Brasil - Alimento·03 de fevereiro de 2021

Mais da metade das famílias com crianças e adolescentes que estudam em escola pública não recebeu alimentação escolar durante fechamento na pandemia

Em pesquisa, 54% das famílias declararam não terem recebido alimentação da escola

Por Flávio MacedoFlávio Macêdo faz parte da produção de reportagem do Brasil 61 desde janeiro de 2020. Antes disso, teve passagem como freelancer pelo SBT Brasília, Prezz Comunicação e fez estágio na redação da TV Band, em Brasília.
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Com a pandemia da Covid-19, os cuidados com a saúde exigiram mudanças no comportamento da sociedade, inclusive na maneira de trabalhar e estudar. Para atender às medidas preventivas à doença, as escolas deixaram de receber professores, alunos e funcionários presencialmente e passaram a oferecer um ensino remoto.

Com esta medida, alguns pontos entraram em discussão. Além de questionamentos sobre a disponibilidade de equipamentos eletrônicos e de internet para acesso às aulas, soma-se também o desafio do acesso à alimentação escolar para alunos da rede pública de ensino.  

Diante disso, as famílias passaram a receber kits com comidas da alimentação escolar destinados aos alunos. As compras são realizadas por meio Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), coordenado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). 

Apesar disso, uma pesquisa realizada pelo UNICEF aponta que mais da metade (54%) das pessoas que moram com crianças e adolescentes que estudam em escola pública, não receberam alimentação da escola durante o período de fechamento por causa da Covid-19.  Entre aqueles que recebem até 1 salário mínimo, 42% declarou não ter tido acesso à alimentação escolar durante a pandemia.

Morador de Tauá, município do sertão dos Inhamuns cearense, Antônio Gonçalves Neto, de 25 anos, foi um dos pais de família que chegou a receber alguns kits de alimentação escolar durante a pandemia. Ele conta que os filhos Pedro Lucas Gonçalves, de 5 anos, e Isabela Reis, de 12, estudam em escola pública, e tiveram acesso, por cinco ou seis vezes, a cestas contendo itens como leite, biscoito, frutas e arroz.

Mesmo achando que a quantidade de alimentos fornecidos não era grande, o auxiliar de almoxarifado de uma fábrica de calçados se diz satisfeito por receber os kits, principalmente por causa das dificuldades financeiras que a população está vivendo em meio a atual crise sanitária. “A gente recebe com muito carinho e gratidão”, disse.

“Acho interessante porque é um benefício a mais para o aprendizado da criança. Também é bom saber que estamos sendo lembrados pela escola. Agradeço muito por receber, é uma forma de ajuda que a gente tem do governo. Porque o momento que estamos passando é muito difícil e ninguém sabe como será o dia de amanhã”, pontua Antônio.

Apesar de famílias como a de Antônio Gonçalves terem recebido os kits da alimentação escolar, o quadro preocupa a chefe Saúde do UNICEF no Brasil, Cristina Albuquerque. A primeira rodada da pesquisa do UNICEF, realizada em julho de 2020, também aponta que 92% das famílias entrevistadas disseram não ter recebido doações de alimentos de forma alguma, seja por meio do governo ou de outras instituições.

“Essa é uma questão que mostra uma dificuldade de suprir a necessidade da fome dessas famílias. Também mostra que precisamos pensar em políticas públicas abrangentes para evitar esse tipo de situação em crise. Que não acontece somente na crise, mas que foi agravada durante a pandemia”, avalia.

Aulas presenciais

Na avaliação do presidente da Undime Região Nordeste, Alessio Costa Lima, as escolas fechadas causam um alerta, já que, segundo ele, os gestores públicos vão continuar com dificuldades para distribuir os kits de forma universal.

“Para não prejudicar o cardápio, no sentido de desfalcar determinados itens que, quando são distribuídos via escola, tem uma determinada per capta e quantidade, e quando vai ser feito uma distribuição via kits de alimentação escolar para ser entregue às famílias, já é outra forma de cálculo, é importante que sejam quantificados de forma adicional, possibilitando a entrega nos primeiros meses do ano, caso a situação volte a se regularizar”, orienta.

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 “Alguns municípios optam por fazer tomadas de preço da alimentação escolar para mais de um ano. Os entes que trabalham dessa forma têm maiores quantidades de itens para formar seus kits por um período de tempo maior. Mas, para os municípios que fazem tomada de preço para apenas um ano, ou outra forma de licitação levando em conta apenas o ano vigente, seria prudente prever um adicional, sobretudo de itens que compõe o kit de alimentação escolar”, aconselha.

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Reportagem, Marquezan Araújo

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Sobre a repórter

Flávio Macedo

Flávio Macêdo faz parte da produção de reportagem do Brasil 61 desde janeiro de 2020. Antes disso, teve passagem como freelancer pelo SBT Brasília, Prezz Comunicação e fez estágio na redação da TV Band, em Brasília.