Saúde - undefined·18 de julho de 2018

SAÚDE CRÔNICA: Mi nombre es Jack

Por Agência do Rádio
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Desde que eu comecei a escrever reportagens, sempre me vi às voltas com alguma história a ser contada a respeito de indígenas. E a vez em que mais estive rodeado por diferentes aldeias, foi quando realizei um trabalho para a Organização das Nações Unidas na época da primeira edição dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, uma espécie de olimpíada. Essa primeira experiência foi realizada em Palmas, Tocantins, e reuniu quase dois mil atletas entre 24 etnias brasileiras e de outros 23 países.

Nesse período precisei me mudar temporariamente para a cidade, pois seriam muitos dias de trabalho pela frente, antes e depois das competições. Uma imensa arena de jogos foi montada longe do perímetro urbano e próximo às matas – o que faz sentido, uma vez que a maior parte dos atletas ficou alojada em ocas por essa região. Isso fazia com que eu tivesse que chegar bem cedo no local e ficar até à noite, já que não era perto da cidade.

Em meio ao agito do dia a dia, um dos momentos mais interessante era quando podia passear por entre a gigantesca feira montada por indígenas de várias partes do mundo. Quando penso no festival Woodstock, é exatamente a mesma imagem que tenho em mente. Eram incontáveis cheiros, diversas cores vindas de todo tipo de produto artesanal (e alguns nem tanto) que estavam expostos por ali.

Em uma dessas andanças, conheci um peregrino que viajava pela América Latina conhecendo cidades e levando a arte da tatuagem de seu povo para outras pessoas conhecerem. Ele vinha de Iquitos, no Peru, e seu nome era Jack. E um tempo depois de nos apresentarmos ele, que falava de uma forma super engraçada, emendou:

“Cara somos Hermanos, nosso nome é muy parecido! Eu me chamado Ahanari e você Janary, a diferença é que no Peru, nós temos duas identidades: uma civil e a outra indígena”.

Perguntei então porque ele se chamava Jack, e ele respondeu no mesmo tom: “Meu pai era muito maluco, ao mesmo tempo em que muito fã do russo Lenin ele gostava do nome Jack sem nenhum motivo”.

Em uma de nossas conversas questionei o que ele mais tinha gostado no Brasil. Ele não pensou muito para me responder que além das paisagens lindas, o serviço de saúde pública oferecida aos indígenas brasileiros é superior ao de qualquer lugar por onde ele passara até então.

Anos depois ainda acho que o meu camarada Jack Lenin estava certo, pois conheci tantos trabalhadores da saúde voltados ao cuidado com indígenas que não é possível pensar o contrário. Essa é uma população com mais de 700 mil pessoas, distribuídas em mais de 5.300 aldeias, falando 274 línguas distintas e ainda esses trabalhadores chegam até a maior parte para oferecer serviços básicos como saúde bucal, vacinação, acompanhamento pré-natal, entre outros.

Por Janary Damacena

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