Por Paulo Henrique Gomes
Goiás foi um dos cinco estados escolhidos pelos Departamentos Nacionais do Serviço Social da Indústria (SESI) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) para fazer parte do projeto-piloto de implantação do novo modelo curricular do ensino médio no ano passado. 38 alunos de uma turma da Unidade Integrada SESI/SENAI de Aparecida de Goiânia cursaram o primeiro ano do ensino médio, juntamente com o curso técnico de eletrotécnica e já utilizaram a nova metodologia. A previsão é que a experiência pedagógica seja expandida para outras quatro unidades do SESI, no estado, neste ano.
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O novo método oferece um modelo de ensino através de um currículo integrado por áreas de conhecimento, e não mais por disciplinas. Os cinco itinerários trabalhados são: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica profissional.
Só que para passar os conteúdos de forma adequada ao método, os professores precisam agir de forma diferenciada. É o que defende o diretor da escola SESI/SENAI em Aparecida de Goiânia, Adair Prateado, que utilizou a nova metodologia em 2018. “Eu queria reforçar muito a importância do professor, de um professor aberto, de um professor com vontade de fazer diferente. Tem o empenho em tecnologia, tem a internet, tem a pesquisa, que tá muito alinhado ao adolescente, ao jovem. A essência do projeto é a capacidade do professor de tentar desenvolver uma forma diferente para chegar em uma educação transformadora, com significado”, defende.
O aprendizado contextualizado e integrado é uma das novidades trazidas pelo novo ensino médio, que começou a ser implementado pelo SESI e pelo SENAI, com 226 alunos, em 2018, nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás e Espírito Santo.
Na opinião de Adair Prateado, os professores agem como mediadores dos conteúdos. “O grande diferencial também é que o professor se transforma em um mediador de conhecimento. O professor aprende junto com eles alguns conteúdos e eles trabalham com uma dinâmica diferente que está provado que eles retêm mais os conhecimentos por ter mais significado”, afirma.
A nova norma prevê que os alunos do ensino médio terão 1.800 horas de formação geral básica, que será orientada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e até 1.200 horas de itinerários formativos, como aprofundamento de estudos.
O professor de física da escola SESI/SENAI, em Aparecida de Goiânia, Rodrigo da Silva, desenvolveu o projeto “Que onda é essa?”. O trabalho faz parte da metodologia de ensino aplicada no novo ensino médio e tem como objetivo explorar conteúdos de química, física e biologia de forma integrada, com foco em aplicar os conhecimentos relacionados ao conteúdo de ondas.
Segundo o educador, a proposta de ensino é que o conteúdo seja repassado aos alunos sem burocracia, como, segundo ele, era feito no modelo de ensino antigo. “O projeto ‘Que onda é essa?’ tem o objetivo de fazer o aluno perceber um conteúdo que normalmente é tratado burocraticamente no livro, é tratado burocraticamente no quadro da sala de aula, de uma forma real, de uma forma contextualizada. Porque nesse novo ensino médio, o que a gente busca? A gente busca, principalmente, motivar os estudantes no ensino médio a construir o seu conhecimento de forma que ele não fique desmotivado e que ele não ache chata a aula”, afirma.
Rodrigo da Silva destaca a importância de integrar as disciplinas para que o aluno tenha um ensino contextualizado. “Nós integramos as disciplinas de química, física e biologia para que ele entenda os fenômenos de uma forma mais tranquila, mais integrada. Então o grande objetivo era que ele compreendesse o assunto ondas, mecânicas e eletromagnéticas, e as suas aplicações. Mas que ele compreendesse de fato, que ele compreendesse fazendo”, disse.
O diretor da escola SESI/SENAI em Aparecida de Goiânia, Adair Prateado, também destaca o trabalho multidisciplinar e garante que aprovou o projeto. “Foi uma atividade com todas as áreas. Até arte contemporânea foi usada, até grafite foi feito no muro aqui sobre essa atividade. Então realmente foi muito bom, foi a prova de que a gente tem condição de fazer esse trabalho, movimentar todos os alunos. E esse conteúdo das ondas, por exemplo, vai ficar para eles para a vida inteira”, defende.
O novo modelo
Ao todo, são três mil horas para todo o ensino médio, que começa com maior ênfase nos conteúdos gerais e, gradualmente, aumenta o número de horas-aula para a formação técnica e profissional. No primeiro ano, são 800 horas para conteúdos gerais e 200 horas para aulas sobre iniciação ao mundo do trabalho. No segundo ano, são 600 horas para conteúdos gerais e 400 horas para formação técnica e profissional. No terceiro ano, isso se inverte: são 400 horas para formação geral e 600 horas para a habilitação técnica.
Segundo a pedagoga e especialista em gestão escolar Juliana Diniz, o novo ensino médio é positivo e precisa dar conta da formação do sujeito em todas as suas funções: integral, ético, justo e capaz de transformar o mundo no qual atua. “Nos parece que essa proposta traz um quê de modernidade, possibilitando que cada um dos alunos escolha determinados interesses e com isso tenha chance de melhorar a qualidade daquilo que se constrói, processo de escolha, o empoderamento desse aluno, o considerando pessoa de potência. Olhando ainda para uma concepção, essa ideia de trabalhar o ensino médio por percursos formativos, tende a ser uma boa experiência.”
Futuro
Para 2019, o SESI e o SENAI programam uma expansão do modelo em suas unidades. Novos estados serão atendidos e novas habilitações serão ofertadas. Além de Eletrotécnica, os estudantes poderão optar pelas áreas de Matemática, Ciências da Natureza, Técnico em Mecânica ou Técnico em Rede de Computadores.
O ministro da Educação na época, Rossieli Soares homologou, no fim de novembro de 2018, as Diretrizes Curriculares Nacionais do novo ensino médio. A proposta foi relatada pelo diretor-geral do SENAI, Rafael Lucchesi, que é integrante do Conselho Nacional de Educação. Segundo ele, nenhum país se desenvolveu sem fazer uma grande aposta em educação, ciência, tecnologia, inovação, que são pilares fundamentais de uma agenda de país, e no Brasil não poderá ser diferente. “A expectativa é da população brasileira. É claro que temos um grave problema na indústria brasileira que é a baixa qualidade, a baixa escolarização da média populacional brasileira, o que faz com que a produtividade do trabalho no Brasil seja muito baixa”, diz Lucchesi.
Brasileiros são a favor de mudanças no ensino médio
Segundo uma pesquisa do IBOPE de 2016, 72% dos entrevistados são a favor de mudanças no ensino médio e 70% são a favor de que os estudantes escolham as disciplinas em que irão se aprofundar e possam optar pela formação técnica no ensino médio.