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LOC.: Cinco trilhões e duzentos bilhões de reais. Um valor que dá a dimensão do problema: é equivalente ao Produto Interno Bruto de 2024 da Arábia Saudita, o segundo maior produtor de petróleo do mundo. Esse é o montante que o Brasil deve desembolsar com despesas primárias – gastos que saem diretamente dos cofres da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
A estimativa é da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, a CACB, com base na plataforma Gasto Brasil.
O levantamento indica que os desembolsos têm crescido a cada ano, o que revela um descontrole por parte das contas públicas, segundo o coordenador do Gasto Brasil, Cláudio Queiroz.
TEC./SONORA: Cláudio Queiroz, coordenador do Gasto Brasil e consultor da CACB
“Em 2023, demorou 341 dias para bater 4 trilhões. Em 2024, ele antecipou isso para 315 dias. Em 2025, ele já bateu um recorde, caiu para 296 dias. Essa falta de controle está começando a gerar essas antecipações de marcas.”
LOC.: O valor está, inclusive, acima da arrecadação. A plataforma “Impostômetro”, da Associação Comercial de São Paulo, estima que o governo central – que soma todas as receitas tributárias das três esferas federais – fechará o ano com 4 trilhões de reais arrecadados. Para poder pagar essas despesas, estados e municípios recorrem à União que, por sua vez, emite novos títulos da dívida pública, uma espécie de empréstimo com investidores privados para financiar o pagamento das contas.
Esses gastos movimentam a economia, geram emprego e renda – a taxa de desemprego de 5,4% é a mais baixa já medida no país –, mas também aceleram a inflação, diminuindo o poder de compra, principalmente dos mais pobres. Para contê-la, o Banco Central torna o acesso ao crédito mais custoso com o aumento da taxa básica de juros, a Selic – atualmente no maior patamar das últimas duas décadas.
Para piorar esse cenário, existem outros entraves que impedem o desenvolvimento do país. O “Custo Brasil” é composto por burocracias, regras fiscais pouco claras, desafios logísticos e infraestruturais que encarecem a produção e prejudicam a competitividade.
Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, revela que ainda há custos ocultos que acrescentam mais uma camada de dificuldade, como encargos.
TEC./SONORA: Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg)
“O custo da energia que a gente consome em casa não chega a 30% do nosso consumo total energético. Grande parte do nosso consumo total de energia é nos produtos e serviços que a gente adquire, não na conta de casa. Então, você está pagando todo o custo da luz em todos os produtos e serviços e tem 50% de encargo lá. Metade é encargo do governo, metade é energia.”
LOC.: Esses encargos são cobrados para concessão de benefícios sociais, como a tarifa social de energia. O dirigente defende tais políticas, mas que deveriam ser feitas a partir da arrecadação com alíquotas diferenciadas em impostos, e não de maneira velada com encargos setoriais.
Reportagem, Álvaro Couto.