“Explicações”, “satisfações”, “desabafo”... Foi nesse tom e com essas justificativas que o presidente Michel Temer escreveu uma carta a deputados e senadores. Em um texto de quatro páginas, Temer, que enfrenta uma acusação de crimes de corrupção na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, fez questão de se dirigir diretamente àqueles que voltarão a julgá-lo pelas denúncias da Procuradoria-Geral da República.
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"É um desabafo. É uma explicação para aqueles que me conhecem e sabem de mim. É uma satisfação àqueles que democraticamente convivem comigo", diz um trecho da carta. Em outra parte, se diz vítima de uma perseguição. "Para mim é inadmissível. Não posso silenciar. Não devo silenciar. Tenho sido vítima desde maio de torpezas e vilezas que pouco a pouco, e agora até mais rapidamente, têm vindo à luz. Jamais poderia acreditar que houvesse uma conspiração para me derrubar da Presidência da República. Mas os fatos me convenceram. E são incontestáveis."
Às vésperas da votação da segunda denúncia que coloca na berlinda o seu mandato, o presidente enfrenta um desgaste inesperado com um dos seus principais aliados. O presidente da Câmara Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro, se irritou com o advogado de Temer. Responsável pela defesa do presidente, Eduardo Pizarro chamou de “vazamento criminoso” a divulgação dos vídeos com a delação do doleiro Lúcio Funaro. Ele disse não saber, mas o depoimento foi disponibilizado pelo site da Câmara dos Deputados. Maia chamou o advogado de “irresponsável” e “incompetente”.
Desde a semana passada, o presidente da Câmara vinha dando sinais de seu descontentamento com o Planalto. Avisou que mandaria de volta medidas provisórias que não tiverem relevância ou urgência de votação. Isso aconteceu depois que o governo esvaziou o plenário para conseguir manter a sessão de leitura do relatório da denúncia na CCJ. E uma MP de interesse do Banco Central vai caducar sem ser votada. Pelo regimento, a abertura da ordem do dia encerra qualquer reunião de comissões.
Ainda na carta, Michel Temer acusa o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de ter articulado com o empresário Joesley Batista as acusações feitas contra ele. "Tudo combinado, tudo ajustado, tudo acertado, com o objetivo de: livrar-se de qualquer penalidade e derrubar o presidente da República". Em um momento, refere-se o dono da JBS como “delinquente”.
Na conclusão da carta, Temer falou da “modernização reformista do país”, apresentou um gráfico comparando dados da economia antes e depois do seu governo, e defendeu a união popular. E disse: “Em toda a minha trajetória política a minha pregação foi a de juntar os brasileiros, de promover a pacificação, de conversar, de dialogar."
De Brasília, Hédio Júnior