Saúde - Covid-19·24 de janeiro de 2022

BRASIL 61 ENTREVISTA: Especialista no tratamento da Covid-19 recomenda alternativas para afastar risco de colapso no atendimento

Médico defende a adoção de testes e autotestes, a telemedicina e a boa orientação aos pacientes para evitar a demanda concentrada nos postos de saúde e a circulação do coronavírus

Por Katrine Tokarski Boaventura
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“É um ponto fundamental: separar a testagem do atendimento médico”, afirma o cardiologista Fabrício da Silva,  especialista em emergências clínicas que atua na linha de frente na assistência às vítimas da Covid-19, desde março de 2020. Os testes e a telemedicina seriam a alternativa para aliviar a sobrecarga nos sistemas público e privado de saúde por conta da coincidência, no Brasil, do surto de influenza com a disseminação da variante ômicron do coronavírus, altamente contagiosa, mas menos letal. 

O cardiologista Fabrício Silva se tornou um estudioso da Covid-19, publicou artigos sobre a doença e acompanha pacientes internados de perfis variados, inclusive autoridades públicas em Brasília (DF). O especialista recomenda a adoção em larga escala da testagem e do autoteste para que as pessoas contaminadas pelo coronavírus iniciem o quanto antes o isolamento. A telemedicina também serviria como solução para aliviar a busca por atendimento presencial nas redes pública ou particular. 

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Atestados e colapso no sistema de saúde

Para o médico, a exigência por atestados, para formalizar afastamentos do trabalho, agrava o risco de colapso.

“Um dos motivos da sobrecarga no serviço de saúde é a necessidade de o indivíduo apresentar um exame médico no trabalho quando apresenta sintomas gripais”, argumenta Fabrício. “Isso gera um grande impacto econômico e financeiro, que tem que ser levado em consideração, mas, mais do que isso, essa dinâmica da obrigatoriedade de apresentação do atestado médico acaba sobrecarregando ainda mais o serviço de saúde que, hoje, já se encontra saturado nas emergências.”

A crítica à burocracia vai adiante. “A gente atrelando a testagem a uma prescrição médica e a uma avaliação médica, afunila e cria um gargalo em relação à acessibilidade, sobrecarrega o serviço de saúde e faz com que aqueles indivíduos que realmente precisam de um atendimento médico emergencial tenham maior dificuldade para conseguir e isso faz com que a testagem não seja tão ampla como nós gostaríamos”, analisa o médico formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com especializações pelo Instituto de Cardiologia do Distrito Federal.

Telemedicina

A telemedicina, que prevê consultas com o uso de tecnologias digitais e que ganhou regulamentação do Conselho Federal de Medicina em setembro último, também aparece como indicação de ferramenta útil para diminuir a circulação do vírus e reduzir o risco de colapso. “O indivíduo que é positivo deveria ter um acesso precoce a informações e isso poderia ser feito por meio do teleatendimento, e não necessariamente por meio do atendimento médico”, diz o doutor Fabrício da Silva, que inclusive defende a prestação desse serviço por outros profissionais da saúde, enfermeiros e fisioterapeutas.

Com a pandemia perto de completar dois anos e as seguidas mutações do coronavírus, que ameaçam a efetividade das vacinas, o fantasma da sobrecarga no serviço de saúde se faz presente. Mas o cardiologista distingue problemas na testagem para identificação da contaminação pela Covid-19 de crise no sistema de saúde. “Isso é fato, há locais com carência de testes, mas não é necessariamente um colapso no atendimento”, explica o médico. “Na hora que conseguirmos separar e flexibilizar a forma de atendimento, as novas possibilidades vão reduzir a chance de colapso.”

Sintomas Covid-19

Feito o diagnóstico e confirmada a contaminação pela Covid-19, a preocupação quanto à correta e precisa orientação ao paciente está presente no discurso do especialista. “Sabendo dessa curva da evolução da doença, é importante que, logo na fase inicial, depois do diagnóstico, o indivíduo consiga acesso a informações, que entenda detalhes sobre o seu autocuidado, saiba quais são os sinais e sintomas de alerta”, diz Silva. O objetivo é evitar que a doença afete com gravidade os pulmões e torne a internação inevitável.

“No sexto ou sétimo dia, ele (o doente) precisa de uma avaliação médica para definição se há a necessidade de uma investigação mais a fundo, investigação com exame de imagem, tomografia para documentar que o paciente está entrando na fase da pneumonia”, comenta Silva. “Isso muda o tratamento, a abordagem clínica do paciente e faz com que a evolução, se evoluir para a pneumonia, seja mais branda.” Esse cuidado, segundo o médico, continua válido mesmo que a evolução para a forma mais grave da doença seja menos comum com a variante ômicron. “Precisamos de vigilância.”

Silva explica que a Covid-19 tem se manifestado nos pacientes em duas fases bem demarcadas. A primeira, que dura de três a cinco dias, podendo se estender a até sete dias, é o período gripal. Geralmente depois de uma semana desde o início dos sintomas, pode ocorrer a evolução para uma pneumonia causada pela contaminação com o coronavírus. E os infectados têm sofrido mais intensamente entre o décimo e o 13º dias, sempre contando da data de percepção dos primeiros incômodos.

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SOBRE

Katrine Tokarski Boaventura

Formada pela Universidade de Brasília (2000-2004), passou por redações de TV, nas emissoras TV Globo, Rede TV!, TV Brasília, SBT, Rede 21. e rádio (EBC e Agência do Rádio Brasileiro - ARB), além de trabalhos como freelancer em diferentes áreas. Doutora em Comunicação pela Universidade Brasília (2010-2014), dedicou-se a pesquisas em Comunicação e Interdisciplinaridade. No mestrado, pela mesma instituição (2007-2009), discutiu os Estudos Culturais Latino-americanos e sua influência nas pesquisas de recepção midiática. Professora de cursos de pós-graduação e graduação há mais de 12 anos, ministrou cursos de televisão e rádio para estudantes de Jornalismo e Publicidade, além de Teorias da Comunicação

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