Certo dia eu estava escovando os dentes no trabalho e uma moça entrou no banheiro, olhou pra mim, viu que meus fios de cabelo branco estavam a mostra - sim, aos 29 anos, já tenho cabelos brancos. Ela olhou e comentou: ” - Nossa, você tem cabelo branco... você pinta? ” Eu respondi: - “Tenho faz tempo, desde 17, 18 anos. Já pintei algumas vezes, mas não gostei. Prefiro natural”. Ela continuou olhando, pensou um pouco e disse novamente: “ – Uma hora vai ter que pintar. Você é muito nova! ”.
Não respondi nada, dei um sorriso e continuei escovando os dentes. Mas depois parei para pensar: essa não é a primeira vez que escuto esse comentário vindo tanto de mulheres quanto de homens. Mas por que será que ficamos tanto tempo pensando em como camuflar aquilo que é considerado, defeito ou imperfeição? Desde quando o natural passou a ser estranho, e até mesmo feio? Uma ruguinha, um pneuzinho, a careca, o abdômen flácido, até os próprios cabelos brancos.
Nada contra cuidar bem da aparência – mesmo porque, apesar de não gostar de pintar meu cabelo, não saio por aí completamente desleixada. O problema começa quando a aparência toma conta da maior parte do nosso tempo e nos preocupamos mais em como somos vistos do que em quem realmente somos. Não é incomum ver amigas e amigos meus fazendo comparações entre si (mesmo que de forma velada). Aliás, conheço pessoas que se comparam tanto com as outras que chegam ao ponto de se acharem feias e até mesmo piores que o outro. E quanto mais isso acontece, menos aceitação própria existe e mais minado fica nosso cérebro. Essa atitude prejudica até mesmo a produção de hormônios que nos dão prazer – como a serotonina, por exemplo - que já mencionei outras vezes.
E sabem? Posso falar que o fato de se comparar com alguém é perigoso e acaba nos levando a não aceitar o próprio eu, porque já passei por isso. Lembram que disse que já pintei meu cabelo? Pois bem: foi justamente em uma época que não estava bem com meu eu e achava que para ser considerada ou mesmo bem-vista por outras pessoas, precisava estar dentro dos padrões de beleza. E querem saber? Nada mudou – a não ser a textura do meu fio de cabelo (se soubesse, nunca teria pintado). Só foi quando aprendi a aceitar quem eu sou que entendi que ser bela e capaz de algo não tem nada a ver com a aparência exterior. E mais: aprendi que quando temos atitudes positivas, nos alimentamos bem, somos agradecidos pela vida e amamos ao próximo, a aparência exterior acaba ganhando um “up”, ou seja, fica muito melhor.
Além da experiência pessoal, sei também de pessoas que depois que chegam em casa e tiram todos os apetrechos que as deixam maravilhosas e as fazem de modelo e objetivo de vida por todos os que estão perto, ficam acabadas, sem chão e não têm nem mesmo vontade de levantar no dia seguinte. Fato é que justamente na época em que “sair bem na foto” é algo supervalorizado vemos índices de depressão e suicídio crescendo como nunca antes.
O externo acaba sendo mais importante que o interno. E os apetrechos já são tão normais que acabam fazendo parte do cotidiano e, por vezes, montando cenários cômicos. O YouTuber, Winderson Nunes, mencionou em um dos vídeos que na noite de núpcias viu a noiva praticamente se desfazer na frente dele. Ela tirou cílios postiços, unhas postiças, cabelo postiço e por aí foi até ficar como era naturalmente. Com humor ele faz comentários hilários que acabam refletindo uma triste realidade: adicionamos tantas coisas à nossa aparência que nem mesmo os mais próximos nos conhecem de verdade.
Repito: não existe nada contra usar alguns apetrechos de vez em quando, ou até mesmo no cotidiano. Mas não coloque neles sua confiança própria, sua autoestima e nem o anseio de ser alguém diferente, que não você. Estar bem com quem consigo é o melhor ingrediente pra ser belo.
Por Aline do Valle