Foto: Reprodução Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Reprodução Valter Campanato/Agência Brasil

Tarifaço de Trump ameaça sobrevivência de pequenas e médias empresas brasileiras, alerta setor produtivo

Com taxação de 50% imposta pelos EUA, pequenos e médios exportadores brasileiros correm risco de desaparecer; setor produtivo pede ação urgente do governo e alerta para impactos no emprego e na inflação

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 A taxação de até 50% sobre produtos brasileiros anunciada pelo governo dos Estados Unidos acendeu um alerta vermelho no setor produtivo brasileiro. Para entidades como a CACB, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, e especialistas em direito tributário, a medida representa um risco direto à sobrevivência de pequenos e médios exportadores. “Essa taxação não é só um entrave comercial. É uma ameaça direta à sobrevivência de milhares de pequenos e médios empresários que investiram pesado para acessar o mercado norte-americano”, afirma Alfredo Cotait Neto, presidente da CACB.

Impacto desproporcional e risco de colapso

Na avaliação do advogado tributarista e sócio do Vernalha Pereira. Luis Claudio Yukio Vatari, embora o impacto sobre grandes cadeias exportadoras — como carne, aço, café e laranja — seja evidente, são os negócios de menor porte que estão mais vulneráveis.

“As diferenças entre os grandes e pequenos exportadores são inúmeras. Uma multinacional, por exemplo, pode readequar a produção entre filiais e amortecer o impacto. Já as pequenas e médias empresas, que não têm estrutura ou margem para negociar com o mercado, podem simplesmente desaparecer do mapa”, alerta Vatari.

O presidente da CACB ainda destaca que hoje há cerca de 2 mil pequenas e médias empresas brasileiras exportadoras para os EUA, com um volume anual de US$ 500 milhões. “Pode parecer pouco perto dos quase US$ 40 bilhões das grandes, mas estamos falando de empresas com cadeias produtivas próprias, altamente especializadas. Se forem excluídas da pauta de exportação, o prejuízo será imenso para a economia real”, diz.

Emprego em risco e cenário inflacionário

A CACB alerta que o efeito dominó pode chegar rapidamente ao mercado de trabalho e à inflação. “Essas empresas são as que mais empregam no Brasil. Se quebram, o desemprego dispara — e, com ele, a pressão sobre o consumo, o crédito e o próprio ambiente de negócios”, aponta Cotait.

Yukio reforça que, além do desemprego, há poucos caminhos para mitigar os efeitos no curto prazo: “Não existe mecanismo tributário que compense essa perda. Exportações são, por regra, isentas. Um apoio estatal mais incisivo poderia configurar prática abusiva e levar o Brasil a ser denunciado na OMC, da mesma forma que os EUA estão sendo agora.”

Reciprocidade? Não agora, dizem especialistas

Para a CACB, a solução está na diplomacia e no diálogo. “Negociar está no nosso DNA. O governo brasileiro precisa liderar esse processo com inteligência e responsabilidade técnica. O viés político deve ficar fora dessa mesa”, defende Cotait.

Yukio concorda: “Retaliar com a mesma moeda pode parecer justo, mas tem efeitos colaterais. Quem paga a conta é o consumidor. O caminho mais eficaz seria acionar os mecanismos legais, como a OMC, para contestar a medida. Trata-se de uma violação clara das regras do comércio internacional.”

A entidade propõe, como medida emergencial, o adiamento da entrada em vigor das novas tarifas. “Ganhar tempo é essencial. Um adiamento de 60 dias pode abrir margem para acordos mais equilibrados”, sugere Cotait.

Na OMC, o Brasil tem chance

Segundo Yukio, o país tem base legal para questionar a medida. “O Brasil pode sim recorrer à OMC. As tarifas impostas extrapolam as regras previstas em tratados como o GATT. Já tivemos outras disputas semelhantes, e esse caso se encaixa perfeitamente para levar à Organização.”
Apesar do cenário desafiador, ambos os entrevistados descartam ações precipitadas. “Estamos num cenário de inflação alta, juros elevados, déficit público gigantesco. Uma escalada tarifária só agravaria a crise”, resume Cotait.

Negociações

O governo brasileiro reafirmou que continuará na mesa de negociação com os Estados Unidos para tentar barrar o tarifaço de 50% sobre produtos nacionais, previsto para entrar em vigor no dia 1º de agosto. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou que já foram enviadas duas cartas ao governo americano, sem retorno até o momento, e que o presidente Lula determinou o engajamento do Itamaraty e da equipe econômica na tentativa de evitar o agravamento do impasse comercial.
 
 

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 LOC: O tarifaço anunciado pelo governo dos Estados Unidos pode colocar em risco a sobrevivência de milhares de pequenos e médios empresários brasileiros. A nova medida impõe taxas de até 50% sobre produtos do Brasil — e quem mais pode sofrer com isso são os exportadores de menor porte.
Alfredo Cotait, presidente da CACB, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, alerta que essas empresas não têm fôlego para suportar esse tipo de pressão.
 

TEC/SONORA: ALFREDO COTAIT, presidente da CACB

“Esta taxação vai causar, se houver reciprocidade do Brasil, um aumento de custo interno que vai gerar mais inflação. E essa inflação, o instrumento de combate é o aumento da taxa de juros. As empresas já estão em uma situação muito difícil, com a taxa de juros da ordem que se encontra, e se aumentar vai ser um desastre total.”
 


LOC.: Segundo a CACB, hoje o Brasil tem cerca de 2 mil pequenas e médias empresas exportadoras para os EUA, movimentando cerca de 500 milhões de dólares por ano. O valor é pequeno perto das grandes exportações, mas essas empresas têm cadeias produtivas próprias e são altamente especializadas no mercado americano.
O advogado tributarista Luis Claudio Yukio Vatari, explica que retaliar com a mesma moeda — ou seja, aplicar tarifas semelhantes contra os EUA — pode ser perigoso para o próprio Brasil. Ele defende o caminho diplomático e o uso de mecanismos legais.
 

TEC/SONORA: Luis Claudio Yukio Vatari, advogado tributarista e sócio do Vernalha Pereira Advogados 

“É por isso que o empresariado está visitando o Governo Federal para que abra uma discussão com o governo Americano, para que não seja necessário tomar outras atitudes. Porque não somos só nós que vamos perder, tanto cidadãos brasileiros, como os americanos. Então existe o interesse sim, de sentar e negociar.”
 


LOC.: A CACB defende que o governo brasileiro negocie com os Estados Unidos e peça o adiamento da medida. Um prazo de 60 dias poderia abrir espaço para acordos mais equilibrados.
A entidade também alerta que uma guerra comercial só agravaria os problemas internos do país, como a inflação alta, os juros elevados e o déficit público.

Reportagem, Livia Braz