LOC.: O projeto que trata do tema é debatido na Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados. No Judiciário, o Supremo Tribunal Federal analisa se a lei estadual de São Paulo que autoriza o controle populacional e manejo de espécies invasoras, aprovada em 2020, é ou não constitucional. A Suprema Corte reconheceu repercussão geral da matéria, ou seja, o que for decidido nesse caso, valerá para ações semelhantes para a Justiça brasileira.
Reportagem, Álvaro Couto.