Foto: José Felipe Batista/Comunicação Butantan
Foto: José Felipe Batista/Comunicação Butantan

Doença de Chagas: após surto em Ananindeua (PA), 155 municípios prioritários recebem quase R$ 12 milhões

Repasse do Governo Federal busca fortalecer ações de vigilância, com medidas como captura e monitoramento de vetores e resposta rápida a focos em 17 estados

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No início de 2026, o Ministério da Saúde decretou surto da Doença de Chagas em Ananindeua (PA). Até a primeira semana de fevereiro foram registrados 42 casos e quatro óbitos na cidade, com os registros superando em 30% os notificados na cidade no mesmo período do ano passado. Dados preliminares de 2025 indicam 627 casos agudos, sendo 97% na Região Norte. Diante do quadro, o Governo Federal anunciou o repasse de quase R$ 12 milhões para ações de vigilância em 155 municípios prioritários.

O repasse foi publicado por meio da Portaria GM/MS Nº 9.628/2025 e é voltado a ações de vigilância e controle da Doença de Chagas em 17 estados do país. Os valores deverão ser aplicados em atuação contínua nas localidades prioritárias, com medidas de captura e monitoramento de vetores, vigilância e resposta rápida a focos. 

O incentivo financeiro é de caráter excepcional e temporário e será transferido, em parcela única, do Fundo Nacional de Saúde aos Fundos de Saúde Municipais e Distrital, conforme a Portaria.

Segundo a pasta, o cenário epidemiológico do país reforça a urgência das medidas de combate à Doença de Chagas. Em 2024, foram registrados 3.750 óbitos, com o maior índice na Região Sudeste. No mesmo período, houve 520 casos agudos, principalmente no Norte, com destaque para o Pará.  

Critérios de seleção de municípios

A seleção dos municípios considerou diversos critérios técnicos, como a vulnerabilidade das cidades e a interação dos insetos vetores com o ambiente. Foi dada prioridade para municípios classificados como de risco “muito alto” em índice da presença de vetores e condições socioambientais.

As localidades com registro recente do inseto conhecido como "barbeiro", cujas fezes abrigam o protozoário transmissor da Doença de Chagas, também foram priorizadas.

Segundo o Ministério da Saúde, também foram considerados municípios com alta prioridade e de muito alta prioridade, para a forma crônica da Doença de Chagas, concentrados especialmente nas regiões Nordeste e Sudeste.

Municípios contemplados

O repasse totaliza R$ 11,7 milhões e contempla 17 estados. Entre as UFs, o Pará recebe o maior valor, R$ 5,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 1,5 milhão e Pernambuco, que receberá R$ 820 mil. 

Os valores foram divididos entre os municípios com valores que variam de R$ 20 mil a R$ 250 mil por cidade, em parcela única. Entre as cidades contempladas estão Cavalcante (GO), Calçado (PE) e Novo Horizonte (BA).

A lista completa dos 155 municípios contemplados pode ser consultada na Portaria.

Epidemia descartada, mas cenário requer atenção

Apesar de o Ministério da Saúde decretar surto de em Ananindeua (PA), especialistas da Fiocruz descartam o risco de epidemia no país e alertam que a doença permanece ativa no Brasil, sendo impulsionada, especialmente, pela transmissão oral.

O médico infectologista e pesquisador do Laboratório de Pesquisa Clínica em doença de Chagas (LapClin Chagas) do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), Roberto Saraiva, explica a classificação de surto no início de 2026 no município paraense.

“Foi classificado como um surto porque houve um aumento dos números de casos em relação ao que costuma acontecer no município, mas não há riscos de epidemia no Brasil”, afirma Saraiva.

Já o farmacêutico bioquímico e pesquisador do Instituto Gonçalo Muniz (Fiocruz Bahia), Fred Luciano Santos, salienta que o Brasil tem registrado diversos surtos esporádicos, com maior frequência na Região Metropolitana de Belém “devido ao consumo artesanal de açaí e outros produtos locais”, aponta.

Para Fred, como a doença segue ativa no país há um risco de ocorrência de novos surtos. “Especialmente em áreas com condições sanitárias mais precárias, com produção artesanal de alimentos e sem fiscalização adequada”, completa.

A situação no Pará contou com a investigação de vários órgãos, como a Secretaria Estadual de Saúde do Pará, a Anvisa e o os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde.

Surto e contaminação oral

A transmissão da doença de Chagas por via oral possui relação direta com o consumo de alimentos contaminados pelo protozoário trypanosoma cruzi – causador da doença. O fruto pode ser contaminado com as fezes do chamado “barbeiro” ou durante a manipulação do açaí – que pode esmagar o inseto. 

Confira como evitar esse tipo de transmissão, segundo os especialistas:

  • Consumir produtos de origem confiável;
  • Observar a adoção de boas práticas de higiene.

“Para frear a transmissão oral da doença de Chagas é necessário que a população procure comprar seu alimento de quem o prepara adequadamente. Com isso, você pode reduzir a forma de transmissão da doença de Chagas  através da colheita adequada, do transporte adequado, do preparo adequado do alimento, para que não haja contaminação em nenhuma das etapas do ciclo do açaí”, salienta Saraiva. 

Diagnóstico e tratamento precoce

A doença de Chagas possui duas fases, uma aguda e uma crônica. A fase aguda pode ser sintomática ou não e a crônica pode se manifestar de maneira assintomática, cardíaca, digestiva ou cardiodigestiva.

Entre as consequências da doença estão a insuficiência cardíaca, dificuldade de engolir e prisão de ventre. Na fase crônica, os problemas cardíacos ou digestivos podem permanecer pelo resto da vida.

Confira os principais sintomas na fase aguda:

  • Febre prolongada (mais de 7 dias);
  • Dor de cabeça;
  • Fraqueza intensa;
  • Inchaço no rosto e pernas. 

O tratamento deve ser indicado por um médico. O SUS fornece o medicamento benzonidazol gratuitamente. 

Os especialistas afirmam que o diagnóstico e o tratamento precoce evitam a evolução para formas graves da doença e até mesmo o óbito.

Confira o mapa da Incidência da doença de Chagas (aguda) no Brasil 

 

Doença de Chagas no Brasil

Em 2006, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) uma certificação internacional pela interrupção da transmissão da doença de Chagas pelo Triatoma infestans – conhecido como barbeiro.

No entanto, dois focos permanecem no país, no estado da Bahia – em Tremedal e Novo Horizonte. Nas localidades, o Projeto Oxente Chagas, da Fiocruz, tem atuado com o rastreamento sorológico em toda a população urbana e rural com vistas a combater e controlar a doença. 

A expectativa é de que cerca de 30 mil habitantes sejam testados nas duas cidades até 2027.

Já no Rio de Janeiro, o LaPClin Chagas acompanha cerca de 800 pacientes com doença de Chagas crônica, com a oferta de diagnóstico, tratamento e suporte. 

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LOC.: Após o Ministério da Saúde decretar surto da Doença de Chagas em Ananindeua (PA), no início de 2026, o Governo Federal anunciou no último dia 14 de abril o repasse de quase R$ 12 milhões para fomentar ações de vigilância e controle da Doença de Chagas em 17 estados do país.  

O repasse foi publicado por meio da Portaria GM/MS Nº 9.628/2025 e os valores deverão ser aplicados em atuação contínua nas localidades , com medidas de captura e monitoramento de vetores, vigilância e resposta rápida a focos. 

Conforme a pasta, dados preliminares de 2025 indicam 627 casos agudos da doença, sendo 97% na Região Norte. 

Apesar de o Ministério decretar surto no município paraense no início de 2026, especialistas da Fiocruz descartam risco de epidemia no país.

No entanto, alertam para o risco de novos surtos ligados a alimentos contaminados pelo protozoário causador da doença. O fruto pode ser contaminado com as fezes do inseto conhecido “barbeiro” ou durante a manipulação do açaí – que pode esmagar o inseto. 

O farmacêutico bioquímico e pesquisador do Instituto Gonçalo Muniz (Fiocruz Bahia), Fred Luciano Santos, avalia que, como a doença segue ativa no país, há risco de ocorrência de novos surtos.

TEC./SONORA: Fred Luciano Santos,  farmacêutico bioquímico e pesquisador do Instituto Gonçalo Muniz (Fiocruz Bahia)

“O grande problema da doença nessa fase [crônica] é que cerca de 30 a 40% das pessoas vão desenvolver alguma forma grave da doença, e as principais complicações são os problemas do coração, como arritmias, insuficiência cardíaca, aumento do tamanho do coração, e também a risco de morte súbita.”


LOC.: Segundo o Ministério da Saúde, o cenário epidemiológico do país reforça a urgência das medidas de combate à Doença de Chagas.

Em 2024, foram registrados 3.750 óbitos, com o maior índice na Região Sudeste. No mesmo período, houve 520 casos agudos, principalmente no Norte, com destaque para o Pará.  

Para evitar a transmissão oral da doença de Chagas, a população deve consumir produtos de origem confiável. Especialistas indicam observar a adoção de boas práticas de higiene, como pontua o infectologista e pesquisador do Laboratório de Pesquisa Clínica em doença de Chagas (LapClin Chagas) do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, Roberto Saraiva:

TEC./SONORA: Roberto Saraiva, pesquisador do Laboratório de Pesquisa Clínica em doença de Chagas (LapClin Chagas) do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz

“Por isso, o diagnóstico da doença de Chagas é importante para que possamos identificar pacientes que já tenham problemas no coração, mesmo que não sintam nada, para que tomemos medidas para prevenir a insuficiência cardíaca, morte súbita e acidente vascular cerebral.”


LOC.: Para seleção dos municípios prioritários que receberão repasses voltados a reforçar ações de combate à Doença de Chagas, o Ministério da Saúde considerou diversos critérios técnicos,  considerands municípios com alta prioridade e de muito alta prioridade, para a forma crônica da Doença de Chagas, concentrados especialmente nas regiões Nordeste e Sudeste. 

O repasse totaliza R$ 11,7 milhões e contempla 17 estados. Entre as UFs, o Pará recebe o maior valor, R$ 5,3 milhões.

Os valores foram divididos entre os municípios com valores que variam de R$ 20 mil a R$ 250 mil por cidade, em parcela única. Entre as cidades contempladas estão Cavalcante (GO), Calçado (PE) e Novo Horizonte (BA).

A lista completa dos 155 municípios contemplados pode ser consultada em Brasil61.com ou na  Portaria do Ministério da Saúde Nº 9.628 de 2025.

Reportagem, Bianca Mingote