Por Cristiano Carlos e Juliana Gonçalves
A falta de gasolina nos postos de vários estados, causada pela greve dos caminhoneiros no final de maio, revelou a dependência do país pelos combustíveis fósseis.
A produção de etanol, biocombustível que poderia ser usado com mais frequência pelos proprietários de veículos, em substituição à gasolina, ficou estável nos últimos 10 anos, no país. De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, a UNICA, a produção média de etanol no período foi de 28 mil m³ por ano.
Nas duas últimas safras, 2016/2017 e 2017/2018, a produção de etanol estabilizou em pouco mais de 27 mil m³ por ano. Neste ano, o estado de São Paulo já é o responsável por pouco mais de 13 mil m³ de álcool.
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Segundo especialistas, a estabilização da geração de etanol nos municípios produtores não pode ser atribuída à falta de capacidade tecnológica das usinas. O problema é a falta de investimentos nas linhas de produção, que enfraquece o setor, contribui para o fechamento de usinas e para o desemprego nos principais municípios produtores.
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Desde 2005, 80 usinas foram fechadas no país. Apenas no estado de São Paulo, nos últimos dois anos, quatro usinas sucroalcooleiras foram fechadas, de acordo com a UNICA.
Brejo Alegre, por exemplo, teve uma usina sucroalcooleira fechada no início deste ano, a Revati. A crise na usina começou no segundo semestre do ano passado, quando demissões em massa começaram.
O motorista Valdir Pereira dos Santos, de 34 anos, trabalhou na usina durante nove anos e foi demitido durante o segundo semestre de 2017. Ele ainda não conseguiu um novo emprego. "Foi ruim. Um salário que a gente tinha todo mês para pagar as continhas da gente e hoje a gente não tem. A gente ainda está se mantendo com o dinheiro que sobrou da usina”, relatou.
A Revati demitiu cerca de 500 funcionários, nos últimos seis meses, de acordo com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Araçatuba e região, responsável em atender os profissionais de Brejo Alegre. Procurado pela reportagem, o Grupo Renuka do Brasil, proprietário da usina, não retornou para confirmar o número.
O presidente do sindicato, Aparecido Moura, conta que os funcionários demitidos da usina estão tendo dificuldades para retornarem ao mercado de trabalho. Ele teme que muitos trabalhadores deixem a região em busca de novas oportunidades. “O trabalhador acaba se sujeitando a qualquer outra atividade. E tem aquele que não consegue ser absorvido em outras atividades e acaba por mudar da região. O prejuízo não é só para ele. É para o comércio, para tudo. É uma sequência”, contou.
O prefeito de Brejo Alegre, Adriano Bonilha, do PV, revela que o fechamento da usina Revati causou prejuízos graves à economia local. “O impacto foi muito grande. O impacto financeiro foi enorme. A usina aqui é o carro chefe. É tanto na parte nossa de impostos, como na parte nossa de emprego. A maioria dos funcionários do município é da usina. Atualmente, está esse desemprego total aqui. Não afetou apenas a nossa, mas afetou a região inteira”, revelou.
O que aconteceu em Brejo Alegre pode refletir a situação do setor no estado. Das 156 usinas sucroalcooleiras instaladas em 129 municípios, 25 estão em recuperação judicial. Os números são da UNICA, levantados junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
Para o especialista em Economia Agrária da Universidade de Brasília, UnB, José Eustáquio Ribeiro, isso mostra que os empresários do setor sucroalcooleiro estão endividados e sem forças financeiras para novos investimentos. “No início da década de 2000, o governo sinalizou favoravelmente à produção de biocombustível. As empresas investiram muito no setor. A produção expandiu, mas, por volta de 2006, 2007, com a descoberta do Pré-Sal, houve uma especulação muito grande em torno do mercado de produção de petróleo e isso desestruturou a sinalizações que o governo vinha fazendo para o setor”, explicou.
Em ano eleitoral, os avanços e atrasos da matriz energética do país entram no debate dos presidenciáveis. O pré-candidato à presidência pelo PDT, Ciro Gomes, foi um dos que respondeu à nossa reportagem sobre o tema. Ele disse que as políticas públicas voltadas para o setor sucroalcooleiro devem ser tratadas com prioridade. “A quantidade de usinas que fechou no Brasil é criminosa. Porque teve um certo momento que o preço ficou impossível de honrar os custos, o setor foi obrigado a se endividar, lá se vem o juro para matar todo mundo, e isso hoje oprime muito esse setor sucroalcooleiro. Se nós regularmos, com prioridade, desde o biogás até o biocombustível mais sofisticado, o Brasil tem toda condição, se o governo ajudar na decolagem, de voar por si mesmo, e isso é uma das linhas do projeto nacional de desenvolvimento que eu tenho defendendo no Brasil”, falou.
Já o senador Álvaro Dias, pré-candidato à presidência do Podemos, acredita que o país precisa ampliar a produção de etanol por meio de investimentos em outras culturas, como algas e biomassa. “Faltam políticas que produzam um bom desenho do mercado para os biocombustíveis e que impulsione o desenvolvimento e o aperfeiçoamento tecnológico para uso de outras fontes para produção de etanol, como algas e biomassa, como os resíduos agrícolas”, sugeriu.
Nossa reportagem não teve retornos das assessorias dos pré-candidatos Geraldo Alckmin, do PSDB, Jair Bolsonaro, do PSL, Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, Guilherme Boulos, do PSOL, e Manoela D’Ávila, do PC do B.