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LOC.: Há muitos anos os cientistas alertam sobre os prejuízos do aquecimento do planeta. No Brasil, pescadores já sentem diversos impactos no seu dia a dia. O aquecimento das águas, a migração das espécies nos oceanos e os eventos climáticos extremos vêm transformando a pesca em todas as regiões. Josana da Costa, pescadora de Óbidos, no Pará, conta que foi em 2023 que sentiu, pela primeira vez, os efeitos da emergência climática.
TEC/SONORA: Josana da Costa, pescadora artesanal, Óbidos/PA
"O rio nunca tinha secado daquele jeito. Dava para atravessar caminhando, sem precisar olhar para os pés, porque não havia água. Aquilo nunca tinha acontecido. Houve vários lagos que secaram completamente. Os que não secaram, a água ficou muito quente. Foram muitas toneladas de peixe que morreram e aquela água que era nosso consumo deixou de ser porque não havia condições de consumo humano. Naquele momento, percebi que não era apenas uma mudança climática, era uma tragédia. Com o aquecimento da água, muitas toneladas de peixes morreram. A água, que antes era para o nosso consumo, deixou de ser potável. Isso impactou a economia, a saúde, o nosso modo de ser e a nossa tradição, foi um impacto total."
LOC.: No Sul do país, pescadores enfrentam outros desafios, como ressacas frequentes que inviabilizam pescarias, além de quebras de safras importantes como a do camarão e da tainha, gerando muitos prejuízos. Isso não é só a percepção de quem vive nos territórios pesqueiros de todo o litoral brasileiro. Os dados da 5ª edição da Auditoria da Pesca Brasil, publicada pela Oceana, revelam que o país não está preparado para enfrentar desafios como esses impostos pelas mudanças climáticas. Metade das pescarias estão sem monitoramento e há escassez de dados básicos como a quantidade de pescados que é produzida. Com isso o planejamento para enfrentamento de crises no setor pesqueiro fica impossibilitada, agravando ainda mais a situação daqueles que dependem da pesca como fonte de renda e alimento. O pesquisador e professor da Universidade Vale do Itajaí (Univali), Rodrigo Sant’Ana, explica o impacto dessas mudanças.
TEC/SONORA: professor e pesquisador Rodrigo Sant’Ana, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali)
"Hoje a gente já observa sinais das alterações climáticas na atividade pesqueira. Alterações na composição de captura: que lá no passado tinham predominância de espécies de águas mais frias, hoje já têm predominância de espécies de águas mais quentes. É o início de pensar em uma mudança, e isso vai desde a atividade de remoção de pesca até o consumidor. Hoje, o consumidor está muito voltado ao grupo de espécie que ele está habituado a se alimentar, e é por isso que a pesca permanece consumindo aqueles recursos. Em um cenário de alteração, quem consome tem que estar aberto a aceitar essas novas espécies."
LOC.: O estudo da Oceana também propõe um conjunto de ações estruturantes, como a aprovação do Projeto de Lei 4789/2024, que estabelece uma nova política para a atividade de pesca nacional baseada na ciência, na gestão sustentável dos recursos pesqueiros e no combate à pesca ilegal, dentre outras medidas. Sem políticas públicas voltadas para a adaptação climática, o relatório alerta, a atividade pesqueira e as comunidades que dela dependem podem ser impactadas de forma cada vez mais grave e frequente.
Reportagem, Livia Braz