Por Tácido Rodrigues, com colaboração de Raphael Costa
As notificações de pessoas com suspeita de dengue em Maringá diminuíram quase 80% em comparação ao ano passado. Segundo a Vigilância Epidemiológica do município, foram notificados até 17 de outubro 1.911 casos da doença, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. No ano passado, o órgão registrou 9.287 notificações.
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Apesar da redução, de agosto a setembro deste ano, Maringá foi o município do estado que mais registrou casos confirmados de dengue: 31. No mesmo período, a cidade contabilizou 303 casos suspeitos notificados, atrás de Londrina (515) e Foz do Iguaçu (323). Os dados constam no boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado no último dia 10.
Para a gerente da Vigilância Epidemiológica de Maringá, Pricilha de Oliveira, os dados demonstram a eficácia de ações preventivas e visitas de agentes a áreas de risco. “Notamos uma queda significativa, mas é claro que o número (casos confirmados) ainda preocupa. Precisamos controlar ainda mais o mosquito”, ressaltou.
O clima é um fator que dificulta o combate ao Aedes no município. “Por se tratar de uma região quente e chuvosa, o município tende a sofrer com o ciclo do mosquito. Por isso, é tão importante que a população faça sua parte”, explicou Pricilha. De acordo com o Serviço de Alerta Climático de Dengue, feito semanalmente pelo Laboratório de Climatologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Maringá, Cambará, Guaratuba, São Miguel, Santa Helena e Guaíra apresentaram risco médio com relação a desenvolvimento de criadouros.
O sistema de alerta permite identificar a formação de situações atmosféricas favoráveis à reprodução e atuação do Aedes aegypti no estado. A análise dos dados meteorológicos permite traçar um perfil climático diário das diferentes regiões paranaenses no que diz respeito à formação de ambientes mais ou menos favoráveis à infestação do mosquito e, portanto, à maior ou menor incidência de casos da doença.
Mobilização
Uma das principais ações no combate ao mosquito da dengue é a informação. Em Maringá, a Paróquia São Mateus Apóstolo, em parceria com o Grupo de Estudos e Ações Comunitárias (GEAC), lançou no início do mês o livro infantil “Geaquinho e o Fundo dos Vales”. A ideia surgiu a partir dos mutirões de limpeza, realizados nos vales da cidade entre o final do ano passado e início deste ano.
O projeto se baseou nas fotos dos mutirões e as transformou em ilustrações. O livro conta de forma lúdica como as ações ocorreram, e tem como público alunos da rede pública de Maringá, do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental. Estão contidas na obra infantil dicas como não deixar água parada em recipientes e colocar areia em vasos de plantas.
A coordenadora do GEAC, Solange Marques, afirma que o primeiro contato dos alunos com a obra é através de encenações nas escolas. “Com esse livro, nosso objetivo é levar essa conscientização. Queremos que essas crianças conversem com as famílias e entendam a importância das ações”, explicou.
Solange sabe bem o perigo do mosquito. Ela afirma que uma tia foi infectada pelo vírus da dengue. Por conta da idade avançada, o tratamento foi demorado e trouxe preocupação para a família. O livro, segundo a coordenadora do GEAC, ainda será distribuído para os colégios da cidade. A expectativa é que cada unidade de ensino receba cerca de 30 exemplares.
O panorama em Maringá é diferente ao que ocorre no estado. No Paraná, a incidência de dengue é de 0,58 casos por 100 mil habitantes. De acordo com informações da Secretaria de Saúde do Paraná, de agosto a setembro deste ano, foram notificados 2.625 casos suspeitos de dengue, dos quais mais da metade foram descartados (1.506).
Segundo a chefe do Centro de Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde do Paraná, Ivana Belmonte, o estado não registrou nenhuma epidemia de dengue no último ano epidemiológico (agosto de 2016 a julho de 2017). “Isso reforça o quanto o estado tem trabalhado na prevenção, tanto na mobilização social quanto no acompanhamento periódico dos agentes de combate a endemias”, garantiu.
Investimentos
Em setembro deste ano, o Ministério da Saúde repassou recursos extras de R$ 1,9 milhão ao Paraná para combate ao mosquito, que também transmite zika e chikungunya. Os recursos, segundo a chefe do Centro de Vigilância Ambiental do Paraná, foram repassados aos municípios com base no Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa) e seguem o mesmo modelo adotado pelo SUS. “Os municípios têm essa fonte de recurso e devem aplicar em ações preventivas, tanto para custeio quanto para investimento. Isso ocorre através do plano de ação, que precisa ser aprovado pelo conselho municipal de saúde.”
O LIRAa é um mapeamento rápido dos índices de infestação por Aedes aegypti. É feito geralmente em capitais e municípios de regiões metropolitanas com mais de 100 mil habitantes e que tenham um grande fluxo de turistas e de fronteira. Com ele, é possível identificar os criadouros predominantes e a situação de infestação do município, além de permitir o direcionamento das ações de controle em áreas mais críticas. No Paraná, apenas oito municípios não adotam o índica por não se adequarem aos requisitos, o que representa menos de 1% do total de cidades paranaenses.
Inseticida
Com o objetivo de monitorar a resistência de mosquitos Aedes aegypti a inseticidas, o Ministério da Saúde solicitou uma pesquisa nacional em 145 municípios. O estudo, coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), é realizado em parceria com as Secretarias de Saúde de todos os estados brasileiros, além das prefeituras das cidades envolvidas.
Os agentes de endemias, que receberam capacitação no início do ano, têm atuação fundamental no processo. Eles são responsáveis por coletar ovos do mosquito em diferentes regiões do território nacional e enviar o material para análise no Rio de Janeiro. O estudo tem previsão de duração até 2018.
No Paraná, Maringá, Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão, Londrina e Paranavaí foram escolhidas para participar da pesquisa nacional. Segundo a chefe do Centro de Vigilância Ambiental do Paraná, foram levados em conta alguns critérios para a seleção dos municípios. “O primeiro critério é que essas cidades são locais que tem tido epidemias no estado. O segundo diz respeito à distribuição geográfica. E por fim, o município ter capacidade de fazer a colocação e o recolhimento das armadilhas, conforme as instruções do Ministério e da Fiocruz”, afirmou Ivana Belmonte.
Por isso, segundo o especialista, é importante conhecer como estão as populações de mosquitos em todas as regiões do país.
Dessa forma, “é possível planejar um rodízio de uso dos inseticidas disponíveis”. Atualmente, nas situações em que o inseticida pode ser recomendado como medida complementar, o Ministério da Saúde indica o uso da substância pyriproxyfen para uso no combate a larvas e do malathion para uso em mosquitos adultos. As duas substâncias, segundo Lima, serão alvo do estudo.
Metodologia
Para o recolhimento de ovos de Aedes aegypti em todos os estados brasileiros, foi adotada uma metodologia com o uso de armadilhas de fácil manipulação, chamadas ovitrampas. Segundo o pesquisador, o uso de ovos para as análises tem uma vantagem com o uso de outras fases do mosquito, já que, por sua alta resistência, os ovos podem ser envelopados e enviados por correio para as análises em laboratório.
A etapa de coletas começou em agosto. “Já começamos a receber amostras de ovos e iniciamos as análises. Estamos bastante satisfeitos, pois até o momento estamos recebendo amostras em perfeito estado, o que mostra que o treinamento tem sido eficaz”, completou José Bento Lima.