É verdade que quase sempre estamos mais atentos aos nossos filhos, principalmente quando o assunto é saúde. É o caso de uma artesã e moradora do Gama, que preferiu não se identificar. Se não fosse o aparecimento de bolhas na pele da neta, na época ainda com sete anos, não saberia que tanto ela, quanto a netinha, estavam com hanseníase. No caso da menina, a situação foi mais séria. Logo após o início da medicação, a doença avançou rapidamente e deformou a mão da criança. Juntas, elas descobriram a pior parte da doença: o preconceito.
“A minha filha tinha dado ela (neta) para o meu filho e a minha nora batizarem. Aí a menina foi crescendo e, quando apareceram umas feridinhas nos dedinhos da mão, parecendo uma bolhona grande que ia corroendo, sei lá, ela ficou com os dedos da mão em garra e foram encolhendo. Aí ele disse que não ia poder batizar porque a religião não permite, só por conta da doença da menina”, recorda.
A artesã também enfrentou dificuldades. Devido a um dos medicamentos que combate a doença, as reações a deixaram com rosto e tronco inchados, o que fez com que ela escondesse o diagnóstico de vizinhos e passasse três anos sem se olhar no espelho. A partir disso, além da hanseníase, a artesã passou também a ter depressão. De acordo com a médica dermatologista da Vigilância Epidemiológica da Hanseníase do Distrito Federal, Janaína Amorim, atualmente, todas as Unidades Básicas de Saúde devem receber e orientar os pacientes de hanseníase para auxiliar também no combate ao preconceito.
“As próprias Unidades Básicas de Saúde e as equipes de Saúde da Família, quando têm uma pessoa acometida, já vão trabalhar essa questão do preconceito, da socialização. Até porque no caso da hanseníase, quando o paciente inicia o tratamento, ele passa a não transmitir mais a doença e pode continuar às suas atividades habituais, ao convívio em sociedade. Aqui em Brasília, a gente tem o grupo Gamah, que é o Grupo de Apoio às Mulheres atingidas pela Hanseníase, e temos o Mohran, que é o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, que apoiam bastante as ações de informação sobre os sinais e sintomas da doença na comunidade, bem como a reintegração social", diz.

No Distrito Federal, foram registrados 165 casos novos da doença em 2017, conforme os últimos dados fornecidos pela Secretaria de Saúde. No Brasil, no mesmo ano, o número chegou próximo a 27 mil. A hanseníase é transmitida através da troca de fluidos orais e de vias respiratórias, como gotículas de saliva, por exemplo, de uma pessoa doente sem tratamento. O que pouca gente sabe é que para contrair a doença não basta encostar em uma pessoa doente uma única vez. A transmissão só acontece através de um contato prolongado e pode demorar até dez anos para se manifestar. Por isso, o importante mesmo é ficar atento aos sinais e sintomas do seu corpo. Ao surgimento de qualquer mancha em que você perceba perda ou diminuição de sensibilidade ao toque, ao calor ou ao frio, procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima. Quanto mais cedo o diagnóstico, menores as chances de sequelas. A hanseníase tem cura e o tratamento está disponível gratuitamente no SUS. Então, não esqueça: identificou, tratou, curou. Para mais informações, acesse saude.gov.br/hanseníase. Ministério da Saúde, Governo Federal. Pátria Amada Brasil.