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LOC.: O governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começal no dia 1º de janeiro de 2023. Mas a campanha do petista e a transição de mandato já sinalizam rupturas na política de preços dos combustíveis adotada pela Petrobras, hoje com base no valor do produto no mercado internacional.
Além disso, o início do próximo ano trará a volta da cobrança de alguns impostos federais sobre os combustíveis. Isso deve elevar o preço aos consumidores na bomba dos postos, ainda que continue a redução mais significativa, devido à diminuição das alíquotas de ICMS, .
Para tentar entender o possível futuro da Petrobras e, principalmente, dos combustíveis, no país, eu, Felipe Moura, entrevisto o diretor executivo da Associação Brasileira de Revendedores de Combustíveis Independentes e Livres, AbriLivre, Rodrigo Zingales.
Nosso entrevistado é advogado especialista em defesa da concorrência e regulação econômica, mestre em economia e finanças pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV/SP).
LOC.: Rodrigo, a atual política de preços dos combustíveis leva em conta o preço dele no mercado internacional e varia conforme o dólar. Ela é defendida por especialistas, mas também criticada. O que explica essas críticas?
TEC./SONORA: Rodrigo Zingales, presidente da AbriLivre
“A primeira crítica é que esse preço internacional é um preço imposto pela oferta de combustível de petróleo muito definida pela OPEP. Ele é um preço de cartel, porque a OPEP é, na realidade, o cartel dos grandes países produtores e exportadores de petróleo. Este preço internacional não é um preço de mercado competitivo. O segundo ponto de crítica é que hoje, no Brasil, a Petrobras extrai petróleo acima da demanda total que ela precisaria para produzir os derivados de petróleo, no caso a gasolina e o diesel. Esse é um ponto importante. Hoje, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo”.
LOC.: Qual é o custo que a Petrobras tem para produzir combustíveis?
TEC./SONORA: Rodrigo Zingales, presidente da AbriLivre
“O custo de exploração mais o custo de refino de gasolina e diesel, da Petrobras, giraria em torno de trinta a trinta e cinco dólares o barril, quando o preço internacional do petróleo está em cem, cento e dez dólares. Significa que a Petrobras está tendo muito lucro para os seus acionistas, incluindo nesse caso a própria União, como a acionista majoritária. Um governo que pretende mudar essa política para uma política baseada em custos e margens de lucros razoáveis tem respaldo econômico para isso”.
LOC.: E como ficaria a distribuição de lucro aos acionistas que investem dinheiro na companhia?
TEC./SONORA: Rodrigo Zingales, presidente da AbriLivre
“Os acionistas merecem ter a sua margem. E o que seriam margens razoáveis de mercado? Uma forma que poderia ser adotada é verificar quanto uma Shell, Exxon Mobil, outras petroleiras, têm pago para os seus acionistas e colocar essas margens de lucro que estão sendo distribuídas também para a Petrobras e aí, consequentemente, o povo brasileiro vai pagar menos e os acionistas vão ser remunerados adequadamente a preços de mercado”.
LOC.: Rodrigo, vai até o fim do ano a validade de alguns cortes de impostos incidentes sobre a gasolina e o etanol, que foram aprovados com o intuito de diminuir o crescente preço dos combustíveis. Os consumidores podem se preparar para pagar mais caro nas bombas, a partir de janeiro?
TEC./SONORA: Rodrigo Zingales, presidente da AbriLivre
“Essa questão dos impostos é muito relevante para a economia brasileira como um todo. Como ficou demonstrado com a queda da tributação dos combustíveis, houve uma queda na inflação. É importante que o atual governo e, principalmente, o governo futuro mantenha essa redução ou a eliminação desses tributos federais até que a gente consiga ter um equilíbrio na política de preço da Petrobras, na política de preços internacionais e o mercado consiga realmente ter combustíveis voltando a casa de três, quatro reais o litro da gasolina”.
LOC.: O governo eleito também fala em ampliar os investimentos feitos pela Petrobras e diminuir o repasse de dividendos aos investidores que, na opinião de membros importantes do PT, como a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, “só enriquecem os acionistas”. Esse tipo de declaração pode ter um apelo popular, principalmente para a base mais ideológica do partido, mas como isso chega aos ouvidos dos investidores e do mercado?
TEC./SONORA: Rodrigo Zingales, presidente da AbriLivre
“Quando se fala assim: ‘vão ter vestimentos para aumentar a capacidade de refino ou construir novas refinarias’. A pergunta é: esse investimento virá de onde? Pode ser através de emissão de títulos ou de novas ações. Nesse caso, se o governo está dizendo que não quer agradar os acionistas, vai ser mais difícil um novo acionista querer investir nessa companhia que está dizendo que não pretende gerar valor para os acionistas. Esse discurso é complicado e problemático e tem que ser bem tratado pelo governo e por toda a estrutura de governança da Petrobras que efetivamente se confirmar”.
LOC.: Conversei com o diretor executivo da Associação Brasileira de Revendedores de Combustíveis Independentes e Livres, AbriLivre, Rodrigo Zingales. O especialista defende a revisão da atual política de preços da Petrobras, como também a manutenção do corte de impostos sobre a gasolina. Defende ainda a precaução do futuro governo com o discurso em relação aos acionistas.
Reportagem, Felipe Moura.