Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Amazônia consegue se regenerar mesmo após queimadas, mas se torna mais vulnerável, aponta estudo

Algumas espécies mais sensíveis desaparecem ou se tornam raras, enquanto outras, mais resistentes, passam a dominar


A Floresta Amazônica consegue se recuperar mesmo após sofrer impactos expressivos, como queimadas, períodos prolongados de seca e tempestades intensas. Árvores voltam a crescer e processos ecológicos se restabelecem. Porém, essa regeneração não ocorre exatamente como antes, já que a floresta se recompõe com menor variedade de espécies e maior sensibilidade a novos distúrbios.

Essa é a principal conclusão de uma pesquisa publicada na revista PNAS e baseada em duas décadas de observação em campo, conduzida por cientistas brasileiros. O estudo mostra que, após os danos, algumas espécies mais sensíveis desaparecem ou se tornam raras, enquanto outras, mais resistentes e capazes de lidar com ambientes difíceis, passam a dominar.

Efeito não leva à transformação em savana 

Os autores entendem que esse efeito sobre a vegetação não leva à transformação da Amazônia em savana, como algumas hipóteses sugeriam. Confirme o estudo, a floresta continua existindo, mas com composição mais simplificada e homogênea em determinadas áreas.

Mas ao mesmo tempo que demonstra capacidade de recuperação, o estudo chama atenção para um ponto crítico: a floresta alterada fica mais exposta a eventos extremos. 

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Secas mais intensas, incêndios frequentes e o avanço do desmatamento tornam o sistema mais frágil. As mudanças climáticas globais agravam este cenário, afetando funções essenciais da floresta, como o armazenamento de carbono e a regulação das chuvas.

Fenômenos climáticos de grande escala, como o El Niño — responsável por alterar padrões de chuva ao aquecer o oceano Pacífico — também interferem nesse equilíbrio, influenciando a frequência e a intensidade dos impactos.

Impactos são maiores nas bordas das florestas 

Os pesquisadores observaram diferenças importantes dentro da própria floresta. Nas áreas mais internas, longe das bordas, a vegetação se recompõe com mais rapidez quando o fogo é controlado, mantendo níveis relativamente estáveis de diversidade.

Já nas regiões próximas a áreas abertas, como pastos, estradas ou plantações, a recuperação é mais lenta e incompleta. Entre 2004 e 2024, essas bordas perderam parte significativa da variedade de espécies, com reduções que chegaram a quase metade em alguns casos. A diversidade de espécies diminuiu entre 20% e 46% no período de 2004 a 2024.

Isso ocorre porque o contato com áreas abertas altera temperatura, umidade e outros aspectos do microclima.

Outro elemento que influenciou esse processo foi a presença de gramíneas. Elas se espalharam principalmente nas bordas após incêndios mais severos e contribuíram para a ocorrência de novos focos de fogo mais intensos, dificultando a regeneração de árvores. Algumas dessas plantas são de origem africana, como a Andropogon gayanus, além de espécies como Imperata e Aristida longifolia, associadas a ambientes de pastagem.

Com o avanço da vegetação arbórea ao longo do tempo — especialmente a partir de meados da década de 2010 — essas gramíneas foram perdendo espaço. Hoje, sobrevivem apenas em pequenas áreas mais sombreadas. Isso indica que, apesar das mudanças profundas, não há evidências de uma conversão permanente da floresta em um ambiente semelhante ao de savana.
 

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LOC.: Uma nova pesquisa mostra que a Floresta Amazônica consegue se recuperar mesmo depois de sofrer impactos fortes, como queimadas, períodos de seca prolongada e tempestades intensas. O estudo, feito por cientistas brasileiros e publicado na revista PNAS, acompanhou a floresta ao longo de DUAS DÉCADAS.

Os pesquisadores observaram que, depois desses danos, a vegetação volta a crescer e a floresta continua existindo. No entanto, ela não se recompõe exatamente da mesma forma de antes.

Com o tempo, algumas espécies mais sensíveis acabam desaparecendo ou ficando raras. Em seu lugar, espécies mais resistentes, que suportam melhor ambientes difíceis, passam a dominar a paisagem. Isso faz com que a floresta fique um pouco menos diversa em algumas áreas.

O estudo também descarta a ideia de que a Amazônia esteja se transformando em savana. Segundo os cientistas, isso não está acontecendo. A floresta permanece como floresta, mas com mudanças na sua composição e em parte de seu equilíbrio.

Outro ponto importante é que a recuperação não é igual em todos os lugares. Nas áreas mais internas da floresta, longe de estradas e pastagens, a regeneração costuma ser mais rápida e completa. 

Já nas regiões de borda, onde há contato com áreas abertas, a recuperação ocorreu de forma mais lenta, e a diversidade de espécies diminuiu entre VINTE POR CENTO e QUARENTA E SEIS POR CENTO no período de 2004 a 2024.

Os pesquisadores também destacam o papel das gramíneas, que podem se espalhar após incêndios mais fortes e aumentar o risco de novos focos de fogo, dificultando a recuperação das árvores.

Por outro lado, ao longo do tempo, principalmente a partir de meados da década de 2010, parte dessas gramíneas perdeu espaço com o avanço da vegetação de floresta.

Reportagem, Marquezan Araújo