Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Varejo cresceu 1,4% ao ano, em média, entre 2001 e 2022

Estudo publicado pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) aponta que, durante esse período, desempenho do setor foi impactado pelas oscilações da economia e pela pandemia da Covid-19. Especialista em finanças da CNDL afirma que volta ao patamar observado entre 2001 e 2013 depende de estabilidade política, ajuste das contas públicas e realização de reformas estruturais


O comércio varejista registrou um crescimento anual médio de 1,4% entre 2001 e 2022. O setor, que de 2001 a 2013 cresceu 5,2%, viu-se afetado por crises internas e a pandemia da Covid-19 nos últimos dez anos, o que prejudicou o desempenho observado a partir do início do século. É o que aponta o Panorama do Comércio, publicado pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL). 

O estudo traz dados sobre o comportamento do setor nos últimos 22 anos e aponta que, do ponto de vista das vendas, o comércio varejista viveu quatro momentos distintos durante esse período. O ciclo de maior prosperidade ocorreu entre 2001 e 2013, quando o volume de vendas do varejo cresceu a uma taxa média anual de 5,2%. 

Mas por causa da maior recessão econômica da história do Brasil, o setor viu o desempenho cair 2,8% ao ano, em média, entre 2014 e 2016. Entre 2017 e 2019, o comércio varejista retomou o crescimento a uma taxa média de 2,1%. A recuperação, no entanto, foi atrapalhada pela pandemia. De 2020 a 2022, o setor avançou 1,2%. 

Merula Borges, especialista em finanças da CNDL, explica que o setor é sensível às oscilações externas e que ainda não conseguiu retomar o ritmo de crescimento esperado. "Tem momentos ali de mais abastança, porque hoje a gente está falando de vinte anos. Só que tem momentos em que o mercado varejista oscilou. Quando a economia tem mais dificuldade para crescer, obviamente que o mercado também tem essa dificuldade. E na pandemia você tem o fechamento completo do comércio em alguns momentos e, então, tem um freio no varejo. Muitos setores ainda não tiveram a recuperação anterior à pandemia". 

Para a representante da CNDL, o ciclo virtuoso de crescimento do comércio varejista passa pela estabilidade política do país, pelo ajuste das contas públicas e pelas reformas tributária e administrativa. 

"A gente tem visto radicalismos e isso interfere bastante na aprovação das medidas que são necessárias pro crescimento do país. A gente precisa de um novo arcabouço fiscal que deixe uma segurança para o mercado e amenize a taxa de juros. Algumas reformas são importantes. É muito importante que a reforma tributária saia esse ano, porque é uma reforma complexa e não fazer isso no primeiro ano de governo deixa muito improvável que isso vá acontecer no restante do mandato", acredita. 

Segmentos

O levantamento mostra que dos oito segmentos pesquisados, apenas o de "livros, jornais, revistas e papelaria" viu o volume de vendas cair entre 2003 e 2022. A queda de 50% foi puxada pela digitalização do consumo de mídias, principalmente no caso dos jornais e das revistas, aponta o estudo. 

Por outro lado, o segmento de materiais para escritório, o qual incluiu os equipamentos de informática, cresceu 395% no período, seguido por "artigos farmacêuticos e médicos" e "outros artigos de uso pessoal e doméstico". Ambos registraram alta de 291%. 

"Isso tem muita relação com mudança de hábito de consumo. Você vê que vai muito para material de escritório, entra materiais de informática. Então, isso está relacionado a essa questão de mudança de hábitos, de estilo de vida, novas tecnologias", explica Merula. 

Juros e oferta de crédito

O Panorama do Comércio lembra que as projeções do setor bancário indicam que, apesar dos juros altos, do crescimento da inadimplência e das dificuldades que algumas empresas varejistas enfrentam, o crédito deve avançar em 2023. Segundo a Febraban, o setor bancário estima que a oferta de crédito ao longo do ano deve subir 8%. 

Apesar disso, o patamar da taxa básica de juros da economia, a Selic, em 13,75%, tem impacto, por exemplo, na taxa de juros média do cheque especial empresarial, que bateu 322% ao ano. Já a taxa do rotativo do cartão de crédito para as pessoas jurídicas chegou aos 296%.  

Merula Gomes explica que os juros altos dificultam o acesso ao crédito pelo comércio varejista, em especial os pequenos negócios. Isso contribuiu para que as empresas se arrisquem menos na tomada de financiamento para expansão das atividades, o que tem impacto na economia.

"Projetos que eram viáveis em outro momento, com uma taxa de juros mais alta deixam de ser viáveis e aí os empresários preferem frear um pouco os investimentos e isso interfere na economia como um todo, na disponibilidade de empregos. Fica mais difícil conseguir emprego e, quando consegue, a renda acaba ficando um pouco mais baixa, porque o mercado acaba ficando na posição de ter mais profissionais à disposição e acaba tendo esse efeito de poder pagar menos por um currículo melhor". 

Em fevereiro, o indicador que mede a confiança do comércio, apurado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), subiu 3,6% em relação a janeiro, alcançando os 85,8 pontos. Mas como está abaixo dos 100 pontos – marca que indica neutralidade –, o indicador sugere que a atividade econômica perdeu dinamismo ao longo dos últimos meses. 

De acordo com a metodologia do índice, resultados acima dos 100 pontos indicam que os empresários do setor estão otimistas, enquanto resultados abaixo desse patamar mostram pessimismo. 

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LOC.: O varejo cresceu 1,4% ao ano, em média, entre 2001 e 2022. O resultado seria melhor se o setor não tivesse sido atrapalhado pela queda da economia entre 2015 e 2016 e, mais recentemente, pela pandemia da Covid-19. É o que aponta um estudo da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL). 

A especialista em finanças da CNDL, Merula Borges, explica que o comércio varejista é sensível aos altos e baixos da economia brasileira e que ainda não conseguiu retomar o ritmo que foi observado entre 2001 e 2013, quando cresceu 5,2% ao ano, em média.
 

 

TEC./SONORA: Merula Borges, especialista em finanças da CNDL
"Tem momentos ali de mais abastança, porque hoje a gente está falando de vinte anos. Só que tem momentos em que o mercado varejista oscilou. Quando a economia tem mais dificuldade para crescer, obviamente que o mercado também tem essa dificuldade. E na pandemia você tem o fechamento completo do comércio em alguns momentos e, então, tem um freio no varejo. Muitos setores ainda não tiveram a recuperação anterior à pandemia". 


LOC.: Dos oito segmentos do varejo, apenas o de "livros, jornais, revistas e papelarias" viu as vendas caírem nos últimos 22 anos. A queda de 50% ocorreu principalmente porque as pessoas trocaram o consumo de livros e revistas de papel pelo formato digital. 

Por outro lado, o segmento de materiais para escritório, do qual os equipamentos de informática fazem parte, cresceu quase 400% no período. Os artigos farmacêuticos e médicos e outros artigos de uso pessoal e doméstico também crescerem bastante. Os resultados da pesquisa indicam que o gosto dos consumidores e a economia tomaram rumos diferentes. 

TEC./SONORA: Merula Borges, especialista em finanças da CNDL
"Isso tem muita relação com mudança de hábito de consumo. Você vê que vai muito para material de escritório, entra materiais de informática. Então, isso está relacionado a essa questão de mudança de hábitos, de estilo de vida, novas tecnologias".


LOC.: O estudo também mostra que o patamar da taxa básica de juros da economia encareceu as taxas de juros de outras ferramentas usadas como crédito pelo setor, como o cheque especial empresarial, que chegou aos 322% ao ano, e o rotativo do cartão de crédito para as empresas, que bateu os 296%. 

Reportagem, Felipe Moura.