Foto: Gilberto Sousa/CNI
Foto: Gilberto Sousa/CNI

Tarifa de Trump sobre produtos do Brasil pode afetar empregos, exportações e investimentos

Confederação Nacional da Indústria (CNI) vê prejuízo para mais de 10 mil empresas exportadoras e cobra diálogo técnico para preservar relação bilateral com os Estados Unidos


A decisão dos Estados Unidos de elevar para 50% as tarifas sobre produtos brasileiros gera preocupação na indústria nacional e pode causar prejuízos à economia brasileira. A medida, anunciada pelo governo do presidente Donald Trump, pode impactar diretamente cerca de 10 mil empresas brasileiras exportadoras, comprometer a relação histórica entre os dois países e ameaçar milhares de postos de trabalho.

O alerta vem da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo a entidade, a decisão foi recebida com surpresa e não encontra respaldo em dados econômicos. "Não existe qualquer fato econômico que justifique uma medida desse tamanho, elevando as tarifas sobre o Brasil do piso ao teto. Os impactos dessas tarifas podem ser graves para a nossa indústria, que é muito interligada ao sistema produtivo americano", afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban, em posicionamento divulgado na noite da quinta-feira (9).

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no último dia 9 de julho que, a partir de 1º de agosto, será aplicada uma tarifa de 50% sobre todos os produtos importados do Brasil. A decisão foi justificada como uma resposta à forma como o governo brasileiro tem tratado o ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado político de Trump, além de alegações de práticas comerciais “desleais”. 

Em resposta ao presidente americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou, no mesmo dia 9, uma nota oficial reafirmando a soberania do Brasil e o respeito às instituições nacionais. Lula destacou que o país não aceitará qualquer tipo de tutela externa e que os processos judiciais relacionados aos atos golpistas de 8 de janeiro são de competência exclusiva da Justiça brasileira. O presidente também negou a existência de um déficit comercial norte-americano em relação ao Brasil, como alegado por Trump, e reforçou que a relação bilateral deve se basear em respeito mútuo e cooperação econômica.

Impactos na economia e na indústria

Na avaliação da CNI, o aumento da tarifa de importação americana impacta a economia brasileira e abala a cooperação com os EUA. Em 2024, citou a entidade, para cada R$ 1 bilhão exportado para os Estados Unidos, foram gerados 24,3 mil empregos, R$ 531,8 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção. 

A CNI ressaltou ainda que a nova tarifa, se mantida, deve afetar diretamente a competitividade dos empreendimentos brasileiros. Resultados preliminares de levantamento feito pela entidade mostram que um terço das empresas brasileiras exportadoras para os EUA já relatam impactos negativos. A consulta foi realizada entre junho e começo de julho, ainda no contexto da tarifa básica de 10%.

Ainda de acordo com a entidade, os EUA são o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira – um setor que alcançou, em 2024, US$ 181,9 bilhões em exportações, registrando um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior. Os dados são da Nota Técnica: Desempenho da Balança Comercial Brasileira em 2024, elaborada pela confederação. O recorde foi motivado pelas exportações de bens de consumo não duráveis e semiduráveis, que cresceram 11% em relação a 2023.

Via diplomática

A CNI defende uma resposta diplomática imediata. "Que o equilíbrio e o diálogo técnico prevaleçam com a parcimônia e a determinação necessária", avaliou Alban.

O especialista em Direito Internacional, membro da Godke Advogados, Fernando Canutto, assim como o presidente da CNI, Ricardo Alban, acredita que o melhor caminho para proteger as empresas brasileiras é a via diplomática. 

“Entendo que a única via é a via diplomática. Apesar de os Estados Unidos ter perdido, ou melhor, diminuído sua influência como potência hegemônica nos últimos 20, 30 anos. Há 30 anos, eram os Estados Unidos e os outros países. Agora, China está atrás, Índia vem logo atrás. São parceiros que já têm poder de fogo, digamos assim, já têm uma economia quase tão grande quanto a norte-americana. Então, os Estados Unidos ainda é a grande potência. Os Estados Unidos ainda controlam o dinheiro mundial, controlam o comércio mundial”, destacou o jurista.
 

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LOC.:  A decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros gerou reação da indústria nacional. A medida foi anunciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e entra em vigor no dia 1º de agosto.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, a CNI, a nova tarifa pode afetar diretamente cerca de 10 mil empresas brasileiras exportadoras, além de comprometer a relação histórica entre os dois países e ameaçar milhares de empregos.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que a decisão foi recebida com surpresa e que não há base econômica para justificar o aumento da tarifa.
 

TEC./SONORA: Ricardo Alban, presidente da CNI
“Não existe qualquer fato econômico que justifique uma medida desse tamanho, elevando as tarifas sobre o Brasil do piso ao teto. Os impactos dessas tarifas podem ser graves para a nossa indústria, que é muito interligada ao sistema produtivo americano.”


LOC.: Trump justificou a medida alegando práticas comerciais desleais por parte do Brasil e a forma como o governo brasileiro tem tratado o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu no mesmo dia. Em nota oficial, reafirmou que o Brasil é um país soberano, com instituições independentes e que não aceitará nenhum tipo de tutela externa.

Lula também rebateu a alegação de déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil. Segundo dados da CNI, o país norte-americano mantém superávit nas trocas com o Brasil há mais de 15 anos. Só nos últimos 10 anos, o saldo positivo em bens foi de US$ 91,6 bilhões.

A indústria brasileira teme os efeitos da tarifa na economia. Em 2024, para cada R$ 1 bilhão exportado aos EUA, foram gerados 24 mil empregos, mais de R$ 500 milhões em salários e R$ 3,2 bilhões em produção nacional.

O especialista em Direito Internacional Fernando Canutto também defende a busca por soluções via diplomática.  Para ele, os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica global, mas o Brasil deve negociar com firmeza.
 

TEC./SONORA: Fernando Canutto, especialista em Direito Internacional
“Entendo que a única via é a via diplomática. Apesar de os Estados Unidos ter perdido, ou melhor, diminuído sua influência como potência hegemônica nos últimos 20, 30 anos. Há 30 anos, eram os Estados Unidos e os outros países. Agora, China está atrás, Índia vem logo atrás. São parceiros que já têm poder de fogo, digamos assim, já têm uma economia quase tão grande quanto a norte-americana. Então, os Estados Unidos ainda é a grande potência.”


LOC.: Os Estados Unidos são hoje o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira — setor que registrou recorde em 2024, com mais de US$ 181 bilhões exportados.

A indústria nacional espera que o governo brasileiro atue com agilidade e equilíbrio para evitar prejuízos maiores à economia e preservar uma relação bilateral de mais de 200 anos.