Por Pedro Marra
A WorldSkills, maior competição de educação profissional do mundo, vai acontecer apenas entre os dias 22 e 27 de agosto deste ano, em Kazan, na Rússia. Mas a disputa começou em 2016 para Nathan Pacífico, de 19 anos. Ainda no ensino médio, ele estava na dúvida sobre fazer o curso técnico de mecânica ou eletrônica pela escola do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) de Belo Horizonte Centro Tecnológico de Eletroeletrônica (CETEL) César Rodrigues. Foi então que ele optou pela segunda opção para adequar à rotina escolar.

Atualmente, ele é formado no curso de eletrônica e passa por um treinamento intensivo para a WorldSkills desde o dia 13 de janeiro, em Brasília (DF). O torneio ocorrerá na KAZAN EXPO, centro de exibições que recebe a competição e local onde a equipe brasileira estará com os 57 competidores do SENAI e seis do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).
"Basicamente tudo que eu vi no curso técnico me ajuda. É um curso muito teórico, só que quando você começa a ver as aplicações disso você vê que é sequencial. Cada conhecimento que eu adquiri hoje me é útil. Eu costumo falar que conhecimento nunca é demais, porque qualquer conhecimento que eu já adquiri, de alguma forma me ajudou numa prova da Olimpíada", conta Nathan, sem esconder a animação com a disputa.
Isso porque a vontade de ser campeão vem lá de trás. Após assistir a uma palestra no primeiro módulo do curso, a vontade de participar da Olimpíada do Conhecimento falou mais alto. Foi quando Nathan começou os treinamentos para a etapa seletiva estadual. Ele havia começado a treinar apenas três semanas antesda disputa, que ocorreu em julho de 2017 e, mesmo assim, passou em primeiro lugar. Nathan ganhou a etapa seletiva nacional em agosto do ano passado na própria escola. Com a vitória, ele garantiu uma vaga na equipe de treinamentos para a WorldSkills 2019. Hoje, o jovem comemora os conhecimentos que já adquiriu.
“Eu estava fazendo faculdade, no segundo período fazendo matéria de geometria analítica e álgebra linear. E sempre rola aquelas conversas, 'ah! eu estou aprendendo a fazer conta com figuras geométricas com terceira e quarta dimensão, eu nunca vou usar isso na vida!'. Comecei a pensar sobre isso. Passou um ano, eu fiz uma prova de software da Olimpíada, que teria outras formas de fazer, era um display gráfico, tinha que desenhar figuras. Mas eu fiz justamente usando os cálculos que a gente aprende na faculdade de geometria analítica. Por isso que eu costumo dizer que nenhum conhecimento é desperdiçado”, analisa ele.
“É um orgulho enorme estar representando o meu país na WorldSkills. Querendo ou não serve de inspiração para outras pessoas. Às vezes até para alunos que têm vontade de ingressar. É uma responsabilidade muito grande que a gente sente, mas é muito gratificante saber que a gente está aqui onde a gente chegou", vibra.

O paulista Arthur Zuliani é o treinador expert de Nathan há quatro meses e enxerga potencial no jovem. “Eu consegui ver que ele teve um desempenho a mais em alguns módulos da prova. A metodologia de treinamento é organizada com um estudo teórico e prático das competências que ele precisa atingir. E, ao final desse estudo, sempre é feita uma atividade avaliativa. Isso acontece no período de uma semana. Então toda semana ele está praticando uma coisa nova e, no final da semana, ele faz essa atividade avaliativa. Ao final de quatro ciclos desses nós fazemos uma simulação da competição. Seria uma soma daquele conteúdo das quatro semanas”, analisa.
O treinador também já esteve na função de competidor, em 2013, na Alemanha, quando foi campeão da ocupação de manufatura integrada. Agora, desde 2016 ele trabalha como expert em eletrônica, cumprindo a função no mundial de 2017, em Dubai, nos Emirados Árabes. Arthur ainda se lembra de uma experiência de reviravolta numa etapa nacional que pretende compartilhar com Nathan.
“Uma coisa que levo para a minha vida foi durante minha etapa nacional como competidor. O meu projeto parou de funcionar, e foi um momento desesperador porque treinei dois anos para a competição. A estratégia foi acalmar e sair daquele ambiente de prova, quando parei nas duas últimas horas que me restavam. Dormi, pensei e coloquei a cabeça no lugar. No outro dia, eu tinha a solução de como resolver o problema do projeto. Em uma hora e meia o projeto estava funcionando. A gente conseguiu o título e pudemos representar o Brasil depois dessa competição. Então o que ficou para mim é que a competição só acaba quando termina mesmo. Não desistir diante das dificuldades. Isso foi o que mais me marcou”, conta ele.
Treinamentos
A fase de treinamento disponibiliza alimentação, hospedagem e transporte local para todos os competidores. Para explicar melhor como é feito o apoio aos competidores, o gestor do projeto Brasil Kazan, José Luis Gonçalves Leitão esclarece como é o período de preparação.
“Temos mais centros de treinamento sem ser em Brasília. Temos um centro de treinamento em Porto Alegre (RS), em Joinville (SC), temos um em Belo Horizonte (MG), um em Belém (PA) e temos os três em Brasília (DF): Taguatinga, Gama e no Setor de Indústrias Gráficas. Esses 57 do SENAI serão distribuídos nesses centros, sendo que a maioria está em Brasília. Um vai para Belém, um para Porto Alegre e quatro profissões em Joinville”, diz.
Conheça a WorldSkills
A WorldSkills é realizada a cada dois anos e reúne os melhores alunos de países das Américas, Europa, Ásia, África, e Pacífico Sul para disputarem medalhas em modalidades, de acordo com as profissões técnicas da indústria e do setor de serviços. Geralmente, o projeto de construção desafiador é inspirado em algum ponto turístico do país/cidade sede da WorldSkills, com três módulos.
Os jovens competidores vão ter de demonstrar habilidades individuais e coletivas para concluírem os desafios de suas ocupações dentro de seis horas. Se ganhar uma vaga na equipe brasileira, durante os quatro dias de competição, Victor e os demais competidores terão, no máximo, 22 horas para entregarem o projeto. Em 18 participações, o Brasil já acumulou 136 medalhas. A melhor participação brasileira na história foi em São Paulo, em 2015. Com 27 medalhas, a equipe ficou em primeiro no ranking por países.