Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados
Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados

Após pedido de vista, comissão da Câmara adia votação do fim da escala 6x1

Relator dá aval à PEC, mas manifesto do setor produtivo pressiona por adiamento do debate


O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados adiou a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da redução da escala de trabalho 6x1. O deputado Leur Lomanto Júnior (União-BA) concedeu vista coletiva à proposta.

O pedido foi liderado pelo deputado Lucas Redecker (PSD-RS), com apoio da bancada do PL, sob o argumento de que o tema é sensível e precisa de mais tempo de análise. Com isso, a tramitação fica suspensa por duas sessões plenárias deliberativas. A previsão é que a votação ocorra nos dias 28 ou 29 de abril.

Durante a reunião, o relator da PEC, deputado Paulo Azi (União-BA), apresentou parecer favorável à admissibilidade constitucional da proposta, que prevê a redução da jornada para o modelo 5x2, com 40 horas semanais. Apesar do aval, o parlamentar fez ressalvas importantes e incorporou ao relatório preocupações levantadas pelo setor produtivo.

Entre os pontos destacados estão o risco de “engessamento excessivo” ao incluir regras trabalhistas diretamente na Constituição e os possíveis impactos econômicos imediatos. Azi também defendeu a adoção de uma transição gradual, como ocorreu em países como Chile, Colômbia e México, além da criação de mecanismos de compensação para as empresas, como a redução de encargos sobre a folha de pagamento. Segundo ele, o cronograma deve considerar o porte das empresas para evitar prejuízos, especialmente aos pequenos negócios.

Se aprovada na CCJ, a PEC seguirá para uma comissão especial, onde serão debatidos o mérito e os detalhes técnicos. Depois, ainda precisará passar pelo plenário da Câmara e pelo Senado.

Paralelamente à PEC, o governo federal também apresentou o Projeto de Lei 1838/26, com urgência constitucional, propondo a redução da jornada de trabalho. O texto prevê limite de 40 horas semanais, dois dias de descanso remunerado e proíbe a redução salarial. A proposta mantém a jornada de oito horas diárias e permite que os dias de repouso sejam definidos por negociação coletiva.

Pontos da proposta do Executivo:

  • Jornada semanal: limite passa de 44 para 40 horas
  • Descanso: ao menos dois dias de repouso semanal remunerado
  • Novo padrão: consolidação do modelo 5x2
  • Salário: vedada qualquer redução salarial
  • Abrangência: inclui trabalhadores regidos pela CLT e categorias específicas
  • Aplicação geral: limite de 40 horas também para regimes diferenciados
  • Flexibilidade: mantém escalas como 12x36, respeitando a média semanal

Manifesto do setor produtivo pressiona Congresso

Em meio ao avanço das propostas, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) elevou o tom e passou a atuar diretamente no Congresso contra a tramitação acelerada da medida.

A entidade protocolou um manifesto no parlamento e no governo federal, assinado por mais de 60 entidades do setor produtivo, alertando para os impactos da redução da jornada sem um debate aprofundado. No documento, as organizações afirmam que o governo não tem considerado as “graves consequências” econômicas da mudança.

O posicionamento da CACB dialoga com as preocupações já mencionadas no relatório apresentado na CCJ e reforça a pressão por mais tempo de discussão. Para o presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto, o tema não deve ser tratado como instrumento político, especialmente em um contexto pré-eleitoral.

Segundo ele, a mudança pode gerar aumento de custos e afetar principalmente pequenos e médios empreendedores, que teriam mais dificuldade de adaptação. Por isso, o setor defende que a votação seja adiada e que o debate seja ampliado com todos os envolvidos, sugerindo que qualquer decisão fique para depois de 2026, com .implementação a partir de 2027

Sobre as PECs na Câmara

As propostas em análise na CCJ foram apresentadas pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), em 2019, e pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), em 2026.
A primeira estabelece jornada máxima de oito horas diárias e 36 semanais, com possibilidade de compensação por acordo coletivo, e prevê entrada em vigor em até 10 anos após a promulgação.

Já a proposta de Erika Hilton também fixa o limite de 36 horas semanais, mas propõe jornada de quatro dias por semana, no modelo 4x3, com implementação prevista um ano após a aprovação.

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LOC.: O presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados adiou a votação da Proposta de Emenda à Constituição que reduz a escala de trabalho semanal 6x1. O presidente da CCJC, deputado Leur Lomanto Júnior, do União da Bahia, concedeu vista coletiva à proposta. 

O pedido de vista foi encabeçado pelo deputado Lucas Redecker, do PSD do Rio Grande do Sul, apoiado pela bancada do PL, com o argumento de ser necessário mais tempo de análise por se tratar de um “tema sensível”. A medida trava a análise da matéria por duas sessões plenárias deliberativas, conforme o regimento. A previsão de Leur Lomanto Júnior é que a votação ocorra no dia 28 ou 29 de abril.

O relator da PEC, deputado Paulo Azi, do União da Bahia, minimizou a manobra do governo federal, que enviou nesta terça-feira, (14) um Projeto de Lei com urgência sobre a redução da escala. O deputado classificou a atitude como um "movimento político para marcar posição". Ele reafirmou que a PEC é a via jurídica mais adequada e previu que o tema poderá chegar ao Plenário entre o fim de maio e o início de junho.

A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, a CACB, se manifestou contra a discussão e a votação aceleradas, no Congresso Nacional, de propostas que tratam da redução da jornada de trabalho.

O presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto, afirma que o tema não deve ser utilizado como instrumento político. 

TEC./SONORA: Alfredo Cotait Neto, presidente da CACB

“O debate coincidir com um ano eleitoral é indesejável. Não é possível usar esse instrumento tão importante, quanto o trabalho, para um projeto eleitoral, porque isso vai prejudicar aqueles que não têm condições de absorver os custos decorrentes desta mudança.”


LOC.: A CACB também protocolou no parlamento e no governo federal um manifesto, assinado por mais de 60 entidades do setor produtivo, reiterando a preocupação com o projeto de lei em regime de urgência para tratar da redução da jornada de trabalho. 

No texto, a entidade defende que a votação seja adiada para 2027, para que sejam ouvidos todos os envolvidos no debate, especialmente os pequenos e médios empreendedores.

Reportagem, Lívia Braz, com narração de Paloma Custódio