Foto: Ascom HPCA
Foto: Ascom HPCA

“Falta de acompanhamento médico adequado durante o início dos sintomas pode contribuir para quadros graves da Covid-19”, afirma especialista

Portal Brasil61.com traz relatos de vítimas da Covid-19 que passaram por dificuldades, medos, inseguranças, dores e solidão durante o período de infecção do coronavírus


Em agosto do ano passado a secretária Michele Souza, 27 anos, moradora da cidade de Planaltina (DF), testou positivo para Covid-19 e o infortúnio surgiu durante a recuperação de uma crise de ansiedade. Michele conta que foi atacada por múltiplas sensações, de várias formas e ao mesmo tempo, como o medo.

“Quando peguei o exame e vi que o resultado era positivo fiquei abalada. A sensação que tive era que ia morrer e deixar meu filho. Foi desesperador”, relata a secretária. 

Logo que os primeiros sintomas da Covid-19 se manifestaram, a secretária buscou o pronto socorro. Já na recepção do hospital se deparou com uma nova realidade, onde a morosidade e a falta de informação adequada agem fortemente. 

Ao contrário dessa situação, Michele ansiava por diagnósticos exatos, respaldados em exames para ter tranquilidade. No entanto, a secretária relata que a reação do profissional foi de espanto, ao saber que estava diante de um quadro de Covid-19, quando para o médico o correto seria ela estar em casa e isolada. 

“Eu acho que muita gente morreu por isso. ‘Espera, está com Covid-19? Afasta’. E, por estar com Covid-19, eu deveria ser preferencial. Para não contaminar ninguém”, explica Michele Souza. 

A secretária insistia a cada consulta por exames, orientações, mas conta que toda informação repassada pela equipe médica, além de morosas, chegavam superficiais. Michele demorou aceitar os diagnósticos que evoluíram para cura, mas, de forma dolorida, com transtornos e estresses demasiados e segue com sequelas psicológicas e com tratamento, até hoje. 

No dia 22 de fevereiro a psicóloga Luana Karina Olivato, 33 anos, moradora da cidade de Sobradinho (DF), acordou ansiosa porque ia embarcar para uma viagem de descanso, longe do trabalho. Já se passava quase um ano de pandemia e a agenda lotada de pacientes exigia extremamente da mente e do corpo. 

Luana precisava parar e a viagem foi programada, até porque, em 2018, ela sofreu com trombo embolia pulmonar e a recuperação levou meses. O retorno ao trabalho foi considerado uma vitória pessoal e providencial, já que pôde contribuir no atendimento às vítimas da Covid-19. 

A expectativa era de dias tranquilos, descanso à beira mar, mas no segundo dia de férias, a mil e quatrocentos quilômetros distante de casa, a psicóloga apresentou os primeiros sintomas da Covid-19 e se isolou em um quarto da hospedaria. 

Confira os dados da Covid-19 da sua cidade aqui! 

As orientações sobre os cuidados e procedimentos no trato da doença foram repassados pela internet. Os médicos, por meio de videoconferência, fizeram o atendimento baseado nos relatos dos sintomas, apenas, sem exames ou testes para referência. Na cidade do interior não havia testes para Covid-19 disponíveis naquele dia e muito menos vagas para atendimento nos hospitais. Ela estava na penúria e teve medo de perder a vida. 

“Com muito medo. Me senti desamparada. Tinha muito medo de passar mal. A cidade, em que estava, já havia passado pelo boom de superlotação em hospitais. Foi mais um agravante que me causou pavor”, relata Luana Karina Olivato. 

A Covid-19 causou febre, inflamações, dores, falta de paladar, olfato, apetite e outras dezenas de sintomas na brasiliense.  A distância de casa e o isolamento foram gatilhos para a depressão e a falta de atendimento médico próximo, durante a fase crítica de manifestação da doença, trouxe crises de pânico.   

“O fato de ter um profissional próximo a você, que te oriente, te acalme, com certeza teria me trazido alívio. O fato de não ter hospital próximo, de não ter tido contato com médico, que me examinasse, que de fato verificasse os meus pulmões, me causou um desespero maior, me senti insegura”, explica, Luana Karina Olivato.

Fique em casa?

A sensação de solidão e morte que a secretária Michele Souza, e a psicóloga Luana Karina Olivato, conviveram causaram sequelas físicas e psicológicas e, segundo especialistas em saúde, é fator da falta de orientação, de acompanhamento médico próximo, já no período de início dos sintomas. Aliás, “a recomendação inicial era ‘uma vez com sintomas gripais, com diagnóstico da Covid-19, fique em casa e procure o hospital caso tenha queda de saturação ou piora na falta de ar’. Esse conceito caiu por terra. Hoje a recomendação é cada vez mais termos o acompanhamento de perto, o diagnóstico precoce”, explica Fabrício da Silva, especialista em Emergências Clínicas e no tratamento da Covid-19 na fase grave, do Hospital DF Star, Rede D’Or. 

Dr. Fabricio destaca que, mesmo nos casos leves da Covid-19, é necessário o acompanhamento médico de perto desde o início dos sintomas. Descartar a possibilidade de a doença evoluir para uma forma grave após os primeiros exames, segundo o médico, é um erro grave.  

“Sempre sugiro que tenha uma reavaliação lá pelo oitavo, nono dia, justamente para definir se o paciente vai ter uma potencial chance de evoluir para forma mais grave, se vai começar a esboçar pneumonia”, acredita. 

Covid-19: “Boa parte da mortalidade hoje, no País, acontece por mau manejo do tratamento médico”, avalia especialista

Os prejuízos e males causados pela Covid-19 ainda são um desafio para as equipes médicas e, por isso, acompanhar cada pessoa infectada, desde o início dos sintomas, é importante. Cada sinal pode indicar a forma de tratamento, e se for realizado cedo, com grandes chances de cura de amenizar possíveis casos graves da doença.   

“Realizar tomografia nessa fase é importante para definir o paciente que vai evoluir com acometimento pulmonar, com pneumonia pela Covid-19 e para tentarmos otimizar o tratamento medicamentoso. Eventualmente, envolver a fisioterapia nesse cuidado e já traçar o planejamento de reavaliação, entendendo que ele está entrando na curva de piora da inflamação, em que o pico vai se dar lá no 10º, 11º, 12º dia. Essa noção de evolução e acompanhamento de perto é fundamental”, pontua. 

Arte: Brasil 61

Continue Lendo



Receba nossos conteúdos em primeira mão.

LOC.: A nossa reportagem traz relatos de duas vítimas da Covid-19, Michele Souza, de 27 anos, e Luana Karina Olivatto, 33 anos. As duas mulheres passaram por dificuldades, medos, inseguranças, dores e solidão durante o período de infecção do coronavírus e acreditam, a exemplo de especialistas, que as dores e os traumas poderiam ter sido menores se tivessem conseguido acompanhamento médico já no início dos primeiros sintomas do coronavírus. 

Em agosto do ano passado a secretária Michele Souza, moradora da cidade de Planaltina (DF), testou positivo para Covid-19 e o infortúnio surgiu durante a recuperação de uma crise de ansiedade. Os primeiros sintomas da doença se manifestaram rapidamente e quando já estavam insuportáveis, ela buscou o pronto socorro. 

Michele esperava ter orientação e acompanhamento, mas viu o médico espantado por estar diante de um quadro de Covid-19, quando o certo, segundo o profissional de saúde, seria a secretária estar em casa, isolada. 

Michele se curou da doença após lutar por cada exame e diagnóstico de acompanhamento. No entanto, ela acredita que se tivesse ficado isolada completamente e não tivesse buscado orientação durante a fase dos primeiros sintomas, poderia ter entrado em um quadro clínico grave da Covid-19. 

TEC./SONORA: Michele Souza, secretária

“Eu acho que muita gente morreu por isso. ‘Espera, está com Covid-19? Afasta’. E, por estar com Covid-19, eu deveria ser preferencial. Para que eu não contaminasse ninguém.”

LOC: A psicóloga Luana Karina Olivato, moradora de Sobradinho, cidade administrativa do Distrito Federal, também foi vítima da Covid-19. Em uma viagem de férias, no interior da Bahia, a psicóloga relata que sentiu os primeiros sintomas da doença. Longe de hospitais, ela teve orientações médicas pela internet, mas, não foi suficiente porque a falta de exames e acompanhamento próximo de um profissional causaram medo e pânico.

TEC./SONORA: Luana Karina Olivato, psicóloga

“Com muito medo. Me senti desamparada. Eu tinha muito medo de passar mal. A cidade, em que estava, já tinha tido um boom de superlotação em hospitais. Foi mais um agravante que me causou muito medo, mesmo.”

LOC.: A sensação de solidão e morte, que Michele e Luana conviveram, causaram sequelas físicas e psicológicas e, segundo os especialistas em saúde, é fator da falta de orientação, de acompanhamento médico próximo, já nos primeiros sintomas. 

O especialista em Emergências Clínicas e no tratamento da Covid-19 na fase grave, da Rede D’Or, Fabrício da Silva, lembra que a recomendação atual é procurar um posto de saúde imediatamente após sentir os primeiros sintomas da Covid-19.

Para ele, é na fase inicial da doença que a equipe médica consegue perceber possíveis complicações futuras do coronavírus e, assim, agir na tentativa de amenizar os males antes da evolução grave do coronavírus. 

TEC./SONORA: Fabrício da Silva, especialista em Emergências Clínicas e no tratamento da Covid-19 na fase grave, da Rede D’Or

 “A recomendação inicial era ‘uma vez com sintomas gripais, com diagnóstico da Covid-19, fique em casa e procure o hospital caso tenha queda de saturação ou piora na falta de ar’. Esse conceito caiu por terra. Hoje, a recomendação é cada vez mais termos o acompanhamento de perto.”

LOC: Hoje, mais de 17 milhões de pessoas foram curadas da Covid-19 no país. No entanto, de acordo com pesquisa da faculdade de medicina da UFMG ansiedade e depressão, dores, fraquezas e fadigas, são sequelas deixadas por meses em algumas pessoas que tiveram a doença. 

Reportagem, Cristiano Ghorgomillos
 

NOTA

LOC.: Hoje, mais de 17 milhões de pessoas foram curadas da Covid-19 no país. No entanto, de acordo com pesquisa da faculdade de medicina da UFMG, ansiedade, depressão, dores, fraquezas e fadiga são sequelas que acompanham cerca de um terço daqueles que se curaram do coronavírus, por meses. 

A sensação de solidão e morte causam sequelas físicas e psicológicas e, segundo especialistas em saúde, é fator da falta de orientação, de acompanhamento médico próximo, já no período de início dos sintomas. 

Aliás, a recomendação atual é procurar um posto de saúde imediatamente após sentir os primeiros sintomas da Covid-19. Para o especialista em Emergências Clínicas e no tratamento da Covid-19 na fase grave, da Rede D’Or, Fabrício da Silva, é na fase inicial da doença que a equipe médica consegue perceber possíveis complicações futuras do coronavírus e, assim, agir na tentativa de amenizar os males antes da evolução grave da Covid-19.

Por isso, diante da suspeita de Covid-19 ou já nos primeiros sintomas a recomendação é buscar orientação em uma Unidade Básica de Saúde, o quanto antes, e seguir as orientações médicas.

Reportagem, Cristiano Ghorgomillos