Saúde·10 de setembro de 2018

SAÚDE CRÔNICA: Reencontro com a vida

Por Agência do Rádio
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Trabalho como jornalista há mais de dez anos, e nesse tempo fui enviado para muitos lugares a fim de contar a história da vida de pessoas em diversas situações. Infelizmente, nem todos os relatos puderam ser felizes. Uma de minhas entrevistas foi a respeito do setembro amarelo, mês que se tornou o símbolo da luta para prevenir o suicídio. Naquela ocasião, conversei com uma menina com os dezessete anos recém-completados.

 

Era noite e o relógio marcava nove horas quando começamos a conversar na sala de sua casa. As mãos dela se agitavam em espasmos leves, incontroláveis, se escondendo sob a mesa na medida em que o relato ficava mais intenso. Os olhos castanho-esverdeados estavam inquietos demonstrando uma tristeza profunda e perturbadora que contrastava com as belas linhas de seu jovem rosto. Mechas ruivas de cabelo insistiam em pousar sobre os olhos enquanto a menina falava de forma calma – o que contrariava os trejeitos do restante de seu corpo.

 

Sua voz embargou em alguns momentos, mas seguiu firme ao lembrar o momento que transformou a doce menina de seis anos em uma fugitiva da própria vida, perdida em pensamentos melancólicos que não encontravam mais prazer nas miudezas cotidianas, preferindo a solidão de um quarto escuro, embalada pelo sono. Essa angústia instantaneamente me fez recordar da antiga canção de Simon & Garfunkel, que dizia “Olá escuridão, minha velha amiga, eu vim falar com você novamente”.

 

Passei pouco mais de duas horas ouvindo as agruras de uma vida pouco experimentada. Foi muito difícil aceitar que a mocinha sentada à minha frente já tinha pensado sobre a morte como uma forma de escapar das dores inexplicáveis que a assolavam. Ainda hoje ouço sua voz em minha mente, quando ela me falou:

 

“Tive amigos que cometeram suicídio por não ter com quem conversar ou pelos pais acharem que aquela tristeza não era nada. Já tive de ligar para a mãe de uma amiga e explicar a gravidade da situação antes que algo ruim ocorresse. Então é claro que pensei em cometer também, mas a força que recebi da minha família sempre me impediu de cair nesse poço sem fundo”.

 

Tenho a nítida sensação de que ao mesmo tempo em que nossa conversa fluía tranquila, a pequena ruiva me dizia com os olhos “escute minhas palavras que talvez eu possa te ensinar”. E sua declaração silenciosa realmente me guiou para dentro de um mundo complexo: o suicídio. Ao me lembrar disso, estremeço arrepiado ainda hoje. 

 

Cheguei a questionar se ela tinha noção da seriedade de toda aquela conversa. Abaixando a cabeça para encarar meu bloco de anotações, perdida em pensamentos, pude apenas ouvir sua voz de forma simples.

 

“Sabe o que é mais irônico? Até hoje não contei nada disso para nenhum amigo, e mesmo assim muitos me procuram para conversar sobre essa tristeza sem fim, essa dificuldade em sorrir para o mundo. E eu sempre aconselho da forma mais positiva e acho que dá certo. Conversar faz bem. E agora eu experimento isso com você, durante uma entrevista”.

 

Em uma breve pausa naquela história, pude sentir uma brisa noturna entrando pela janela às nossas costas, o que deixou o clima mais agradável. Resolvemos mudar de assunto para falar sobre literatura, um tema que ela adora e, pela primeira vez naquela noite, pude ver um sorriso sincero em seus lábios. Alguns anos depois daquela entrevista, ainda procuro pela jovem, e ela sempre me garante: está tudo bem, estou feliz.


Por Janary Damacena.

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