Brasil - Transporte·28 de agosto de 2020

“O avião é o meio de transporte mecânico mais seguro de todos”, garante presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas

Em entrevista exclusiva ao Brasil 61, Eduardo Sanovicz, presidente da Abear, afirma que companhias têm estudado protocolos de segurança internacionais para retomada do setor e projeta “normalidade” dos voos domésticos somente em 2021

Por Jalila ArabiJornalista formada há 15 anos e pós-graduada em língua portuguesa, com experiência em redação, rádio e assessoria de imprensa. Antes de ingressar na redação do Brasil61, passou por importantes órgãos, como Inep/ MEC, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Frente Nacional de Prefeitos e Federação Nacional dos Policiais Federais, além de realizar cobertura dentro do Congresso Nacional. Experiência também em gerenciamento de crise, redação, edição e revisão de textos, produção de conteúdo de rádio e assessoria.
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O novo coronavírus causou uma crise sem precedentes em todo o mundo e prejuízos não só na saúde, mas em vários setores. Com a determinação dos órgãos oficiais da saúde de manter isolamento social para frear o contágio da doença, a aviação brasileira amargou queda no número de voos e na frota aérea. 

Segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o mês de abril foi tido como o “pior momento” para o setor. “Nós tivemos 8% de malha no ar. Uma redução, portanto, de 92%. É a pior crise na história da aviação desde 1945, período da Segunda Guerra Mundial”, lamenta o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz. 

Eduardo ressalta, no entanto, que o setor foi um dos poucos que não parou completamente. Isso porque os aviões foram essenciais para o transporte de equipamentos e de profissionais que têm ajudado no combate à pandemia. “Se olharmos os países vizinhos, tudo parou. Nós ficamos de pé principalmente pela complexidade que é, de Brasília para cima, chegar com equipamentos, respiradores, exames, testes, remédios se não for de avião. Embora os passageiros tenham desaparecido, porque foram para casa corretamente se cuidar, era fundamental manter a carga no ar”, observa o presidente da Associação. 

De abril para cá, tem sido registrado um crescimento lento e constante, de acordo com Sanovicz. Em agosto, 35% da frota estava no ar. “O setor já estava atendendo 61% dos aeroportos que atendíamos antes da crise, embora com número de voos ainda bastante reduzidos. Aeroportos que antes tinham sete ou oito voos hoje estão recebendo um, eventualmente dois voos, porque não há demanda para transportar”, pontua. 

O presidente da Associação afirma, em entrevista exclusiva ao portal Brasil 61, que já vem sendo estudado um protocolo nacional junto às autoridades para que os voos sejam retomados com segurança, validada, inclusive, internacionalmente.

“O protocolo será o mesmo de Macapá (AP) até Porto Alegre (RS). E por que isso é importante? Digamos que um passageiro pegue um voo em Maringá (PR). De lá, ele vai até Guarulhos (SP) e troca de avião para ir até Madri, na Espanha. Ele só será autorizado a desembarcar em Madri se a autoridade sanitária espanhola estiver segura que, desde Maringá, o passageiro seguiu os protocolos corretamente”, exemplifica. 

Eduardo Sanovicz reforça a importância de seguir as orientações dos comissários e dos profissionais do setor, que vêm sendo treinados para garantir uma viagem mais segura. “Em todos os voos, os comissários reafirmam a necessidade de embarcar com distanciamento, ficar de máscara o tempo todo, avisam sobre a suspensão do serviço de bordo e, principalmente, sobre a existência do filtro hepa, que puxa o ar de cima para baixo nas aeronaves o tempo todo, sendo o ar da aeronave trocado completamente a cada três minutos.”

Se todos estiverem usando máscaras e mesmo com um passageiro ao lado, segundo Sanovicz, o risco de contaminação é quase nulo, já que há essa renovação do ar pelo filtro hepa. “O filtro vai sugar o que eventualmente passar por sua máscara, o que faz do avião o meio de transporte mecânico mais seguro de todos. O filtro hepa é mais eficaz do que aquela de salas cirúrgicas”, assegura. 

No bate-papo com o Brasil 61, Eduardo Sanovicz comenta também sobre a queda no número de viagens aéreas no interior do País e avalia como o encolhimento da arrecadação nesses lugares impactou o setor. “Quando se tem cidades em que corretamente as pessoas foram para casa, cessaram as atividades e o contato físico para preservar a vida, você tem uma demanda muito menor por voos. As pessoas estão em casa, estão preservando a saúde. Logo, não estão viajando. A queda no número de voos é consequência das atitudes tomadas pelas pessoas de se protegerem contra a crise”, avalia.

Em relação a esse ponto, ele critica a falta de uniformidade de um plano de retomada por parte do governo federal, especialmente para o setor. “Esse é um desafio. Como não há um plano nacional unificado de prevenção e combate à crise, você tem 27 programas diferentes, um em cada estado. Então, a evolução de cada um deles é diferente. Estamos atendendo à demanda na medida em que ela aparece”, avisa.

Ele alerta que a retomada da “normalidade” não deve ocorrer neste ano. “A nossa expectativa é de que, ao longo do ano que vem, provavelmente no segundo semestre, tenhamos o mercado doméstico praticamente recomposto. Para o mercado internacional, as melhores expectativas falam de mais três anos para retomá-los de maneira integral.”

Confira agora a entrevista completa.

Olá, sejam bem-vindos ao Entrevistado da Semana. Eu sou Jalila Arabi e comigo está o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz. Nós vamos conversar sobre como a pandemia afetou o setor e as expectativas para os próximos anos.  

Eduardo Sanovicz, muito obrigada por nos receber. 

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“O prazer é meu.” 

A gente viu que o setor aéreo foi bastante afetado pela crise do coronavírus. Como está sendo a retomada das empresas áreas? 

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“No pior momento, em abril, nós tivemos 8% de malha no ar. Uma redução, portanto, de 92%. É a pior crise da história da aviação desde 1945 – e antes de 1945 era a Segunda Guerra Mundial. Vale resgatar que a aviação brasileira foi uma das poucas em todo o planeta que não parou completamente. Se a gente olha aqui na América Latina, em países vizinhos e diversos outros, a aviação parou. Nós ficamos de pé principalmente por conta da complexidade que é, de Brasília para cima, chegar com um conjunto de equipamentos, respiradores, exames, testes, remédios se não for de avião. Embora os passageiros tenham praticamente desaparecido, porque as pessoas foram corretamente para casa se cuidar, era fundamental manter a carga no ar.”

Como as empresas têm se preparado para enfrentar a crise com segurança?

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“De abril para cá, desses 8%, fomos crescendo lentamente e estamos chegando ao final de agosto com 35% da frota no ar, atendendo já a 61% dos aeroportos que atendíamos antes da crise, embora com número de voos bastante reduzido. Aeroportos que antes tinham sete ou oito voos hoje estão recebendo um, eventualmente dois voos, porque não há demanda para transportar. Há dois meses e meio, começamos um debate no País, e depois com nossos parceiros estrangeiros e internacionais, para criar um protocolo de segurança que permitisse a todos voar de maneira tranquila. Esse protocolo foi validade pelas autoridades sanitárias brasileiras e é o mesmo de Macapá (AP) a Porto Alegre (RS) e essa regra foi validade internacionalmente.” 

O senhor pode citar alguns desses protocolos? 

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“Em todos os voos, os comissários reafirmam a necessidade de embarcar com distanciamento, ficar de máscara o tempo todo, suspensão do serviço de bordo e principalmente a existência do filtro hepa, que é o filtro que puxa o ar de cima para baixo nas aeronaves o tempo todo e, a cada três minutos, troca completamente o ar da aeronave. Portanto, se você está sentado no avião de máscara e ao seu lado tem alguém de máscara, ainda que você fale na direção dessa pessoa, o que eventualmente passar pela sua máscara o filtro suga, o que faz do avião o meio de transporte mecânico mais seguro de todos, comparado com qualquer outro – carro, ônibus, navio, bicicleta, moto, seja lá o que for. O avião é bastante seguro desse ponto de vista. Para se ter uma ideia, esse filtro é mais eficaz do que aquele que tem em uma sala cirúrgica.”

De acordo com levantamento da Associação, alguns aeroportos como: Aeroporto do Vale do Aço, em Ipatinga (MG); Aeroporto de Macaé (RJ); Aeroporto de Caxias do Sul (RS); Aeroporto de Parauapebas (PA), além de outros destinos, estavam sem ligação em agosto. Qual a expectativa das empresas aéreas para voltarem a fazer voos para esses municípios? 

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“A nossa expectativa para o final do ano é estar com o dobro de malha no ar do que estamos agora. Hoje, aproximadamente 35% da malha está no ar e estamos bastante seguros de que, ao final do ano, estaremos com mais de 60% da frota no ar.”

Qual o balanço que o senhor faz para o setor até o momento e qual a expectativa para daqui a um ano?

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“O setor vive a crise mais grave de toda sua história. Não há registro de uma crise desse tamanho, não há registro em toda a literatura técnica, não há registro de nada semelhante. As companhias aéreas estão lutando bravamente para superar isso. Dos 20 maiores grupos de aviação do planeta, 13 foram objeto de decisão por parte de seus governos, de empréstimos, subsídios ou algum tipo de parceria. Aqui no Brasil, avançamos muito nos temas ligados à infraestrutura e regulação, nos temas econômicos, que são fundamentais – como um pedido de empréstimo que fizemos ao BNDES. O retorno de impostos e tarifas ainda estão bastante complicados, mas esperamos que cheguemos logo a uma conclusão. 

Para um ano, no qual em dezembro do ano passado eu dava entrevistas dizendo que a expectativa de crescimento era de 6% a 9%, e que hoje vemos menos de um terço da frota no ar, você imagina os resultados. A nossa expectativa é de que, ao longo do ano que vem, provavelmente no segundo semestre, tenhamos o mercado doméstico praticamente recomposto. Para o mercado internacional, as melhores expectativas falam de mais três anos para retomá-los de maneira integral.”

É isso. Nós conversamos com o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz. Muito obrigada pela participação no portal Brasil 61. 

TEC./SONORA: Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
“Não, eu que agradeço. Obrigada você e um bom final de dia.” 

O Entrevistado da Semana fica por aqui. Obrigada pela sua audiência e até a próxima. Tchau! 

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Jalila Arabi

Jornalista formada há 15 anos e pós-graduada em língua portuguesa, com experiência em redação, rádio e assessoria de imprensa. Antes de ingressar na redação do Brasil61, passou por importantes órgãos, como Inep/ MEC, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Frente Nacional de Prefeitos e Federação Nacional dos Policiais Federais, além de realizar cobertura dentro do Congresso Nacional. Experiência também em gerenciamento de crise, redação, edição e revisão de textos, produção de conteúdo de rádio e assessoria.