Por Aline Dias
O Brasil está entre os países com o menor número de engenheiros. Enquanto a Coreia, a Rússia, a Finlândia e a Áustria contavam com mais de 20 engenheiros para cada 10 mil habitantes, o Brasil registrava, em 2014, apenas 4,8 graduados em engenharia para o mesmo universo de pessoas, em 2014. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), sistematizados pela Associação Nacional de Educação em Engenharia (Abenge), apesar do ingresso em cursos superiores ter aumentado, passando de 6,5% para 15,1%, entre 2001 e 2016, a evasão aumentou de 5,1% para 10,6% no mesmo período.
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Em 2017, no estado do Piauí, 2.427 alunos ingressaram em cursos de engenharia. Em contrapartida, 1.865 desistiram da graduação, de acordo com o Censo da Educação Superior. Desse número, 13 trocaram de curso, 393 trancaram e 1.459 se desvincularam da universidade. No ano passado, o estado ofereceu mais de 3.789 vagas distribuídas entre cursos ofertados por instituições públicas e privadas nas áreas de engenharia, como engenharia civil, elétrica, mecânica, computação, química, engenharia de produção, materiais e automotiva.
Na Universidade Federal do Piauí (UFPI), por ano, 10% dos alunos deixam os cursos de engenharia. Mas segundo a diretora do Centro de Tecnologia da UFPI, Nícia Formiga, a retenção também é um problema. De cada turma com 40 alunos, apenas 15 se formam. Segundo Nícia, a desistência dos alunos e as reprovações ocorrem devido à falta de disciplinas mais específicas e práticas no início do curso, o que dificulta o entendimento sobre o que é a profissão e o que realmente faz um engenheiro, e acaba desestimulando os estudantes.

Para tentar diminuir a reprovação e a evasão, a universidade tem investido em tutorias, espécie de aulas de reforço, para as disciplinas com cálculos. O projeto, que está sendo aplicado, inicialmente, no curso de Engenharia Elétrica, tem surtido efeito e já aumentou a aprovação em cerca de 40%. Além disso, a universidade está estudando e revendo os currículos para melhorar a dinâmica dentro do curso. “Os alunos começaram a chegar com dificuldades e nós começamos a trabalhar como se fosse um reforço, em uma das engenharias, para tentar diminuir a evasão. Os alunos mais avançados ajudam os que estão chegando, que tem mais dificuldade nessas disciplinas”, explica Nícia.
Para a diretora de Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), Gianna Sagazio, o alto índice de desistência mostra a fragilidade e a necessidade da modernização do ensino de engenharia, que, segundo ela, ainda segue o modelo idealizado há mais de 30 anos.
“O mundo está mudando muito rapidamente e a gente precisa preparar os nossos profissionais, os nossos engenheiros, para enfrentar esses desafios que já estão colocados aqui. Se a gente não tiver engenheiros preparados para os impactos dessa revolução digital, a gente não vai conseguir ser um país competitivo e nem gerar qualidade de vida para a nossa população”, ressalta.
Em junho de 2018, a CNI encaminhou, aos candidatos à presidência da República, propostas para a atualização do currículo dos cursos de engenharia identificadas a partir de um trabalho conjunto entre a CNI, líderes empresariais e reitores de importantes universidades, no âmbito da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI).
A diretora explica que foram definidos três eixos estratégicos para modernizar o ensino das engenharias no país: a modernização das diretrizes curriculares e metodologias, aprimoramento do sistema de avaliação e a valorização do trabalho dos docentes. De acordo com Gianna, para o Brasil avançar e se tornar um país inovador “é importantíssimo que a formação privilegie o domínio das competências ligadas ao desenvolvimento e à gestão de projetos, habilidades como o empreendedorismo, a liderança, a criatividade, a facilidade de trabalho em equipes multidisciplinares e a capacidade de aprendizagem autônoma”.